Capítulo 5 Socorro!

Alice tentava prender o cabelo com um elástico rosa.

 — Claro que não!  — respondeu de imediato. — Quem disse isso?

 — O filho do capataz disse para todo mundo na escola que eu sou menina de rua.

— Não dê ouvidos ao Tony! Ele só faz isso para se aparecer. — Puxou a irmã pela mão e sentou a menina em seu colo.  — Na segunda-feira, eu vou lá conversar com a sua professora.

 Não queria que a irmã percebesse como ficava incomodada em lidar com aquela situação. Estava acostumada com aquele papel, cuidava de Alice desde o dia em que ela nasceu. Ela trançou o cabelo da irmã e fez cócegas até ela rir.

Não era fácil levantar diariamente às quatro da manhã e trabalhar até tarde da noite. Desde pequena, Clarice passava o dia trabalhando com o pai e torrando ao sol para ver a plantação secar quando não chovia. Se não fosse pela ajuda do poderoso fazendeiro Carlos Casa Grande, a sua família definharia de fome. Durante anos, o pai de Clarice ganhava a vida cuidando das terras da fazenda, assim como milhares de outros que passavam pela mesma situação. Ela tinha 15 anos quando viu que o pai emagrecia e tomava chás para limpar o peito, dizia ele que era catarro e que aquilo era só uma gripe, logo iria ficar bem. Para o desespero da família, Paulo faleceu de pneumonia um mês depois.

 Clarice tirou a camisola e foi direto para o único banheiro da casa, onde a irmã escovava os dentes, tomou um banho e fez o asseio pouco antes de cuidar da mãe e sair para limpar a propriedade que era só lama e mato. Lavou a roupa e bateu no tanque, torceu, jogou cada peça de roupa na bacia e, logo em seguida, estendeu no varal improvisado no quintal da casa.

Depois do almoço, ela deixou a mãe aos cuidados de Dona Ruth, vizinha e amiga de longa data da família, e seguiu com a irmã por uma trilha rápida de cinco minutos. A queda d’água era belíssima, elas caminharam pela faixa de areia na beira do rio.

Havia alguns carros estacionados, então Clarice pensou em voltar outro dia, pois o local, antes tranquilo, agora estava cheio de jovens que ouviam uma música estranha, riam sem parar e bebiam. 

Alguns visitantes pareciam impressionados com o tamanho da queda d’água e escalaram as pedras para se aventurar e capturar as melhores fotos. A cachoeira da Usina era muito bela, pois tinha uma queda d’água bastante forte. 

― Alice, vamos ficar por aqui!

Clarice parou em um lugar calmo e sem aglomerações, forrou uma toalha felpuda vermelha no chão, e ofereceu um sanduíche para a irmã. 

― Posso pegar peixinhos?

― Não! ― Olhou em volta, mais pessoas se aproximavam e se ajeitavam no ribeiro. ― Fica aqui!

― Eu quero me molhar um pouco e ver se tem peixinhos, por favor! ― Os olhinhos castanhos pidões fitavam a irmã.

― Tudo bem! ― Clarice levantou-se. ― Vou sentar ali na beira para molhar os pés.

Clarice usava uma bermuda preta um pouco acima dos joelhos e uma camiseta branca.

Não tinha roupas de banhos ou biquínis tão bonitos quanto os das moças da cidade, que se exibiam em suas cadeiras enquanto tomavam sol.

Ela afundou os pés nas águas doce e frias, ergueu os olhos e contemplou os dentes de leite da irmã, que exibia um lindo sorriso.

A menina ia de um lado para outro na parte rasa. Alice segurou um peixinho, mas escapou-lhe das mãos e caía de novo nas águas frias, Clarice riu da irmã.

De longe, ela notou a silhueta do homem alto que tirava a blusa, haviam ondulações nos músculos do abdômen e da barriga, o corpo dele tinha o formato de um triângulo invertido.

O rosto oval corou feito uma beterraba quando Victor olhou em sua direção, ela baixou a cabeça, enfiou a mão na bolsa e tirou um livro de capa desgastada que comprou na banca de jornal perto do  trabalho.

― Não! ― Cerrou os olhos e sacudiu a cabeça para se libertar do pensamento.

Por mais que não esperasse qualquer coisa daquele olhar de Victor, ela tinha certeza de que ele não estava solteiro, afinal, já estava com mais de vinte cinco anos e o que ele poderia querer com uma garota como ela?

Clarice olhou de soslaio e notou que Victor havia desaparecido como em um passe de mágica. Talvez, ele estivesse com uma das garotas da cidade.

Para Clarice, naquela altura da vida, Victor era um homem de negócios assim como pai e, com certeza, deveria ter alguma noiva ou, imaginou que,  talvez a esposa dele estivesse em casa cuidando dos filhos.

O canto dos pássaros se uniam ao som da queda  da água, era como se estivesse num mundo totalmente seu, cheio de tranquilidade.

Clarice ouviu um barulho que chamou-lhe a atenção, o momento de paz foi roubado pela sensação de ser vigiada.

― Socorro! ― Clarice conhecia bem aquela voz infantil.

Em meio ao desespero, ela notou  o pequeno corpo de Alice desaparecer enquanto era levada pelas águas, o braço da menina subia e lutava em vão contra a correnteza que a carregava para longe.

― Socorro! ― berrou a criança quando emergiu e, em seguida, sumiu nas águas de novo.

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