Capítulo 3 Casamento arranjado
― Esqueceu sua educação em casa? Uma mulher delicada deveria ser um pouco mais doce e gentil.
― Se você quer tanta doçura, então por que você não se afoga em uma banheira de nutella?
Victor reprimiu a vontade de rir, não se lembrava de ver Clarice tão arisca na infância. Ela sempre se escondia atrás dele quando alguém debochava de sua aparência na escola.
― Talvez eu recuse essa encomenda suja de terra! ― Ele ergueu o queixo marcado por uma covinha.
Clarice não se pronunciou, pegou o restante das verduras e dos legumes e ajeitou as mercadorias na caixa.
Victor mostrou um sorriso branco e bem alinhado, franziu as sobrancelhas castanhas e puxou-a pelo braço. Antes que Clarice reagisse, ele segurou-a pela curva da cintura e apertou-a contra o corpo dele.
― Me larga, Victor! ― falou, receava que a voz revelasse seu nervosismo. Clarice encostou as duas mãos contra o peito de Victor e o empurrou.
— Que coincidência! — Os olhos azuis contemplavam a boca de Clarice. O olhar dele estava carregado de malícia. — Você se lembrou! — Esboçou um sorriso torto.
Sentiu um estranho calafrio na barriga, era como se tivesse ouvido algo muito significativo.
― Se você me agarrar de novo, eu grito! ― deu alguns passos para trás.
― Victor, o que está fazendo? ― A mulher grandalhona apareceu na entrada principal. ― Peça a garota para vir até aqui!
Ele coçou a nuca instintivamente, olhou da mulher de pele alva que o aguardava para Clarice. Fez uma pausa por alguns segundos e depois pegou a caixa com a encomenda bruscamente.
— Para a sua sorte, eu não ligo para a porra desse jantar ― disse, em um tom hostil.
― Babaca!
― Muito obrigado! ― Ele tirou o dinheiro da carteira e pagou o valor dos produtos. ― Fique com o troco!
― Não preciso de esmola!
Os olhos claros mediram-na do alto da cabeça até as unhas dos pés.
— Compre um vestido novo, esse aí está velho e surrado — a voz grave desdenhou de Clarice.
Victor deu de ombros e tomou distância, embora os olhos continuassem tenebrosos, talvez ela fosse a garota certa para concretizar os seus planos.
Clarice subiu na bicicleta e seguiu pelo caminho estreito da ardósia. Em poucos minutos, as pedaladas apressadas a levaram para longe dos limites daquele lugar.
A mão alva dele puxou a parte debaixo da camisa de linho azul.
Os sapatos batiam contra o paralelepípedo quando ele rumou até a entrada principal do casarão de dois andares com uma pintura branca e janelas de madeiras no estilo colonial.
— O seu pai quer falar com você — um funcionário deu o recado para Víctor.
Ele grunhiu. Sabia que os pais insistiriam no casamento arranjado.
Embora a economia da família crescesse no ciclo cafeeiro, mesmo depois de anos no auge, experimentou tempos complicados.
Desde então, assim como os avôs tiveram que se reinventar para manterem o patrimônio de pé, o pai de Victor fazia de tudo para perpetuar o legado da família nos últimos trinta anos. Inclusive, tinha planos de casar o seu único filho com a herdeira do Grupo Santos.
Victor ajeitou os fios negrão que caíam ao lado da testa, atravessou os dedos e moveu as mechas lisas para trás.
— Se eles pensam que vou ficar nesse lugar, estão muito enganados! — exclamou com impaciência.
Ele vagou pelo assoalho de madeira. Abriu a porta do escritório e vislumbrou a fisionomia carrancuda de seu pai.
— Olha quem resolveu aparecer! — Os olhos de Carlos Corte Real tinham uma expressão indecifrável. — Sabia que você voltaria, mas não tão cedo! — Ajeitou as costas na cadeira — Beba um pouco! — falou com uma voz autoritária.
Carlos entendia tudo sobre escrituração mercantil, avicultura, pecuária e agricultura, ao contrário de seu filho, que se recusou a aprender tudo o que envolvesse aquela fazenda.
Mesmo decepcionado, Carlos procurou ser paciente com o filho assim como a esposa pediu.
Victor pegou o copo e sentiu o aroma forte de conhaque sob o seu nariz, sorveu um gole da bebida alcoólica destilada.
— O senhor sabe que não gosto dessa cidade!
Carlos se agigantou do outro lado da mesa, o punho fechado socou o tampo retangular.
Fez um movimento furioso na direção do filho, no entanto, foi interrompido pela voz serena de sua esposa.
— Contenha-se Carlos! — Olívia colocou-se ao lado do filho. — Qual é o seu problema? — perguntou.
Victor livrou-se da fúria do pai e bebeu um gole do líquido marrom palha. Olhou para o conhaque no seu copo enquanto se recompunha.
— Converse com o seu filho, Olívia! — Fitou-a com a respiração ofegante e os punhos fechados sobre a mesa.
— Victor é nosso filho!
— Ah, tanto faz! — Carlos levantou a mão ao protestar— Esse babaca pensa que eu vou sustentar a boa vida que ele leva com a vadia dele no exterior.
— Retire o que disse! — Victor aprumou-se diante do pai, mas Olívia segurou-o pelo braço. — Carmem e eu nos amamos! — vociferou.
— Então, cadê ela? — Os grandes olhos expressivos de Carlos miravam a porta aberta. — Te deu um pé na bunda depois que o dinheiro acabou? — indagou em um tom sarcástico.
