Capítulo 2 Você precisa casar
Ainda não tinha nuvens no céu quando Clarice se levantou naquela manhã de sexta-feira.
Ela aspirou profundamente o ar úmido do orvalho e apressou os passos a caminho da pequena horta.
Clarice sempre acordou um pouco antes do sol nascer para cuidar da pequena plantação e colher algumas verduras para vender no pequeno estabelecimento onde conseguiu um trabalho, para ajudar a mãe no sustento da casa.
Depois de ajeitar as couves e alfaces numa cesta de vime, ela voltou para casa enquanto afundava as botas por entre as folhas secas que caiam das árvores.
Acordou a irmã caçula de cinco anos, e a ajudou a se arrumar para mais um dia de aula.
Prendeu os cabelos castanhos avermelhados com um laço de fita rosa e correu para preparar o café matinal para a mãe, que estava acamada desde o acidente vascular cerebral que sofreu.
Jacira, mãe de Clarice, não movia o lado direito do corpo e, desde então, dependia da ajuda da filha e de uma vizinha, que fazia companhia à ela enquanto Clarice estava no trabalho.
A casa de quatro cômodos não tinha muito conforto. As paredes brancas, construídas em alvenaria, tinham duas rachaduras que iam do teto até o meio, o forro de estuque era atacado pela umidade e cupins.
Com certa dificuldade, os braços esguios seguravam a mãe enquanto a banhava. Nos últimos dias, ela lutava para tirar um sorriso do rosto de Jacira, mas desde que seu esposo morreu num acidente de caminhão, a vida parecia não fazer mais sentido.
— Você está bem, mamãe? — Clarice enxugou o corpo afunilado, observou os ossos da clavícula que começavam a despontar na pele pálida da mãe. — Eu fiz pão de queijo e um café quentinho. — Secou-lhe os cabelos.
— Não estou com fome! — falou com certa dificuldade.
— Você precisa comer, mãe! — Passou o vestido de malha pelos ombros de Jacira e ajudou-a a colocar o vestido.
— Não quero!
Clarice ficou em silêncio, de repente, os seus pensamentos vagavam. Ajeitou a mãe sobre a cama que ficava num canto estreito da sala.
— Você precisa se casar! — A voz que sussurrava entrou em sua mente. As mãos ressequidas tocaram o braço de Clarice. — Eu não vou durar muito tempo!
— Não diga besteiras, mãe! — Cobriu-a com uma manta de retalhos vermelha. — Não preciso de homem! Eu trabalho para nos sustentar.
Desde que completou dezoito anos, Jacira insistia que a filha deveria se casar. Por insistência da mãe, Clarice chegou a ficar noiva de um peão das redondezas que sempre a pedia em casamento.
Embora não o amasse, ela estava disposta a fazer a vontade da mãe, entretanto, depois do A.V.C que deixou Jacira acamada, Clarice disse ao noivo que não casaria se não levasse a mãe e a irmã caçula.
Para a sua surpresa, Benjamin terminou o noivado e, em poucas semanas, ele estava casado com uma garota do povoado, ele a havia engravidado.
Clarice deixou a mãe aos cuidados da vizinha e saiu de casa apressada, carregava a caixa com legumes nos braços magros e acompanhava os passos lentos da irmã, que seguia pela estrada íngreme de terra enquanto o sol nascia.
— Estou cansada, Clarice — reclamou a voz infantil.
— Estamos chegando, Alice! — Segurou a mão pequena da menina de cabelos ondulados. — Suba nas minhas costas! — Clarice abaixou-se e esperou até que sua irmã passasse os braços em volta de seu pescoço.
Após caminharem por meia hora, elas pararam no portão azul da escola municipal da cidade de Valença. Beijou a testa de Alice e rumou às pressas para o trabalho. Embora fosse bastante pontual, aquele era o terceiro dia em que ela se atrasava.
Clarice cumprimentou umas das clientes assíduas com um sorriso e atravessou as portas do estabelecimento sob os olhos pequenos de seu patrão.
― Está atrasada! ― reclamou o homem emaciado.
O sorriso se apagava lentamente do rosto de Clarice; ficou em silêncio enquanto organizava os seus pensamentos em busca de uma justificativa para o atraso, nos últimos dias ela havia contado a mesma história.
