Capítulo 3 Kastro
CAPÍTULO 3 - KASTRO
Ele não sorriu. Não estendeu a mão. Não falou oi.
Pelo visto educação não é o forte do rosto bonito, ele deveria saber que isso é o carro chefe para qualquer pessoa e em qualquer lugar.
Rafael Kastro me olhou por uns cinco segundos que pareceram uma hora e depois apontou pra cadeira na frente da mesa dele. Seu olhar parecia avaliar algo que ele estava prestes a comprar.
— Senta.
Eu sentei. Minha calça jeans fez barulho no couro caríssimo da cadeira. Tão macia que deve ter sido feita exclusivamente para o seu escritório.
O Dr. Henrique fechou a porta e ficou lá atrás, como se fosse guarda.
Com certeza não queria que ninguém atrapalhasse o seu amado chefe.
— Laís Nogueira, vinte e quatro anos, designer, ex-professora de artes, freelancer até ontem às nove e meia da manhã — ele começou, sem olhar pra nenhum papel. Ele sabia de cabeça. — Mora com a irmã Bruna Nogueira, dezesseis anos, cardiopatia congênita com indicação de cirurgia urgente. Pai ausente. Mãe falecida. Aluguel atrasado. Conta bancária com menos de dois mil reais.
Olhei para o homem na minha frente assustada, parece até que ele sabe da minha vida mais do que eu, que sou a protagonista dela.
— Você fez um dossiê sobre mim? — perguntei. Minha voz saiu mais brava do que eu queria.
Pois com quem direito ele fez isso? Se nem nos conhecemos, invadiu minha privacidade desta maneira?
— Fiz uma análise de risco — ele respondeu, seco. — Você precisa de dinheiro rápido. Eu preciso de uma esposa rápida. É uma coincidência conveniente.
Ou seja ele quer comprar uma esposa, não quer viver um romance digno de novelas, mas sim um contrato como o poderoso CEO que é.
— Eu não sou... eu não faço esse tipo de coisa.
Quem ele está pensando que eu sou? Não sou uma mercadoria sendo leiloada, para ele comprar pelo maior lance.
— Que tipo de coisa? — ele levantou uma sobrancelha. Um gesto mínimo, mas cortante.
Falei sem rodeios, porque era assim que eu tinha entendido e não estava gostando nada do rumo que essa conversa estava indo.
— Me vender.
Ele finalmente deu um meio sorriso. Não chegou nos olhos.
— Você não tá se vendendo. Tá assinando um contrato de prestação de serviço. Doze meses. Casamento civil, aparência pública impecável, discrição total sobre a natureza do acordo. Em troca, eu pago integralmente a cirurgia da sua irmã, o pós-operatório, mais duzentos mil reais divididos em doze parcelas na sua conta.
Minha cabeça girou. Duzentos mil. Mais a cirurgia.
Prestação de serviços, foi assim que ele definiu o contrato que teríamos, caso eu decida assinar.
— Por que eu? Você pode pagar uma modelo, uma atriz, qualquer uma que já saiba fazer isso.
Na minha cabeça não fazia sentindo, ele ter escolhido uma pessoa tão comum, quando tem o mundo aos seus pés.
— Porque modelo e atriz querem holofote. Eu preciso do oposto. Preciso de alguém que ninguém conheça, que não tenha rede social grande, que não vá querer aparecer. Alguém desesperada o suficiente pra cumprir cláusula sem questionar. — Ele se inclinou pra frente. — Você é perfeita pro papel porque você não quer estar aqui.
Doeu porque era verdade.
Isso ele tinha razão, em outras circunstâncias eu não estaria aqui, muito menos pronta para fazer a maior loucura da minha vida.
— Eu não vou assinar nada, sem saber o porquê você precisa casar. Qual a sua história Rafael?
Porque ele não pense que vai me enrolar com esse a história para boi dormir de que só quer fazer uma boa ação, porque não acredito nisso nem aqui e nem na china, portanto melhor ele começar a falar logo de vez.
Ele me olhou por cinco segundos, que mais pareceram uma eternidade, mas foi até a gaveta e tirou uma pasta amarelada, parecia está guardada a um tempo naquela bendita gaveta.
O Dr Henrique continua parado na porta feito uma muralha, parece até que vou fugir, quais alternativa eu terei se sair daqui correndo?
Afinal não tenho muitas opções, então não custa tentar.
Olho para pasta mas não me atrevo a tocar, acho melhor perguntar, porque se olhar matasse, o da Rafael está me fuzilando, ele não parece ser um noivo muito feliz.
— O que exatamente tem nessa pasta? Porque não manda o seu advogado sentar, eu não pretendo fugir daqui, portanto não é necessário que ele fique como cão de guarda.
Com todo respeito, mas não vejo necessidade disso, não vou fugir, vir aqui com as minhas próprias pernas para vê qual era a surpresa que o destino tinha me reservado.
Mesmo tendo a impressão que estou me vendendo, não posso recusar nada, tenho que fazer o sacrifício pela vida da minha irmã, não posso abandonar ela a própria sorte como o nosso pai fez, isso nunca.
— Abra e verá.
Meu futuro marido é bem delicado graças a Deus, já dá para ver que é insuportável, por isso essa palhaçada toda.
Abro o envelope amarelado com resquícios de poeira, assim que abro o papel me dou conta de que é um testamento, várias coisas passam pela minha cabeça.
Penso em mandar ele dizer o que de fato tem escrito aqui, mas na verdade sinto que tenho que pisar em ovos com o Rafael kastros e prefiro fingir ler, para vê se ele perde a paciência e me explica o que de fato está acontecendo aqui.
Observo ele bater com os dedos em cima da mesa completamente impaciente, tudo seria mais fácil se ele tivesse me explicado ao invés de ter jogado o papel em cima de mim, como forma de dizer se vira garota.
Como ele quer sobreviver a um casamento de 12 meses com esse nível de paciência? Sinceramente acho que estamos no caminho errado.
— Acho que você não entendeu nada, então deixa que eu explico e facilito as coisas para você.
Fico calada, pois era justamente isso que eu queria.
— Meu avô morreu e me deixou uma condição para herdar. É por isso que você está aqui. Se você quiser ouvir de verdade, faremos uma nova reunião amanhã.
