Capítulo 4 Como ele ousa?

— Já chega! — Olívia ergueu a voz.

— Por sua culpa, esse garoto é um irresponsável! — berrou Carlos.

— Minha culpa? — A mulher alta e esguia cruzou os braços na defensiva. — Você que insistiu para que Victor estudasse nos melhores colégios europeus…— ela espremeu os olhos como fendas cortantes enquanto mirava o rosto com a fisionomia estranha do marido. 

Victor aproximou-se da porta e saiu sem ser notado, não fazia questão de participar daquela discussão entre os pais. Pegou o celular, tocou na tela brilhante e discou o DDI da Itália. Franziu o cenho quando a voz masculina o atendeu.

— Onde está Carmen? — perguntou. — Como assim está no banho? — Ele desceu os degraus de madeiras em passadas largas enquanto brigava com o homem pelo telefone. — Quero falar com a minha namorada! 

 Ele entrou em seu quarto e bateu a porta com toda a força. Examinou os traços de olhar sombrio no espelho do guarda roupa. 

— Como assim ela está ocupada? 

Ele sentou na beira da cama com uma colcha azul e bufou quando o homem do outro lado da linha desligou. Esticou o corpo no lençol que cobria o colchão e olhou para o teto com forro de madeira envernizado. 

Tinha que arrumar um jeito de voltar para Itália e reconquistar o seu primeiro amor.

Eram quase dez horas da noite, o cricrilar dos grilos e o canto das cigarras não o deixavam dormir. 

Victor afundou no colchão. Não tinha nada para fazer naquele fim de mundo.  

Uma brisa morna entrou pela janela, sua mente não parava de pensar em Clarice.

"Será que ela ainda era virgem? Talvez ela tenha se entregado para algum peão dessa maldita cidade". O pensamento o fez agarrar o travesseiro e bufar.

Minutos depois, ele virou-se para o outro lado e pensou novamente nas curvas de Clarice. 

Apesar dela não ser o tipo de mulher que almejava, Victor não deixou de reparar em seu decote enquanto ela pedalava na bicicleta. 

"Os seios são redondos e firmes, talvez ela tenha serventia para o que eu quero".

Enfiou a mão direita na calça de moletom preta. Victor empunhou o membro endurecido que reagia ao pensamento lascivo.

 Ele se tocou compulsivamente, movendo a palma da mão fechada de cima para baixo. 

A imagem de Clarice deitada sobre a grama verde lhe veio à mente. 

As mãos puxando o tecido de malha de seu vestido florido até a altura da barriga e os quadris erguendo-se para encontrar suas coxas abertas.

Ele fechou os olhos, os primeiros espasmos puseram um fim naquela agonia deliciosa. 

As veias de seu membro teso pulsavam enquanto expelia um líquido viscoso. 

Enfim, ele alcançou o que desejava, estremeceu de prazer por pensar em como seria tocar e entrar no calor daquele corpo imaculado. 

Victor estava ansioso para reencontrar a sua amiga de infância. Teria que seduzir Clarice para colocar o seu plano em prática.


No dia seguinte, Clarice acordou com o hálito morno e a voz infantil que sussurrava perto de seu ouvido.

— Acorda, maninha, já amanheceu! — Alice cochichou outra vez.

— Só mais cinco minutos! —  Puxou o cobertor de retalhos.

A menina com cachos da cor do petróleo pulava na cama sem parar.

— Você disse que se fizesse sol, você me levaria até a cachoeira.

— O.k. — falou com a voz arrastada. — Vá se arrumar! Penteie os seus cabelos e escove os seus dentes!

— Oba! — A menina saiu da cama.

Clarice abraçou o travesseiro e fechou os olhos; mal havia acordado e Victor estava em seus pensamentos. Não compreendia como um menino tão gentil e doce pôde se tornar num homem tão abusado e arrogante.

— Como ele ousa! — Sentou na cama quando se recordou da forma como ele a puxou para si.

Ela nunca esqueceu da última vez que o viu na casa grande da fazenda.

Anos atrás, Victor tinha quinze anos quando chegou com uma nova amiga.

Inocentemente, Clarice, que, na época, tinha treze anos,  foi ao encontro do amigo no celeiro.

Ela pensou que, naquela tarde, cavalgariam, mas a expressão pétrea contemplou seu melhor amigo aos beijos com uma garota que parecia mais velha do que ele.

Nunca se esqueceu do jeito como ele a expulsou. Ela era muito jovem e sensível e fugiu dali magoada. Após esse acontecimento, evitou conversar com ele, apenas ajudava o pai a cuidar dos cavalos discretamente e se mantinha distante da casa grande.

Algumas semanas  mais tarde, viu quando Victor saiu na companhia do avô e seguiu com duas bagagens até o carro, ele nem mesmo se despediu, não parecia feliz.

O mais estranho era que a notícia de que ele voltaria a cidade não chegou até ela. Fazia tantos anos que não via Victor, que imaginou que ele estava em algum lugar do mundo com sua esposa e seus filhos.

 — Clarice, nós vamos morar na rua?  — A menina apareceu, de repente.

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