Capítulo Quatro
POV da Alessia
Ninguém respondeu à minha pergunta.
Meu pai foi o primeiro a quebrar o silêncio, num tom impaciente. — Lá vamos nós de novo. Toda vez você age como se a gente quisesse te fazer mal. É só um teste. O Rocco te conseguiu o melhor médico de Valentia. O que poderia dar errado?
Minha mãe soltou a mão da Chiara e me lançou um olhar duro. — Vai começar com joguinho outra vez? O incidente com o Viktor não foi vergonha suficiente? Vai se arrumar e não se atrase.
Rocco tirou uma chave do bolso — prateada, com o logo de uma Lamborghini — e colocou em cima da mesinha de centro, empurrando na minha direção. — Quando você voltar, é sua.
Eu encarei a chave. Uma vez ele tinha me dado um carro — um esportivo preto, blindado, placa 0824, meu aniversário. O vidro tinha sido feito sob medida pra mim. Foi o primeiro presente dele, a primeira prova de que eu achei que ele me amava. Depois, minha mãe mandou eu dar o carro pra Chiara, porque a Chiara não estava segura. Eu abri mão. Agora o Rocco estava usando um carro novo pra me convencer a obedecer — como quem tenta atrair um cachorro que não quer subir na mesa de cirurgia.
— Tá bom — eu disse.
Ninguém percebeu o quanto aquele “tá bom” saiu vazio.
A família inteira me levou até o hospital — ou melhor, estava levando a esperança da Chiara até lá.
Minha mãe segurou a mão da Chiara o caminho inteiro, confirmando várias vezes se o contato do doutor Ferretti estava salvo. Meu pai dirigia, com os olhos fixos no retrovisor, sempre na Chiara, garantindo que ela ficasse calma. Rocco foi no banco da frente, em silêncio, ouvindo minha mãe descrever como a Chiara ia se recuperar depois que o teste desse certo, com uma certeza na voz de que a boa notícia já estava a caminho.
Cinco pessoas no carro. Quatro com um assunto só: Chiara.
Eu fiquei encolhida no canto do banco de trás, vendo as ruas passarem pela janela. Ninguém falou comigo.
O carro parou diante de um prédio cinza, sem identificação, nos arredores.
Meu pai nem desligou o motor. Minha mãe baixou o vidro. — Não arruma problema pra gente.
Chiara nem levantou os olhos pra mim.
Rocco carregou minha bolsa até os degraus da entrada, como quem deixa uma mala guardada.
A porta se abriu. Um homem de jaleco branco apareceu — doutor Ferretti, uns cinquenta anos. Ele fez um gesto com a cabeça na direção do carro. — Senhor Benedetti, senhor Vitale, deixem ela comigo.
Foi aí que Chiara ergueu o olhar, encarando Ferretti através do vidro. Os olhos dos dois se encontraram por menos de um segundo — familiar demais, como conhecidos que já se viram muitas vezes fingindo ser estranhos em público. Depois desviaram, como se nada tivesse acontecido.
Eu abri a boca, querendo dizer alguma coisa.
— Vamos. — Rocco já tinha voltado para o carro.
A porta bateu, o som do motor se afastou. Eles tinham pressa pra chegar à Baía Rossi — a suíte de frente pro mar estava reservada, as férias não podiam esperar. Enquanto as lanternas traseiras sumiam, eu ainda estava nos degraus, de repente com vontade de rir. Até pra me mandar morrer no lugar da Chiara, eles organizaram como se fosse a primeira parada das férias.
Ferretti falou atrás de mim: — Me siga.
Ele me conduziu até a sala mais interna — azulejos brancos, uma mesa de aço inox, cheiro de desinfetante misturado com produtos químicos. Uma enfermeira usou tiras de couro pra prender meus pulsos e tornozelos, depois foi embora.
Ferretti se aproximou com uma seringa cheia de um líquido escuro, vermelho turvo.
Sem anestesia, sem explicação.
No instante em que a agulha atravessou meu pescoço, foi como se chumbo derretido estivesse sendo despejado nas minhas veias.
A dor explodiu do ponto da injeção, como um arame em brasa passando por cada centímetro do meu corpo. Minhas costas arquearam, as tiras cortaram minha pele, e da minha boca saiu um uivo rouco de animal morrendo. Meus ossos ardiam, meus órgãos se contorciam, cada célula gritava.
