Capítulo 2
A condição da minha mãe estava piorando.
O veneno de prata tinha se espalhado ao redor do coração dela; cada batida parecia um cabo de guerra com a morte. Mas eu sabia que ficar nas cavernas de cura só tornaria tudo pior — eu não podia pagar aquelas taxas médicas absurdas, e os curandeiros me olhavam como se eu fosse um encrenqueiro atrasado com as contas.
Eu tinha que tirá-la de lá.
Sob o manto da escuridão, transferi minha mãe para o antigo santuário da família. Era um templo abandonado na borda do território, uma estrutura de pedra antiga com trezentos anos de história. E, mais importante, havia ali uma fonte sagrada ancestral. Embora não pudesse se comparar à Água Sagrada do Luar, combinada com várias ervas que eu havia coletado no último meio mês para suprimir o veneno de prata, ela de fato trouxe uma melhora evidente ao estado da minha mãe.
Por meio mês, eu tinha atravessado quase todo o território, procurando qualquer erva que pudesse ser eficaz contra o veneno de prata. Erva-lâmina-da-noite, samambaias do luar, cipós de folha prateada... fui encontrando essas plantas raras uma a uma, transformando-as em remédios para serem tomados com a água da fonte sagrada.
A pele da minha mãe já não estava tão acinzentada, e os padrões negros do veneno de prata tinham desbotado consideravelmente. Ela conseguia até ficar consciente e conversar comigo, contando alguns segredos antigos da família.
No entanto, justo quando eu finalmente vi um lampejo de esperança, o desastre caiu sobre nós.
Um estrondo mecânico colossal veio de longe. Mais de dez máquinas pesadas de demolição avançavam em direção ao santuário, seguidas por uma equipe de guardas totalmente armados.
Corri para fora do templo e bloqueei o caminho do comboio.
— Parem! Isto é propriedade privada!
O encarregado da obra na dianteira enfiou a cabeça para fora da cabine da máquina, claramente sem paciência:
— Arthur? Ordem da líder: demolir esta ruína imediatamente e construir aqui uma nova arena.
Arena. Meu sangue começou a ferver.
— Este é o solo sagrado da minha família. Ninguém tem o direito de—
— Direito? — uma voz familiar e enjoativa veio detrás do grupo de guardas.
Liam se aproximou devagar montado no seu cavalo de guerra branco, com aquele colar Chama Ardente de oitenta mil moedas de ouro no pescoço, cintilando ao sol. Atrás dele, uma figura mais alta desceu de uma carruagem.
Selene.
Ela vestia o manto de batalha com padrões prateados que simbolizava sua posição de liderança; a postura, elegante e serena, como se estivesse apenas inspecionando o jardim dos fundos.
— Querido Arthur — disse Liam, com uma falsa compaixão —, ouvi dizer que você acabou de perder sua mãe. Que tragédia. Selene achou que você precisava sair das sombras, então decidiu construir para mim uma arena espetacular aqui. Toda vez que você olhar para essa estrutura, vai se lembrar do significado de contribuir para o território.
Eu encarei Selene, com os punhos cerrados.
— Este lugar não pode ser demolido.
Selene enfim lançou um olhar para mim. Um olhar tão casual quanto para mato à beira da estrada.
— Arthur, esta ruína está abandonada há trezentos anos. Depois da morte da sua mãe, há ainda menos razão para preservá-la. — Seu tom era calmo a ponto de ser indiferente. — Liam precisa de um local de treinamento para melhorar suas habilidades de combate. Isso beneficia o território.
— Este lugar guarda a história da minha família!
— História? — Selene varreu as paredes esfarelando com os olhos, sem se importar. — História existe para ser superada. Sua mãe se foi. Você deveria seguir em frente.
O tom dela carregava aquele ar de “graça da liderança” — como se permitir que eu tirasse o cadáver da minha mãe da vala comum para enterrá-la de novo já fosse a maior misericórdia possível.
— Eu disse que este lugar não pode ser demolido! — Dei um passo à frente; minha voz começou a tremer — não de medo, e sim de fúria contida.
A equipe de guardas levantou as armas de imediato. Mas Liam fez um gesto para que abaixassem, e o sorriso dele ficou brincalhão.
— Eu entendo suas emoções neste momento. No entanto, se você realmente tem sentimentos por este lugar, eu poderia considerar uma troca. — O olhar dele caiu no apito de osso do rei lobo no meu peito. — Esse apito de osso parece muito antigo. Deve ter valor de colecionador. Se você estiver disposto a usá-lo como garantia, eu posso convencer Selene a adiar o plano de demolição por um mês.
