Capítulo 1
Por cinco anos, meu marido — um chefão do crime — me fez tirar a aliança nove vezes. Tudo por causa da preciosa donzela em perigo dele.
Quando a gente se casou, ele me prometeu: “De agora em diante, você é a minha rainha, a rainha de Nova Orleans.”
Mas sempre que a Odette aparecia chorando, pedindo ajuda, ele mudava o discurso: “O senhor Laurent salvou a minha vida, Cordelia. Eu devo tudo à família dele.”
E, como uma idiota, eu acreditei oito vezes.
Oito vezes eu assisti, das sombras, enquanto ele levava outra mulher aos nossos restaurantes favoritos.
Oito vezes eu expliquei para o pessoal que a nossa “separação” era só pra dar um tempo, um espaço um ao outro.
Oito vezes eu vi ela se mudar pro meu quarto, usar as minhas louças, dormir na minha cama.
Tudo por um homem que não parava de me fazer tirar a aliança e depois colocar de novo, sempre a mesma coisa, uma vez atrás da outra.
Até a nona vez, quando ele disse que precisava fornecer esperma pro tratamento de fertilidade dela, e eu me ofereci pra ir embora.
Ele ainda acha que isso é só mais uma pausa temporária, esperando que eu volte rastejando em um mês, como sempre.
Ele nunca vai saber que eu já comprei minha passagem pra sair daqui.
“Só assina. A Odette precisa de você, eu sei.”
Eu empurrei com cuidado o “Nono Acordo de Separação” — já assinado por mim — na direção de Jackson Beaumont.
O escritório estava em silêncio, tirando o tic-tac do relógio. O laudo médico de Odette Laurent estava aberto sobre a mesa — disfunção ovariana, níveis hormonais anormais, recomendação de iniciar imediatamente um tratamento de reprodução assistida. A última linha estava marcada com tinta vermelha: [Esta é a última chance de a paciente engravidar.]
Jackson ficou claramente atônito.
Foi a primeira vez que eu não questionei, não discuti, não quebrei nada.
“Você… finalmente está sendo razoável”, ele disse, embora a mão hesitasse ao alcançar a caneta.
Eu o observei assinar, com movimentos tão automáticos quanto pagar contas todo mês. Mas eu percebi que, desta vez, era diferente. A testa dele se vincou mais, como se estivesse pesando alguma coisa.
Por cinco anos, toda vez que eu questionava o favoritismo dele pela Odette, ele repetia a mesma ladainha: “Eu tenho uma dívida com a família Laurent.”
E agora, essa “dívida” exigia que ele desse a eles um filho.
Quando fechou a pasta, Jackson soltou, por hábito, a frase que já tinha repetido oito vezes: “Daqui a um mês, quando o tratamento da Odette der certo, a gente restaura o nosso casamento. Eu mesmo vou colocar a aliança de volta no seu dedo.”
Antes, eu teria insistido em detalhes, exigido garantias, feito ele colocar as promessas no papel.
Mas, dessa vez, eu não senti nada por dentro — nem vontade de responder.
“Cordelia”, ele chamou, com a voz ficando mais dura. “Você está me ouvindo?”
Eu apenas baixei os olhos para ver minha assinatura no documento. “Eu ouvi.”
Quando Jackson dizia que nosso casamento seria restabelecido, seria restabelecido. No submundo de Nova Orleans, a palavra dele era lei.
Desde o começo, nosso casamento nunca pareceu uma relação de marido e mulher — era mais um acordo comercial entre duas famílias poderosas. Só que esse acordo tinha uma cláusula: quando Odette aparecesse, ele podia ser suspenso temporariamente.
Em cinco anos, eu assinei oito “separações” e assisti a oito tentativas dele de salvá-la.
Eu me lembrava do dia do nosso casamento, quando ele segurou minha mão e disse: “Durante o nosso casamento, eu pertenço somente a você.”
Ele tinha cumprido essa promessa.
Durante as separações, com quem quer que ele estivesse não contava como traição. E eu era apenas a esposa que podia ser “pausada” a qualquer momento.
Abri o closet. Minhas malas tinham sido arrumadas fazia tempo, prontas para serem levadas a qualquer hora.
Jackson me observou conferir a mala, e a expressão dele foi ficando estranha. Da última vez, eu tinha estilhaçado o espelho inteiro ali dentro, e os cacos de vidro tinham cortado o ombro dele. Na vez anterior, eu tinha queimado os lençóis; o fogo quase se espalhou por toda a mansão.
Mas, desta vez, eu apenas fechei o zíper da mala, calma.
“Ou… talvez eu devesse ir para o apartamento no centro desta vez? Você fica aqui”, ele disse, num tom de quem estava sondando.
Eu sabia o que ele estava esperando. Ele encarava meu rosto, tentando pegar qualquer faísca de emoção — raiva, mágoa; qualquer coisa era melhor do que esse silêncio de morte.
Eu nem levantei a cabeça: “Não precisa. Vou ficar uns dias na casa da Elise.”
Ao mencionar “Elise”, a expressão de Jackson escureceu na hora.
“Você vai de novo pra casa da minha irmã?” Ele deu um passo à frente, a voz baixa, mas cortante. “Que nem da última vez, quando você convenceu ela a jogar vinho na Odette em público? Ou da vez anterior, quando você levou ela pra seguir a gente por aí, tirando aquelas fotos de ‘prova’?”
Continuei arrumando sem responder.
Mas ele não tinha terminado: “Cordelia, dá pra você arrumar uma vida? Faz cinco anos que a sua existência inteira gira em torno de me vigiar, armar contra a Odette e colocar as pessoas contra mim.”
Ao ver aquela expressão dele, tão cheio de razão, eu entendi na hora o verdadeiro sentido das acusações — Fique Longe de Mim e da Odette.
Ele só não queria que eu me metesse entre os dois.
Durante este mês, ele queria se dedicar completamente a acompanhar a Odette no tratamento, sem ser atrapalhado por mim, a “esposa pausada” dele.
Só que, desta vez, as preocupações de Jackson eram realmente desnecessárias.
