Capítulo 1

—Sr. Vincent, alguém está procurando a chefe Sophia, dizendo que ela não apareceu hoje à noite!

Às duas da manhã, o toque estridente do telefone estilhaçou a tranquilidade da noite chuvosa em Chicago.

Acordei num sobressalto.

Cooperação dentro da Máfia nunca pode dar errado. Achei que fosse algum inimigo tentando se aproveitar da situação, então nem tive tempo de me vestir direito. Agarrei uma camisa fina e corri para a chuva.

Ao empurrar a porta pesada da sala VIP do cassino, me preparei para um tiroteio.

Mas a cena diante de mim foi como um tapa sonoro na cara.

Não havia inimigos, nem emboscadas.

No meio da confusão, crisântemos brancos e oferendas estavam espalhados pelo chão.

Um universitário, com cara de ter menos de vinte anos, fazia um escândalo.

Ele usava uma camisa sob medida que não combinava em nada com a idade e, no dedo anelar da mão esquerda, ostentava uma aliança feita sob encomenda exatamente igual à minha.

E os sapatos de couro dele estavam fincados bem em cima do retrato em preto e branco da minha filha, Lily.

O vidro da moldura se espatifara no chão, ferindo o rosto sorridente de Lily.

—Quem mandou a Sophia não vir me ver à meia-noite? Eu vou armar um barraco! —o garoto chutou, impaciente, o castiçal ao lado.

Vários gerentes do cassino, que normalmente eram assassinos implacáveis, agora estavam com medo até de respirar, se humilhando e tentando acalmá-lo de canto.

—Quem é esse? —encarei o retrato, com uma voz tão fria que poderia partir o gelo.

O gerente tremia de medo, gaguejando e limpando o suor sem parar: —Sr. Vincent... este é Marco Vitale, estudante da Universidade de Chicago. Ele... ele ultimamente virou o queridinho da chefe.

Senti o corpo inteiro gelar.

Sofia é minha esposa e a Rainha da Máfia de Chicago.

Aos vinte e oito anos, Sofia tinha acabado de calar, a sangue, o último foco de dissidência da gangue.

Hoje, ela controla cinquenta e dois cais e vinte e seis cassinos clandestinos em Chicago, fazendo fortuna todos os dias.

Naquele ano, eu achei que, enfim, nossa vida poderia se acalmar.

Sofia até me prometeu pessoalmente que, assim que tivéssemos controle total de Chicago, teríamos outro filho para compensar o trauma da morte precoce da nossa filha Lily.

Eu vinha esperando pela chegada dessa criança.

Inesperadamente, o amante dela foi o primeiro a chegar.

A raiva subiu à minha cabeça, e eu avancei a passos largos.

De repente, meu ombro foi empurrado com força, me jogando para o lado.

—Sai da frente.

Sofia chegou, trazendo consigo a tempestade e a presença imponente de sempre.

Ela nem sequer olhou para mim, que tinha sido afastado, e foi direto até o garoto que fazia escândalo em cima do retrato de Lily.

—Meu amorzinho, por que você está fazendo essa birra toda? —essa temida rainha da máfia ainda estendeu a mão e acariciou com carinho o nariz de Marco.

Marco soltou um resmungo frio.

Sofia se inclinou até o ouvido dele e sussurrou, em tom de consolo: —Hoje é o aniversário da morte da Lily, e eu não podia sair. Mas vim te ver assim que acabou.

Meu coração pareceu ser dilacerado com brutalidade por uma faca enferrujada e cega.

Hoje é o aniversário da morte de Lily. Ela me abandonou —e abandonou o espírito da própria filha— para vir aqui mimar um universitário.

—Sofia —rosnei, cerrando os dentes ao chamar o nome dela.

Só então ela virou a cabeça, como se só agora tivesse notado minha presença. Depois de um breve sobressalto, sorriu com indiferença.

—Vincent, o que você está fazendo aqui? —ela ajeitou o cabelo. —Eu esbarrei em você agora há pouco?

Ela fez uma pausa e acrescentou: —O Marco ainda é jovem. Não guarde rancor de uma criança.