Selene arqueou uma sobrancelha, mas não protestou. Ficou ao lado de Liam, de braços cruzados, observando friamente tudo se desenrolar.
O apito de osso do Rei Lobo.
Era um artefato antigo que selava dentro de mim a linhagem do rei lobo primordial. Uma vez que essa linhagem despertasse, eu temia me tornar alvo e sofrer cerco de outros lobisomens de alto escalão do território. Mais importante: embora a condição da minha mãe tivesse melhorado, ela ainda precisava de tratamento contínuo com ervas. Eu não podia expor minha verdadeira força agora.
Eu precisava de tempo.
— Um mês. — Tirei devagar o apito de osso de onde pendia no meu pescoço. — Em um mês, vou pagar as moedas de ouro para resgatar esta terra.
Um lampejo de malícia atravessou os olhos de Liam. — Claro. Vou cuidar muito bem desse... brinquedinho interessante.
Ele estendeu a mão para receber o apito de osso. Justo quando ia agarrá-lo com firmeza, de repente “perdeu a pegada”.
O apito antigo, que carregava a história da família e selava a linhagem do rei lobo primordial, despencou com força sobre o duro calçamento de pedra.
Um estalo nítido de quebra ecoou pelo vale.
O apito se estilhaçou em pedaços; as runas antigas perderam o brilho no mesmo instante, e o poder selado se dissipou como uma maré.
— Ah, meu Deus, mil desculpas! — Liam se desculpou de modo teatral, embora seus olhos faiscassem com uma malícia triunfante. — Minha mão escorregou. Mas até uma antiguidade quebrada ainda é uma antiguidade — deve ter... valor arqueológico, não?
Selene ficou parada, sem sequer franzir a testa. O canto de sua boca até se ergueu um pouco — um ar de aprovação tácita.
No instante em que o selo se quebrou, senti algo antigo e aterrador dentro de mim despertar.
Meu sangue começou a ferver, meu coração ribombando como tambores de guerra. Meus ossos estalaram com força, como explosões, enquanto meus músculos se expandiam rapidamente. Meus olhos mudaram do castanho comum para um dourado escuro e profundo — a linhagem do rei lobo primordial havia despertado por completo naquele momento.
— Vocês... — Minha voz ficou grave e perigosa, cada palavra como o rugido de uma fera. — sabem o que acabaram de fazer?
Liam ainda ostentava um prazer presunçoso: — O que eu fiz? Só deixei cair um osso quebrado—
Antes que pudesse terminar, uma pressão invisível irrompeu de repente.
Era um poder antigo vindo das profundezas da linhagem — a majestade absoluta de domínio do rei lobo primordial. Até o ar se distorceu; a vegetação ao redor balançou sem vento, e as pedras tremeram.
A serenidade no rosto de Selene finalmente apresentou sua primeira rachadura. Suas pupilas se contraíram de súbito e o corpo recuou, involuntariamente, meio passo — o sangue de lobo dentro dela gritava, dizendo que aquele homem que ela abandonara e humilhara carregava uma linhagem apavorante, muito além da sua compreensão.
O sorriso de Liam congelou por completo quando ele desabou no chão. As armas dos guerreiros guardas caíram de suas mãos; os joelhos fraquejaram, os corpos estremeceram violentamente.
Meus ossos ainda estalavam, meu corpo passando por mudanças irreversíveis. Mais de vinte anos de repressão e raiva enfim encontravam uma saída.
Quando eu estava prestes a perder o controle de vez, um uivo de lobo que rasgou os céus ecoou subitamente lá do alto.
O som era distante e, ainda assim, claro, como se viesse das nove alturas direto ao coração. Mais assustador: eu sentia o poder contido nele — uma existência do mesmo nível do sangue real despertando no meu corpo. Uma convocação antiga: quando a linhagem do rei lobo primordial despertava por completo, atraía a percepção de seres de nível equivalente. Naquele momento, alguma entidade colossal, terrível, já havia detectado meu surto de linhagem e se aproximava a uma velocidade alarmante.
Liam ficou tão apavorado que se urinou. A equipe de guardas empalideceu, querendo fugir, mas incapaz de mover as pernas.
Selene permaneceu rígida no lugar; aquele sorriso controlado no canto da boca já havia sumido sem deixar vestígio. Seus lábios se entreabriram, como se quisesse dizer algo, mas ela não conseguiu arrancar uma única palavra.
O selo estava quebrado, o sangue real despertara, e a convocação antiga soara.
Tudo o que viesse a seguir mudaria completamente a estrutura de poder deste território.
Incluindo todo o orgulho e a frieza de Selene — que seriam reduzidos a pó diante do verdadeiro poder.
