Capítulo 3

Depois que eu e a Elise saímos da boutique, entramos direto no café da esquina.

Pela vitrine, eu vi a Odette puxando a manga do Jackson, o tom cheio de charme virando reclamação: “Amor, sobre aquela camisola... Jackson? O que você tá olhando?”

O Jackson olhou na minha direção, meio atordoado, antes de desviar o olhar. “Nada.”

Eu vi ele pagar no automático enquanto a Odette o arrastava para longe. Dei um gole no meu café.

“Você não vai brigar por aquelas roupas?”, a Elise brincou.

Balancei a cabeça. “Elas nunca foram minhas, pra começo de conversa.”

Achei que ali tinha acabado.

Três dias depois de sair da boutique, naquela noite o Jackson ligou, do nada.

Fiquei encarando o nome dele na tela, sem entender. Em cinco anos, ele nunca se importou com o que eu gastava. As faturas daquele cartão eram debitadas automaticamente — ele nem olhava.

Atendi.

“Você cancelou o cartão?” A voz dele vinha tensa, segurando a raiva. “O financeiro perguntou se eu queria emitir outro. Foi assim que eu fiquei sabendo.”

“Cancelei.” Eu secava o cabelo com a toalha, olhando meu reflexo no espelho. “O acordo de separação está valendo. Não seria certo eu continuar usando o seu cartão.”

“Separação é separação, dinheiro é dinheiro! Você precisa ser tão calculista com tudo?” Ele fez uma pausa. “Ou isso é mais um dos seus joguinhos pra eu acabar com a separação antes do tempo?”

Eu ri por dentro. Para ele, até a minha independência só podia ser manipulação.

“Você tá viajando.” Joguei a toalha de lado. “Se é pra eu agir com maturidade, eu vou agir com maturidade até o fim.”

Ele claramente não esperava essa resposta. Depois de alguns segundos, o tom dele amoleceu, voltando àquela tolerância condescendente de sempre:

“Cordelia, eu sei que você tá magoada. Mas você não precisa provar nada desse jeito. Você usou esse cartão por cinco anos — parar assim, de repente, o que as pessoas vão pensar? Vão achar que eu tô te tratando mal, ou que a gente tá com problemas.”

“Vamos fazer assim — amanhã eu peço pra minha secretária providenciar um cartão novo pra você, com o limite dobrado. Compra o que você quiser, vai pra Paris, Milão — só fica mais discreta esse mês.”

Quase soltei uma risada. Depois de cinco anos, ele ainda não entendia.

“Não precisa. Eu tenho dinheiro suficiente do meu bolso.”

O Jackson ficou mudo. “Do seu bolso? De onde diabos você tiraria dinheiro seu, Cordelia? Você tá envolvida com alguém?”

As palavras saíram cortantes e acusatórias, escancarando a desconfiança dele.

“Se você ligou só pra me interrogar, eu vou desligar.”

“Não foi isso que eu quis dizer.” Ele recuou depressa. “Eu só tô preocupado com você. Eu não estando por perto, você ficando sozinha...”

Ele não conseguiu terminar a frase. Porque até ele sabia que, nesses cinco anos, eu passei mais tempo sozinha do que com ele.

“Dessa vez a culpa foi minha.” A voz dele baixou. “Mas é de verdade a última vez. Assim que a cirurgia da Odette acabar, tudo volta ao normal. Eu prometo.”

Eu não respondi. Só ouvi, como quem escuta um roteiro decorado há muito tempo.

O silêncio prolongado deixou Jackson inquieto.

— Seu aniversário é mês que vem, dia 15. — Ele amaciou a voz de propósito. — Eu reservei a suíte do barco “St. Charles”. A gente vai navegar pelo Mississippi o dia inteiro, só nós dois.

Ele fez uma pausa:

— Eu desmarquei tudo na minha agenda. E já combinei com alguém pra cuidar da Odette.

Por um instante, fiquei quase atônita com esse “presente”. Em cinco anos, ele nunca tinha tirado um dia inteiro pra mim.

Mas foi só por um instante.

Porque eu me lembrava perfeitamente de que, na madrugada do dia 16 de julho, meu voo de partida decolaria do aeroporto de Nova Orleans.

Antes que eu conseguisse responder, a voz da Odette entrou cortando:

— Jackson — não tô achando aquele suplemento… e você disse que ia me fazer massagem. Minhas costas tão doendo muito.

Um choramingo doce e enjoativo, com o tilintar de copos ao fundo, e música — aquele blues que Jackson adorava, mas que nunca tinha dançado comigo.

— Vai lá. — Fui eu quem falou primeiro, com a voz lisa, sem emoção. — Ela precisa de você.

— Cordelia, me dá uns minutos. — Ele falou depressa. — Vou fazer ela dormir primeiro, aí a gente continua conversando. Sobre o barco…

Ouvi passos. O telefone foi colocado em algum lugar, mas ele não desligou.

Uma conversa abafada atravessou o fone:

— De quem é essa ligação, uma hora dessas… — Odette reclamou, manhosa.

— Coisa do trabalho. Deita, já vou aí. — Jackson baixou a voz.

— Deitar? Você não disse que era massagem primeiro?

Depois veio o farfalhar de roupa, o grunhido abafado do Jackson, o som de corpos se ajeitando num colchão. A porta do quarto se fechou de leve.

A ligação continuou ativa. Do outro lado, ficou só a música — e a respiração de duas pessoas, cada vez mais audível. Sem pudor, quase exibida.

Desliguei sem expressão. Quando a tela escureceu, ela refletiu a curva irônica dos meus próprios lábios, como se eu estivesse rindo de mim mesma.

Elise entrou empurrando a porta, com os olhos brilhando:

— Clube novo de um amigo — hoje tem show de homens. Tanquinho, pernas compridas, papo bom. Quer ir?

Eu larguei o celular sem hesitar:

— Quero.

Ao entrelaçar meu braço no da Elise, eu ainda acrescentei:

— Do mais caro, tudo.

O clube estava tomado por luzes vertiginosas e música ensurdecedora. Eu me sentei na área VIP, com Elise à minha esquerda e um modelo italiano à minha direita — cabelo castanho, olhos verdes, sorriso impecável e histórias interessantes.

Por cinco anos, eu me prendi ao lado de alguém que não me amava, remoendo cada desprezo dele. Mas o mundo era tão grande — cheio de vinho, música e gente que realmente te enxerga. Por que eu continuaria parada por causa dele?

O modelo italiano me ofereceu um coquetel da casa:

— Este se chama “Renascimento”. Pra você.

Virei tudo de uma vez. A bebida era forte, e alguma coisa congelada no fundo do meu coração começou a derreter.

Os dias sem Jackson passaram voando. Logo faltavam só alguns dias para 16 de julho.

De vez em quando, Elise trazia notícias:

— Ouvi dizer que o Jackson e a Odette tiveram uma briga feia.

— Ele ficou tão bêbado no “Midnight Rose” que apagou, quebrou metade do bar. Dizem que ele ficava chamando o seu nome.

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