A mercearia era administrada por um homem esguio e de feição sisuda, seu Tonico, como todos o chamavam na cidade, evoluiu financeiramente naquele comércio com paredes foscas e opacas.
― Eu já expliquei ontem seu Tonico! A minha mãe precisa de alguém para cuidar dela e eu não posso deixá-la sozinha. O lado direito do corpo dela não se move.
Ela prendeu as longas madeixas no alto da cabeça, os olhos ávidos observavam o corpo jovem e os seios firmes no decote do vestido
― A minha vizinha, que cuida da minha mãe, chegou atrasada porque o neto dela passou mal…
― Não quero saber das suas lamúrias! ― A voz grave no tom gutural interrompeu-a. ― Eu não tenho nada a ver com isso! Se você chegar atrasada mais uma vez, eu demito você! — disse em tom hostil. ― Agora, vá trabalhar! ― ordenou e alisou o bigode.
Clarice engoliu em seco e dominou a vontade de falar algumas verdades na cara daquele homem avarento. Por anos a mãe dela trabalhou naquele estabelecimento e ajudou Tonico a cuidar das duas filhas até que cresceram e foram estudar na capital. Clarice silenciou e não retrucou, pois, ela precisava daquele emprego para terminar de pagar as prestações da casa e ajudar no sustento da família. Colocou o avental e organizou as folhas de couve e algumas alfaces sobre uma bancada branca.
Era quase hora do almoço e o estômago roncava, ela colocou as folhas de Alface, banana e maçã numa sacola e entregou para uma gentil senhora.
― Clarice, quero que você faça algumas entregas! — Tonico colocou a caneta atrás da orelha. — Separe essas frutas, legumes, verduras e entregue nesses endereços. — Arrancou a folha do bloco de notas e entregou. — Use a minha bicicleta.
— Posso entregar depois do almoço? — perguntou.
— Veja só, você chegou atrasada nos últimos três dias e ainda quer tirar horário de almoço.
― Não!
— Ótimo! Coma uma fruta e faça o seu trabalho.
Os olhos esverdeados de Clarice fulminavam o patrão logo que ele deu as costas.
Resignada, ela organizou os produtos listados nos pedidos de entrega. Se não fosse pela comorbidade de sua mãe e a irmã pequena, ela teria dito umas boas verdades para aquele velho tarado.
Clarice ajeitou o vestido florido na altura do joelho enquanto pedalava em sua bicicleta pelo asfalto .
A estrada estreita por entre os pomares cítricos mostravam o caminho para a luxuosa fazenda com suas formas arquitetônicas em harmonia com seus belíssimos jardins
Ela parou diante do enorme portão de madeira rústica envernizada e desceu da bicicleta com cuidado para não derrubar a caixa de verduras da garupa.
Agilizou os passos e seguiu por uma trilha de ardósia até se aproximar da suntuosa casa.
Ali, no belíssimo jardim, havia algumas rosas-brancas e tulipas que cresciam fortes e imponentes.
Clarice encantou-se com as hortênsias no canteiro, não percebeu a sombra do homem que se aproximava pelo gramado inclinado.
As longas madeixas desceram sobre os ombros quando ela se esticou para pegar a hortência, a presilha escorregou pelos fios lisos e caiu no meio no gramado.
Ela tentou se equilibrar para abaixar e pegar o prendedor de cabelo, mas todo o seu esforço foi inútil, as verduras e os legumes se espalharam pelo chão.
Clarice caiu próxima aos pés dele como uma águia que avança do céu para agarrar a sua presa.
― Precisa de ajuda, baby?
O homem com um queixo marcado retirou os óculos escuros. Os olhos azuis contemplavam o seu rosto oval.
Ela não era o tipo de pessoa que se preocupava com a beleza e, pela roupa barata de brechó, não dava muita importância a um vestido de grife. Não era tão atraente, mas, ainda assim, os olhos vorazes observavam suas curvas.
― Não! ― respondeu Clarice. Ela parecia aborrecida. — Eu posso fazer isso sozinha! — Pôs-se de pé e se recompôs depois de ajeitar o vestido.
Victor agigantou-se em seus 1,90m de altura e, afastando-se, recolheu algumas verduras e legumes caídos sobre o gramado.
― Você é atrapalhada!
Estranhou que Clarice não se recordasse dele.
― Não te devo satisfações! — replicou Clarice.
