Capítulo 3

Raymond agiu rápido. Enquanto eu ainda estava no hospital, ele mandou os papéis do divórcio para mim. Vincent já tinha assinado.

Eu não fazia ideia de como o Raymond tinha conseguido, mas já não importava.

Assinei sem hesitar e devolvi os papéis ao portador, que foi embora na hora.

Depois que assinei, de repente senti como se não conseguisse respirar. Eu odiava o Vincent, mas também tinha amado ele.

Decidi dar uma volta para clarear a cabeça.

Fui arrastando os pés pelo corredor, com uma mão roçando na parede, como sempre. Segui até a escada de emergência no fim do corredor.

Foi então que ouvi passos ecoando lá em cima. A voz do Vincent.

Tirei do bolso o gravadorzinho, o mesmo que eu vinha carregando desde o ensaio de fotos, apertei para gravar e guardei de novo, com o microfone quase invisível.

— Obrigado por ter vindo, doutor Cooper.

— Claro, senhor Ricci. — A voz de um homem mais velho. — Eu queria conversar em particular sobre o estado da sua esposa.

Eu congelei, me encolhendo contra a parede.

— A cegueira dela — disse o doutor Cooper. — O trauma de três anos atrás é totalmente reversível.

Meu coração parou.

— Um procedimento microcirúrgico simples. Trinta minutos. Ela pode voltar a enxergar ainda esta semana.

Então o Vincent:

— Sem cirurgia.

— Como é?

— A Emma não precisa de cirurgia. Ela está bem assim.

— Senhor Ricci, eu não entendo—

— Ela não precisa ver. — A voz do Vincent ficou gelada. — Se ela pudesse enxergar, a Victoria não ia conseguir aparecer por aqui com tanta liberdade. Desse jeito é melhor.

Eu mordi a mão para não fazer barulho.

— A Victoria até gosta — continuou o Vincent. — A adrenalina de estar comigo enquanto a Emma está bem ali, completamente sem perceber. Pra gente, funciona.

— Senhor, isso é extremamente antiético—

— Eu não te pago por ética. A Emma continua cega. Se você mencionar essa cirurgia pra qualquer pessoa, a gente vai ter um problema. Entendido?

— ...Entendido.

Os passos foram se afastando.

Fiquei grudada na parede, imóvel, o corpo inteiro tremendo. Três anos de merda em que eu podia ter recuperado a visão.

Conferi o gravador com os dedos trêmulos. A luz vermelha piscava constante.

Te peguei, seu desgraçado.

Alguns dias depois, Vincent me levou para casa de carro.

— Cuidado, bebê. — A mão dele me guiou na escadaria da mansão. — Olha o degrau.

— Eu tô bem — eu disse, baixo.

Chegamos ao quarto. Vincent me ajudou a sentar na cama quando a porta se escancarou.

Victoria entrou cambaleando, o rosto branco, apavorada.

— Vincent! — A voz dela falhou. — Eu fiz merda. Fiz uma merda enorme—

— O que aconteceu? — Vincent ficou duro.

— A remessa... as armas... — Ela arfava. — Eu tava bêbada naquele clube. Os caras do Rossi estavam lá. Eu não sabia, eu juro—

— O que você fez?

— Eu contei a rota. — As lágrimas desciam sem parar pelo rosto dela. — O Rossi interceptou tudo. Os mais velhos estão jurando achar o traidor e matar—

Os olhos do Vincent vieram na minha direção.

Meu estômago despencou, porque eu conhecia aquele olhar.

— Emma. — A voz dele ficou lisa, sem emoção. — Você vai levar a culpa por isso.

Eu cheguei a rir.

— O quê?

— Você vai confessar que vazou a informação.

— Eu não fiz nada!

"Você é a esposa do Don. A família não vai te matar." O maxilar dele se contraiu. "Mas a Victoria? Se eles descobrirem, ela tá morta."

"Você quer que eu leve a culpa no lugar dela?"

"Isso é uma ordem, Emma."

Eu encarei ele, esse homem que eu tinha amado, esse homem por quem eu tinha levado bala.

Victoria estava ali, chorando, esperando.

Em poucas horas, Vincent deixou tudo arranjado: mensagens falsas, registros falsos, testemunhas falsas.

Naquela noite, o conselho da família se reuniu.

Eu fiquei diante deles, de cabeça baixa.

"Emma Ricci", anunciou Raymond. "Você está sendo acusada de traição. De vazar segredos da família para os nossos inimigos."

Eu fiquei em silêncio.

"Quinze dias na sala de punição", decretou um dos anciãos.

"Espera." Vincent deu um passo à frente. "Nosso aniversário de casamento é daqui a sete dias. Por favor. Sete dias, então."

Os anciãos se entreolharam.

"Sete dias", concordou um mais velho. "Em respeito ao Don."

Pela sala, os membros da família murmuravam sobre a devoção de Vincent. Sobre como ele me defenderia mesmo depois de eu ter traído ele.

Eu me senti enjoada.

A sala de punição ficava no porão: correntes de ferro, e o cheiro de sangue e mofo em toda parte.

Eles prenderam meus pulsos acima da minha cabeça.

"Sete dias", disse o guarda. "Não matem ela. O resto tá liberado."

O primeiro soco arrancou o ar de dentro de mim.

Depois veio o chicote. Minhas costas se abriram.

"Vadia cega", um deles riu. "Vergonha da família."

Eu mordi o lábio até sangrar, mas não gritei.

Sete dias de punhos, chicotes, correntes. Eles me espancaram até minhas costelas trincarem. Me açoitaram até as feridas infeccionarem. As correntes de ferro cortaram fundo meus pulsos, deixaram tudo em carne viva, sangrando.

No sétimo dia, enfim me soltaram.

Eu desabei no concreto. Um guarda me chutou.

"Anda."

Eu me arrastei escada acima, deixando um rastro de sangue.

Uma empregada me ajudou a chegar ao quarto. E me deixou sozinha.

Eu fiquei deitada na cama, cada centímetro do meu corpo coberto de cortes e hematomas, sangrando por baixo das ataduras que a empregada tinha enrolado às pressas em mim.

De repente, meu celular vibrou: uma mensagem de voz do Vincent. "Amor, você já saiu, né? Pra compensar, eu planejei uma comemoração enorme do nosso aniversário. Descansa um pouco, amanhã eu mando alguém te buscar."

É isso que você chama de amor, Vincent?

Meu celular vibrou de novo.

E-mail: Divórcio finalizado. Vigência imediata. Saia hoje.

Eu me forcei a levantar, mesmo sabendo que cada movimento fazia uma dor cortante atravessar meu corpo.

Eu abri o notebook, entrei nas redes sociais e subi todos os vídeos e todas as gravações que eu tinha.

Programei tudo para publicar no dia do nosso aniversário.

A legenda dizia: "Para o mundo: Vincent Ricci, você me chamava de sua rainha, mas me tratou como seu escudo. Esta é a minha verdade. E eu finalmente estou livre."

Então eu saí cambaleando do quarto, arrastando a mala que eu já tinha deixado pronta.

Eu finalmente estava saindo dali. Dessa vez, eu ia embora pra sempre.

Chamei um táxi e fui direto pro aeroporto.

No aeroporto, eu parti meu chip ao meio antes de embarcar no avião, enterrando junto com ele tudo o que eu tinha passado.

Vincent, minha vida nova tá só começando. Mas a sua tá prestes a despencar direto no inferno.

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