Capítulo 2
Raymond fez uma pausa. “Você tem certeza?”
“Tenho.”
“Muito bem.” Ele pareceu satisfeito. “Quais são os seus termos?”
“Eu só preciso poder ir embora de verdade quando isso acabar.”
“Vou providenciar transporte e dinheiro. O bastante pra você sumir onde quiser.” A voz dele endureceu. “Mas você nunca mais entra em contato com o Vincent. Você desaparece completamente. Eu tenho a sua palavra?”
“Tem.”
“Ótimo. O acordo vai ficar pronto em breve. Quando for oficializado, você vai embora imediatamente.”
Ele desligou. Joguei o celular na cama e tentei me acalmar. Eu não podia deixar o Vincent descobrir que eu sabia a verdade.
De repente, a porta se abriu e Vincent entrou.
“Emma? Amor, você tá bem?” A voz dele veio baixa, preocupada. “Ouvi dizer que você caiu. Você se machucou?”
“Eu tô bem.” Virei o rosto. “Só fiquei abalada.”
Os braços dele me envolveram, puxando-me contra o peito. Um abraço que antes parecia seguro. Agora era uma armadilha. “Você me assustou. Se alguma coisa acontecesse com você...” Ele beijou o topo da minha cabeça. “Você não tem ideia do que você significa pra mim.”
Eu sei exatamente o que eu significo pra você: nada.
“Eu sei”, sussurrei.
“Você é a minha vida, Emma.” A voz dele era tão carinhosa, tão convincente. “Você é tudo pra mim. Se eu te perdesse, eu não ia aguentar.”
Mentiroso.
Eu não disse. Só deixei ele me segurar. Deixei ele achar que eu ainda era a esposa cega e ingênua dele, vivendo dentro da mentira perfeita.
“Eu te amo”, ele disse, encostado no meu cabelo.
“Também te amo.”
É melhor você falar sério quando diz que eu sou a sua vida, Vincent.
Porque eu tô prestes a destruir ela.
......
Na manhã seguinte, Vincent me acordou cedo.
“Levanta, amor. A gente tem um horário no estúdio pra um ensaio de fotos.”
Mantive os olhos fechados. Ensaio de fotos? Pra quê, meu Deus?
“Eu não quero”, eu disse, seca. “Eu nem enxergo. Qual é o sentido?”
“Nosso aniversário de casamento tá chegando.” A voz dele estava quente, persuasiva. “Eu quero fotos profissionais da gente. O fotógrafo já tá marcado.”
Aniversário de casamento. A palavra me deu vontade de vomitar.
“Vincent, eu sou cega. Eu não—”
“Emma.” O tom dele mudou, mais duro agora. “Eu já organizei tudo. Vai se vestir.”
Eu me levantei sem dizer mais nada.
A gente chegou ao estúdio.
“Sr. Ricci, tá tudo pronto”, disse alguém.
“Perfeito.” A mão do Vincent saiu da minha coxa. “Emma, espera aqui um instante.”
Eu segui a direção do olhar dele e, como eu já imaginava, ela estava lá.
Victoria Castellano. Num vestido de noiva.
Foi como se alguém tivesse jogado água gelada na minha cabeça.
Vincent foi até ela, com o rosto todo suave, todo carinhoso.
Eu não conseguia respirar.
Aquilo não era um ensaio pro nosso aniversário.
Era o deles.
Vincent levantou o véu do rosto da Victoria com uma delicadeza absurda. Ela ergueu os olhos pra ele como se ele fosse tudo.
Vincent segurou o rosto dela com as duas mãos e beijou a boca dela.
A câmera clicou de novo e de novo e de novo.
Cada clique era como uma faca girando no meu peito.
Eu fiquei ali, num canto, vendo meu marido beijar outra mulher num vestido de noiva.
Como você pode fazer isso comigo?
Eu não aguentei mais. Fingi ir tateando pra frente, como se eu estivesse tentando interromper.
Um estalo alto ecoou pelo estúdio.
Ergui a cabeça. A estrutura de luz no teto balançava, com uma das correntes se soltando.
“Cuidado!” gritou um assistente de iluminação.
A estrutura inclinou. Começou a cair. Bem em cima da gente.
Vincent se atirou em cima da Victoria, derrubou ela no chão e cobriu o corpo dela com o dele.
