Capítulo 4
O Dr. Moretti deu o último ponto no meu couro cabeludo e cortou a sutura.
“Ferimentos na pele, além de uma concussão leve.” Ele jogou a gaze manchada de sangue na bandeja e suspirou pesadamente. “Mas o seu pior ferimento não é na cabeça.”
Encarei, vazio, a parede pálida.
Dentro da parte da frente da minha camisa, ainda estava aquele punhado de pó branco-acinzentado pelo qual eu tinha lutado tanto para recuperar.
“Onde está a Sofia?”, ouvi a minha própria voz, rouca como lixa raspando.
Moretti virou o rosto, incapaz de me encarar.
“Ela acha que você está usando os ferimentos para obrigá-la a se submeter. Agora... ela está ao lado da cama do Marco, o tempo todo.”
“Obrigá-la a recuar?” Puxei os cantos da boca, forçando um sorriso que parecia mais uma careta.
“Naquela época, vocês arriscaram a vida no Distrito Sul, e você até arriscou a sua vida para salvá-la. Como a relação de vocês era invejável naquela época...” Os olhos de Moretti ficaram levemente avermelhados.
“Ele morreu naquela época”, interrompi, frio.
Quando puxaram a agulha do soro do dorso da minha mão, o sangue jorrou na hora, mas eu não senti dor.
Essa dormência me levou a empurrar a porta do quarto do hospital e me lançar no vento gelado da noite de Chicago.
O vento noturno me carregou enquanto eu empurrava a pesada porta de carvalho da vila.
Em vez de paz, fui recebido por um estalo agudo, de algo se quebrando.
“Joguem todo esse lixo fora! Dá nojo só de olhar!”
No meio da bagunça, Marco, arrogante, mandava seus guarda-costas jogarem minhas roupas, meus livros e até os rabiscos que Lily tinha feito antes de morrer na água barrenta do pátio.
Ao me ver parado à porta, com a cabeça coberta de ataduras, Marco não só não recuou como abriu um sorriso presunçoso.
“Valeu por aquele tiro, Vincent.” Ele sacudiu de propósito a bochecha, coberta por um curativo. “A Sofia disse que eu fiquei apavorado demais e providenciou especialmente para eu vir pra cá me recuperar.”
Eu o encarei fixamente, as unhas cravadas nas palmas das mãos, mal contendo o impulso de sacar uma arma e estourar a cabeça dele.
O som de saltos altos veio da escada em espiral.
Sofia, vestindo aquela camisola de seda cara, desceu com languidez.
“Besteira.” Ela lançou um olhar para a sujeira no chão, com um tom leve, sem o menor traço de reprovação.
Ela veio até mim, olhou para a urna recém-comprada que eu segurava com força contra o peito, e um lampejo de impaciência cruzou seus olhos.
“Tá bom, Vincent, o Marco não fez de propósito com a Lily. Eu já encontrei o melhor padre para reconsagrar o túmulo.”
Não foi de propósito? As cinzas foram espalhadas, e uma simples reconsagração pode apagar tudo?
“O Marco vai ficar aqui por um tempo.” Sofia ergueu o queixo como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Ele é comportado e não vai te incomodar. E certamente não vai tomar o seu lugar.”
Olhando para a mulher à minha frente, que um dia tinha dividido vida e morte comigo, de repente eu a senti completamente desconhecida.
A mãe que jurou vingar Lily morreu no trono do poder.
Eu não discuti, não soltei uma única palavra desnecessária.
Apertei a urna de Lily contra o peito, olhei para os dois uma última vez como se fossem dois cadáveres, me virei e saí a passos largos da casa que tinha enterrado metade do trabalho da minha vida.
Vou levar a minha Lily e ir embora daqui. Nós não queremos mais ficar aqui.
O rugido dos motores rasgou a noite na Gold Coast.
Eu não fui para o aeroporto.
Voos deixam rastros, mas eu quero que desapareçam por completo.
Quando as rodas entraram na Interstate 90, eu pisei fundo e disparei feito louco rumo ao oeste.
O vento entrava pela janela quebrada do carro, secando o sangue e as lágrimas nos meus olhos.
No banco do passageiro, prendi com cuidado a urna de Lily com o cinto de segurança.
— Não tenha medo, Lily. O papai vai te tirar desse lugar imundo. — Soltei uma das mãos e acariciei de leve o corpo frio de porcelana.
O ponteiro do velocímetro continuava cravado na faixa vermelha. Quando a madrugada clareou, eu já tinha cruzado a divisa do estado e entrado em Iowa.
Um cansaço brutal e a tontura de uma concussão me atingiram.
Dei um tranco no volante e estacionei o carro numa área de descanso deserta.
Peguei o celular criptografado que eu nunca tinha usado na frente de Sofia e disquei o número do meu confidente de confiança em Chicago.
— Coloque as coisas nas paredes estruturais da vila. O horário está marcado para as três da manhã de amanhã.
A pessoa do outro lado da linha puxou o ar, assustada:
— Chefe, aquela é a sua casa e a da patroa...
— Eu não tenho mais casa. — Encerrei a ligação sem hesitar, puxei o chip, parti em pedaços e joguei no ralo.
Quando voltamos à estrada, a paisagem foi ficando aos poucos mais desolada e vasta.
Dirigi em velocidade suicida até o anoitecer, quando enfim pisei no freio com força numa cidadezinha entre montanhas e água, no Colorado.
O vento aqui é suave, sem aquele cheiro cortante de sangue de Chicago.
Sentei na varanda da cabana de madeira alugada, com o tablet ao meu lado brilhando de leve, exibindo as imagens da câmera de segurança da sala da vila.
O tempo estava correndo.
Na cena, Sofia levava uma taça de vinho tinto e caminhava em direção ao quarto no segundo andar, enquanto a silhueta de Marco era vagamente visível atrás da porta.
“— Sofia, você disse que, se alguém fosse infiel, seria deixado para morrer nas ruas e não teria uma boa morte.”
Olhei para as montanhas ondulantes ao longe, minha voz tão baixa quanto um suspiro.
— O que você não consegue fazer, eu vou te ajudar a realizar.
Os ponteiros avançaram em silêncio até as três da manhã.
— Boom—!
As chamas ofuscantes romperam instantaneamente o telhado e engoliram toda a cena, antes de tudo mergulhar numa escuridão absoluta, mortal.
O celular reserva sobre a mesa vibrava violentamente.
Apertei o botão de atender e ouvi, do outro lado da linha, a respiração ainda trêmula do Dr. Moretti.
— Vincent! Meu Deus, a vila explodiu!
Recostei na cadeira de balanço da cabana, observando a névoa da manhã subir das montanhas do Colorado, e minha voz saiu completamente plana:
— É mesmo? Ela morreu?
Moretti ficou sem palavras, atônito com o meu tom frio.
Ele engoliu em seco, a voz tremendo:
— Foi você que colocou a bomba?
— Eu só estava repreendendo ela. Perguntei como ela podia abandonar o marido ferido e ir transar com aquele estudante universitário.
Dei uma risada gelada e não respondi.
A emoção de Moretti foi ficando cada vez mais exaltada:
— Vincent, eu até avisei ela! Eu disse que ela tinha partido o seu coração e que, se um dia você descobrisse a “verdade” sobre a morte da Lily... você ia querer matar ela pelo resto da vida!
Os dedos que seguravam o telefone se apertaram de repente.
Os braços da cadeira de madeira estalaram de leve.
— Que verdade? — Semicerrei os olhos, com o coração como se fosse esmagado por uma mão invisível.
Existe alguma coisa sobre a morte da Lily que eu não sei?
