Capítulo 2
Enquanto eu empurrava a mala em direção à porta, as palavras do Jackson ainda ecoavam nos meus ouvidos: “Você é tão patética assim? Não consegue sobreviver sem um homem?”
Ele tinha razão. Nos últimos cinco anos, eu tinha despejado toda a minha energia em vigiar cada passo dele e em brigar com a Odette.
Eu me lembrei do que aconteceu no terceiro dia da nossa terceira reconciliação, durante a reunião trimestral da Bayou Kings.
Naquele dia, eu estava sentada na segunda cadeira à direita do Jackson, ouvindo a Odette apresentar os “prejuízos” da floricultura dela.
— Nos últimos três meses, a floricultura Fleur de Lis registrou prejuízo de oitenta mil dólares. — Eu me levantei, projetando os demonstrativos financeiros na tela. — Mas os extratos bancários mostram que, no mesmo período, cento e vinte mil dólares foram transferidos para a conta pessoal da Odette. Essa diferença continua sem explicação.
O rosto da Odette empalideceu na hora, e ela agarrou o encosto da cadeira do Jackson:
— Isso foi... isso foi uma transferência operacional normal da floricultura, eu... eu posso explicar...
Jackson nem chegou a olhar as provas; manteve os olhos fixos em mim:
— Chega! Cordelia, saia daqui!
— Fraude financeira viola a sétima regra—
— Eu disse chega! — Ele me deu um tapa, com a voz baixa, mas alta o bastante para todo mundo na sala de reuniões ouvir. — Quer brincar comigo? Acha que eu não sei o que você está tentando fazer?
Ele se virou para os tenentes, ainda atônitos, e a voz voltou ao tom autoritário:
— A partir de agora, Cordelia não atua mais como assessora financeira. O conteúdo desta reunião envolve assuntos de família — todas as gravações devem ser destruídas imediatamente. Quanto às questões contábeis da floricultura, eu vou resolver isso em particular.
Naquela noite, apareceu um comunicado oficial, assinado pelo próprio Jackson, nos canais internos: [Declaração sobre o Terceiro Acordo de Separação e Mudanças de Pessoal].
Ele reconhecia que nosso casamento tinha sido suspenso conforme o nosso acordo de separação, enfatizando que a separação era “de comum acordo”, dando a entender que minha atitude na reunião tinha sido “emocional” e que eu estava “criando problemas”. No pós-escrito, estava: “Por favor, respeitem os termos do nosso acordo e evitem especulações desnecessárias.”
Sentada na cama, lendo o comunicado, eu finalmente entendi o cálculo dele. Depois de cada reconciliação, ele soltava essas declarações — não por honestidade, mas para me transformar de “a esposa traída” em “a parceira que concordou em se separar”.
E agora, parada na entrada da mansão, eu disse ao Jackson, debaixo da chuva:
— Dessa vez, eu vou embora sem fazer barulho.
Aí eu entrei no táxi.
Jackson claramente não esperava tanta calma da minha parte. Ele congelou por um instante e, depois, gritou:
— Dia 16 de julho, consulta da cirurgia da Odette. Vou estar esperando você voltar naquela tarde.
Olhei o calendário do meu celular. Dia 16 de julho, às três da tarde, meu jato particular estava marcado para decolar.
Falei para o motorista:
— Vamos.
O vidro subiu, cortando a expressão dele.
Uma semana depois de sair da mansão, eu estava hospedada na vila da Elise. Jackson estava completamente obcecado com a Odette tentando engravidar e não tinha me procurado uma única vez.
Diferente das separações anteriores, eu já não tinha gente acompanhando os passos do Jackson nem aparecia de propósito onde ele poderia estar. Eu e Elise estávamos vivendo umas férias de verdade, sem estresse — compras e spa durante o dia, vinho e jazz à noite.
Quando me dei conta, faltavam só duas semanas para a minha partida planejada.
Naquele dia, eu e Elise estávamos provando roupas numa boutique no centro quando Jackson entrou, com a Odette pendurada no braço dele. Vi, pelo espelho, ele hesitar na entrada — claro que ele também tinha me visto.
— Cordelia! Que coincidência, você também está fazendo compras? — Odette se agarrou ao braço de Jackson, com um sorriso doce até demais.
Jackson não respondeu. Só ficou ali, com o olhar indo de mim para as roupas da loja, como se estivesse decidindo se virava as costas e ia embora.
Eu os ignorei e continuei escolhendo roupas com a Elise.
Quando eu já tinha separado três peças e estava pronta para pagar, Odette puxou de leve a manga do Jackson:
— Jackson, são exatamente os modelos que eu queria... É difícil pra mim ficar andando por aí fazendo compras desse jeito. E o médico disse que eu preciso ficar com o astral lá em cima — isso é importante pras minhas chances.
Jackson olhou para mim e, por fim, assentiu para a vendedora:
— Embrulha. Coloca na minha conta.
Seis meses atrás, essa cena teria acabado comigo. Agora, eu só achava essa encenação previsível um pouco engraçada.
Elise ficou pálida de raiva, quase pronta para ir tirar satisfação, mas eu apertei o braço dela de leve.
— Tá tudo bem, Elise. Vamos em outra loja.
Antes, uma coisa dessas me deixaria acordada a noite inteira, repassando cada detalhe até enlouquecer. Mas agora, ver os dois era como assistir a uma novela ruim que não tinha nada a ver comigo.
Eu ainda senti um traço de pena — ele realmente achava que eu ainda ia me abalar por causa de umas peças de roupa, por causa de um homem que já estava podre por dentro fazia tempo.
A vendedora foi embalando as roupas enquanto bajulava a Odette:
— Moça, você é muito sortuda por ter um rapaz tão atencioso.
Jackson ouviu aquilo, mas os olhos dele continuaram me acompanhando enquanto eu ia em direção à porta com Elise. Ele estava esperando — esperando eu me virar, explodir, soltar o meu velho “Jackson, como você tem coragem!”.
Mas eu só carreguei a minha sacola, dei o braço para Elise e fui direto para a saída. Sem parar, sem trocar olhares, sem palavras desnecessárias.
A porta da loja se fechou atrás de mim. Através do vidro, Jackson ficou parado, como se tivesse congelado, segurando as roupas que eu tinha escolhido, com o olhar preso na minha figura se afastando.