A estrutura despencou em cima de mim.
A dor explodiu na minha cabeça. Algo quente escorreu pelo meu rosto. Eu não conseguia enxergar — sangue por toda parte.
Tudo ficou preto.
Acordei numa cama de hospital.
Uma médica estava ao lado da minha cama.
— Sra. Ricci. — A voz dela era suave. — Eu sou a doutora Martinez. A senhora sofreu um traumatismo craniano por causa do acidente.
Ela fez uma pausa. — A senhora estava grávida. Com cerca de seis semanas. O trauma causou um aborto espontâneo. Sinto muito.
Eu congelei. Parecia que tinham arrancado meu coração do peito. — Eu estava grávida?
— A senhora não sabia?
Balancei a cabeça, negando.
Eu tinha estado grávida. E nem fazia ideia.
E agora tinha acabado.
— Vou deixar a senhora com um pouco de privacidade — disse a doutora Martinez, baixinho, e saiu.
Fiquei ali, encarando o teto, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Eu mal conseguia respirar.
Eu perdi um bebê que eu nem sabia que existia.
Então a porta se abriu. Eu fechei os olhos depressa, fingi que estava dormindo.
— Emma? — A voz da Victoria. — Você consegue me ouvir?
Eu não me mexi. Não respirei.
— Ótimo. Então deixa eu te contar uma coisa. — A voz dela ficou gelada. — Aquele refletor? Eu empurrei. De propósito.
Tudo dentro de mim parou.
Ela riu baixinho. — Acho que matar o seu bebê vai ter que servir por enquanto.
Então ouvi a voz do Vincent no corredor. — Vic? Como ela tá?
— Tá dormindo. — A voz da Victoria ficou doce de novo. — Vincent, me desculpa. A culpa é toda minha. Se eu não tivesse querido esse ensaio de fotos—
— Ei, ei. — A voz dele era tão gentil. — Isso não foi culpa sua. Foi um acidente.
— Mas eu me sinto tão culpada—
— Não. Não é culpa sua, amor. Essas coisas acontecem.
Ela matou meu bebê e ele está consolando ela.
De repente, os dois ficaram em silêncio. Aí eu ouvi eles se beijando, suspiros baixos e respiração pesada.
Eu entreabri os olhos só um pouquinho.
Eles estavam bem do lado da minha cama. As mãos do Vincent na cintura da Victoria, os braços dela em volta do pescoço dele.
Animais do caralho.
A Victoria se afastou, ofegante. — Vincent... isso é tão excitante.
— O quê?
— Fazer isso com ela bem aqui. — A Victoria olhou pra mim e sorriu. — Na frente da cega. É insano.
Vincent riu. — Você é terrível.
— Mas eu tô com medo — sussurrou Victoria.
— Do quê?
— De engravidar. — A voz dela baixou. — E se a gente fizer um bebê?
Vincent puxou ela mais pra perto. — Então a gente fica com ele.
Eu parei de respirar.
— Sério? — Victoria, toda empolgada.
— Toda vez que eu transo com a Emma, eu faço ela tomar a pílula do dia seguinte depois. — A voz do Vincent era tão casual. — Eu nem achava que ela ainda conseguia engravidar, mas de algum jeito conseguiu. Graças a Deus por esse acidente de hoje, ela perdeu. Ela nem tinha o direito de carregar meu filho mesmo.
Essas palavras me atingiram como um raio.
Ele não queria o nosso bebê.
Ele está, de verdade, feliz por eu ter perdido.
— Mas se você engravidar — Vincent continuou — eu anuncio o bebê como meu herdeiro na hora. A Emma é só um quebra-galho. Ela não importa.
Victoria gemeu.
O sofá encostado na parede começou a ranger.
Eles estavam transando no meu quarto de hospital.
Enquanto eu estava deitada ali, sangrando, destruída, depois de perder o nosso bebê.
— Ai, meu Deus, Vincent— — a voz da Victoria ficou mais alta.
Os sons pioraram, os gemidos dela, os grunhidos dele, o sofá rangendo de novo e de novo.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto e molharam o travesseiro.
Isso é o inferno.
Eu me obriguei a aguentar a meia hora seguinte até que os dois saíssem do quarto. Só então eu me deixei desabar, soluçando sem controle.
— Vincent, eu te odeio... —
