Capítulo 1

Eu salvei um mafioso à beira da morte três anos atrás. Vincent Ricci — o chefão mais temido de Nova York.

Ele decidiu que eu era dele. Jatinhos particulares, pedidos de casamento de cinco milhões de dólares, tudo o que tinha direito. Eu caí direitinho.

Na noite antes do nosso casamento, os inimigos dele me pegaram. Três dias de tortura me deixaram cega. Todo mundo dizia que ele nunca ia se casar com “mercadoria estragada”. Mesmo assim, ele se casou comigo e passou três anos me tratando como uma rainha.

Ontem eu caí da escada e minha visão voltou.

Mas foi aí que eu descobri o segredo sujo do meu marido perfeito.

...

Eu apertei os olhos com força, lágrimas escorrendo por todo lado — mas não de dor, e sim por causa da luz. Três porra de anos de nada, e agora...

Eu consigo ver.

Pisquei, e o teto ficou nítido, o reboco branco, o acabamento todo chique, aquele lustre de cristal.

Meu Deus. Eu realmente consigo ver.

Eu ri, depois chorei, depois os dois ao mesmo tempo.

Ontem eu estava descendo sozinha, como eu sempre faço, segurando no corrimão. Aí eu simplesmente errei o último degrau e, pronto, fui de cabeça. Bati com a cabeça direto no piso de mármore. Tudo ficou preto, e eu desmaiei ali mesmo.

Mas aqui vem a parte mais insana: no fim, foi uma bênção disfarçada. Eu voltei a enxergar.

Eu me apoiei para levantar, com o coração disparado.

Vincent. Meu Deus, o Vincent.

Eu precisava encontrar ele agora. Três anos tocando o rosto dele no escuro, e agora eu finalmente podia vê-lo de novo — ver de verdade — ver o rosto dele se iluminar quando eu contasse. Jesus, eu estava esperando por isso fazia tanto tempo.

Eu saí correndo do quarto. Eu tinha que achar ele e contar.

Ouvi vozes vindo de perto. A voz do Vincent, baixa, íntima.

Segui o som até a varanda do segundo andar. As portas estavam entreabertas; eu ia chamar quando ouvi a voz dela.

“Eu não aguento mais continuar com isso, Vince”, uma mulher sussurrou, suave.

Eu congelei do lado de fora da varanda, escondida pelo batente da porta. Pela fresta, eu conseguia ver os dois. Vincent de terno, e uma mulher loira de vermelho, colada nele.

Eu vi os dois se beijando, o corpo inteiro dela pressionado contra o dele.

Meu sangue gelou. Não. Isso não pode ser de verdade.

Então eles se afastaram, e ela acariciou o rosto dele com delicadeza. Vendo aquilo, meu coração se contraiu, doendo.

Ela só podia ser Victoria Castellano, a amiga de infância do Vincent.

“Vic, eu sei que você teve paciência”, Vincent disse. “Mas você sabe por que eu tive que fazer isso.”

“Eu sei.” A voz dela tremeu. “Mas três anos, Vincent. Três anos te vendo com ela.”

—Ela é só um escudo, amor. Você sabe disso. —Vincent puxou Victoria mais para perto, o polegar roçando a bochecha dela. —Três anos atrás, os homens do Rossi estavam caçando você. Eu precisava te proteger, então usei a Emma de isca.

O quê?

A palavra berrou dentro da minha cabeça. Nada saiu. Eu me agarrei ao batente da porta. Meus nós dos dedos ficaram brancos. Minhas pernas tremiam.

Os braços dele em volta da cintura dela. —Eu mimava ela em público e fiz todo mundo acreditar que ela era meu ponto fraco. Assim, quando meus inimigos viessem atrás de mim, eles iriam atrás dela em vez de você. —Ele encostou a testa na de Victoria. —Funcionou perfeitamente. O Rossi pegou a Emma em vez de você. Os homens dele torturaram ela, cegaram ela... e eu agradeci a Deus por ter sido ela e não você.

O mundo tombou. Eu me apoiei na parede, lutando para respirar. Cada respiração era uma agonia.

Não. Isso não é real. Isso não pode ser real.

—Quando a gente vai poder ficar junto de verdade? —Os dedos de Victoria no cabelo dele. —De verdade mesmo? Eu quero ser sua esposa, Vincent. Sua esposa de verdade. Não ela.

—Logo, amor. Bem logo. —Ele beijou Victoria de novo. —Assim que tudo estiver alinhado, eu me divorcio dela. Talvez ela sofra um acidente. Ou talvez ela simplesmente vá embora por conta própria. De um jeito ou de outro, você vai ter o que quer.

Eles se beijaram outra vez.

Eu me virei e saí cambaleando, com a mão tapando a minha boca para não fazer nenhum som. Voltei correndo para o meu quarto, fechei a porta e escorreguei até o chão.

Só então eu me deixei desabar. Eu soluçava sem controle, chorando tão forte que eu nem conseguia fazer barulho, o corpo inteiro tremendo.

Ele nunca me amou. Ele nunca me amou porra nenhuma.

Agora tudo fazia sentido. Aquele romance perfeito. O casamento enorme logo depois que eu fiquei cega. E todo o perigo. Eu tinha levado dois tiros, entrando na frente para tomar as balas por ele. Fui sequestrada e torturada.

E, toda vez, o Vincent estava lá depois. Me segurava durante os pesadelos. Dizia que eu era o mundo dele.

Mentira. Mentira completa. Eu era só uma isca.

Por que ele faria isso comigo? Meu coração doía com uma dor aguda, cortante. Eu amava ele, mas ele estava usando o meu amor para me destruir.

Eu peguei o celular e rolei até o único nome que eu jurei que nunca ligaria.

Raymond Ricci.

O pai do Vincent. O cara que, desde o primeiro dia, deixou claro que eu não era boa o bastante. Que fazia três anos que me perguntava se eu queria um divórcio. Que me ofereceu dinheiro para eu sumir, para o Vincent poder casar com “alguém adequada”.

Eu tinha recusado todas as vezes. Porque eu amava o Vincent.

Meu Deus, eu era uma idiota.

Eu apertei em ligar.

—Emma. —A voz dele saiu áspera, surpresa. —Isso é inesperado.

—Eu quero o divórcio.

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