Não adianta discutir com uma criança! Ele pisou na cara da nossa filha!

De repente, o voto que fizemos na igreja anos atrás lampejou na minha mente — “Nunca vamos trair um ao outro nesta vida. Se algum de nós mentir, que seja deixado para morrer nas ruas.”

Sem dizer uma palavra, peguei do bar a garrafa de bebida ainda fechada e avancei.

O fundo duro da garrafa acertou a testa de Marco com um estalo, estilhaçando o vidro e fazendo o licor cor de âmbar explodir junto com o sangue.

— Ah...! — Marco agarrou a cabeça, soltando um grito agudo enquanto o sangue escorria descontrolado pelo rosto jovem.

— Você enlouqueceu?!

Sofia franziu a testa e me empurrou.

— Marco! — Ela cobriu o ferimento do garoto com o lenço, virou o rosto e me lançou um olhar feroz. — Vincent, o que deu em você? Por que está discutindo com ele?!

Não consegui evitar uma risada fria, os nós dos dedos estalando quando cerrei os punhos.

Apontei para o retrato no chão. — Você esqueceu de que doença a Lily tinha? Naquela época a gente estava sendo caçado pela gangue irlandesa...

— Cala a boca! — a expressão de Sofia mudou drasticamente, e ela cobriu depressa as orelhas de Marco.

Ela olhou para o garoto trêmulo em seus braços, num tom cheio de desagrado e reprovação: — Não fale dessas coisas sangrentas na frente dele. Ele não é como você; ele ainda é estudante!

Eu sou diferente dele.

Sim, eu sou um inútil que seria capaz de levar uma bala por ela, enquanto ele é um estudante que precisa ser mimado e ter as orelhas tapadas.

Marco se agarrou com força à roupa de Sofia, chorando e berrando de dor.

Sofia o consolou e o ajudou a ficar de pé, e então mandou os seguranças se prepararem para ir ao hospital.

Depois que a multidão se dispersou, só restou uma bagunça na sala VIP.

Sofia diminuiu o passo ao passar por mim.

Ela suspirou e colocou na minha mão o anel de ouro que simbolizava o poder máximo da família Rossi.

— Vincent, pare de ser teimoso. Você sabe que é a única pessoa que eu amo, e ninguém pode tomar o seu lugar.

Ela me encarou com um olhar cheio de autojustiça: — Eu lutei metade da minha vida, pisei em incontáveis cadáveres para chegar onde estou hoje. Agora eu cansei; eu só quero me sentir melhor e encontrar alguma coisa nova para aliviar o estresse.

Descompressão, sensação de novidade.

Baixei os olhos para o anel de ouro frio na minha mão e, em seguida, para a foto amassada de Lily no chão.

Naquela época, Sofia e eu estávamos nos escondendo das gangues irlandesas com nossa filha Lily, que tinha menos de um ano. Vivíamos fugindo e não ousávamos ir ao hospital.

Lily adoeceu e, como não podíamos mostrar a cara, adiamos o tratamento, o que fez ela desenvolver problemas crônicos de saúde, e o corpo dela foi piorando cada vez mais.

Naquele dia, coberta de sangue, Sofia jurou aos céus que vingaria Lily.

Depois que Lily morreu, ela prometeu solenemente que, quando tudo se acalmasse, teríamos outro filho e recomeçaríamos.

Agora, ela está me dizendo, com esse anel manchado de sangue, que só queria se sentir melhor.

Respirei fundo, expulsando dos pulmões todo o ar viciado e o último vestígio de apego que ainda permanecia.

— Sofia, vamos nos divorciar. — Olhei para as costas dela, com uma voz tão calma que até eu me surpreendi.

Mas ela não ouviu nada.

— Tragam o carro. — Sofia franziu a testa, cobrindo casualmente o sangue na testa de Marco com um lenço, num tom tranquilizador. — Está tudo bem, é só um pouquinho de sangue. Eu vou te levar ao hospital.

Ela passou o braço pelos ombros de Marco, nem sequer virou a cabeça, e seguiu direto para dentro da noite chuvosa.

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