No primeiro dia, vomitei sangue quatro vezes. No segundo, aumentaram a dose; o líquido ficou roxo-escuro e eu perdi a consciência. No terceiro, uma injeção na minha coluna — senti como se tivessem arrancado toda a minha espinha e enfiado de volta. Eu mordi o protetor de borracha, e minha língua se rasgou nos meus próprios dentes. No quarto dia, comecei a ter alucinações, com os olhos tão inchados que não abriam.
Cinco dias. Nem uma pessoa veio me ver.
Eu era como uma borboleta espetada numa placa de coleção. Só que a borboleta estava morta e eu ainda estava viva — ainda sentindo dor.
Na noite do quinto dia, quando empurraram a última injeção, meus batimentos diminuíram. Uma batida. Outra batida. Como um relógio ficando sem corda, o pêndulo indo cada vez mais longe.
Aí eu não consegui mais ouvir nada.
Depois de morrer, minha alma flutuou para fora do meu corpo.
Eu me vi de pé ao lado da mesa, olhando para baixo — lábios azul-arroxeados, cavidades dos olhos fundas, roxo escuro ao redor das marcas de agulha. Queimaduras e hematomas se sobrepunham nos braços, marcas de chicote aparecendo a partir da gola, sangue na mesa de aço já seco, num marrom bem escuro.
Então era assim que eu ficava morta.
Muito mais silenciosa do que quando viva.
Ferretti entrou em pânico quando o monitor cardíaco virou uma linha reta. Ele me deu tapas no rosto, fez compressões no meu peito, forçou minhas pálpebras a abrirem — pupilas dilatadas. Cambaleou até o telefone, os dedos tremendo enquanto discava o número da Mamãe.
— Sra. Vitale, aconteceu alguma coisa. A Alessia… ela está sem batimentos —
Do outro lado vinham o som de ondas e a risada da Chiara, e o Papai falando alguma coisa ao fundo. A voz da Mamãe saiu arrastada, claramente impaciente.
— Dr. Ferretti, o senhor está tentando dar um golpe na gente? Eu conheço esses truques de médico.
— Não, por favor, escute… — a voz do Ferretti já estava falhando.
A voz do Papai entrou cortando, fria e dura:
— Doutor, não me interessa o que aconteceu. Só me diga: o teste foi bem-sucedido?
Então veio a voz do Rocco, mais gelada do que a do Papai, como uma lâmina temperada no gelo:
— Dr. Ferretti, se o teste da Alessia não der certo, eu vou deixar o senhor conhecer primeiro os métodos da família Benedetti.
Do outro lado, um breve silêncio. Só as ondas quebrando.
A mão do Ferretti, segurando o fone, tremia com violência. Depois de desligar, ele encarou meu cadáver e, de repente, xingou:
— Droga… por que ela tinha que morrer? Eu estava contando com esse dinheiro pra comprar uma casa em Valentia.
Mas o medo logo afogou a frustração. Ele trouxe uma maca às pressas e me arrastou para o depósito abandonado no porão, como se eu fosse lixo hospitalar, me cobrindo de qualquer jeito com caixas quebradas e lençóis mofados. Quando fechou a porta, ratos correram no canto.
Ele voltou correndo para a sala de cirurgia e limpou tudo em desespero — prontuários, dados, objetos pessoais, tudo enfiado na maleta. No pânico, o passaporte dele caiu. Minha alma flutuou até lá e viu o nome sob a foto: Robert Hayes.
Ninguém sabia que esse tal “teste” não passava de uma conspiração armada pela própria Chiara.
Tudo para segurar o amor dos nossos pais e tomar o lugar de Sra. Benedetti.
Eu voltei para aquele depósito fedorento, vigiando ao lado de mim mesma, vendo meu corpo ser roído por ratos, a pele apodrecendo e escorrendo pus, larvas entrando e saindo das feridas. Um dia, dois dias, dez dias. O tempo perdeu o sentido na escuridão.
Até que, na noite do décimo terceiro dia, vozes finalmente ecoaram no corredor.
— Cadê o Dr. Ferretti? Por que ele não está aqui? — a voz do Papai, carregada de insatisfação.
— Esse teste já acabou, afinal? — a Mamãe levantou a voz. — A gente nem sabe se foi bem-sucedido. A Chiara ainda está esperando.
