Capítulo 4

— “É mesmo.” Minha voz saiu tão plana quanto se eu estivesse comentando sobre o tempo.

Eu me lembrei de três anos atrás, quando corri para o bar à meia-noite, levei vômito dele em cima e passei a noite inteira cuidando dele. Quando ele acordou, as primeiras palavras foram:

— “O que você está fazendo aqui? Cadê a Odette?”

Dois anos atrás, quando ele ficou com febre, eu me sentei ao lado da cama e ajudei a baixar a temperatura. No delírio, ele segurou minha mão e murmurou:

— “Odette, não vai embora.”

Seis meses atrás, quando eu corri até lá, a Odette já estava cuidando dele. Ela ergueu os olhos e sorriu para mim:

— “Ele disse que estava com saudade de mim.”

Eu costumava achar que o nome que ele chamava quando estava bêbado era o nome de quem ele guardava no coração. Então eu continuava correndo até ele, querendo provar que eu era a especial.

Agora eu finalmente entendi: ele chamava meu nome não porque me amava, mas porque sabia — eu era a única que realmente apareceria.

Eu apoiei minha xícara:

— “Dessa vez, ele pode berrar até ficar rouco que não vai adiantar.”

A partir daquele dia, Jackson começou a me procurar de forma desesperada. Três ligações por dia, cinco mensagens, de “vamos jantar?” a “tenho um vinho ótimo, quer provar?”

Eu deixei o celular no silencioso e não respondi às mensagens. As joias, flores e bolsas que ele mandou entregar, eu devolvi sem abrir.

Então ele começou a ligar às duas da manhã — um horário em que ele nunca tinha me procurado antes, porque “a Odette precisa descansar”.

Assim que eu atendia, ele ficava em silêncio e, depois, perguntava:

— “Você está dormindo?”

Eu desligava na hora e bloqueava o número. No dia seguinte, ele ligava de outro.

Ele era como alguém que, de repente, percebeu que tinha perdido o controle e saía procurando, desesperado. Não porque precisasse de mim, mas porque — eu não estava mais à disposição dele.

15 de julho. Faltavam vinte e quatro horas para o meu voo.

Às sete da manhã, a ligação de Jackson veio de novo.

— “Cordelia, eu deixei tudo acertado para a festa no iate hoje à noite.” A voz dele trazia uma paciência rara. “O capitão, o chef, a banda — só o melhor. Não recuse desta vez. Me dá uma chance de pedir desculpas.”

Eu me lembrei de todos aqueles dias em que ele tinha me ignorado.

No nosso aniversário — eu tinha planejado por três meses, ele esqueceu, disse que estava ajudando a Odette com “documentos do inventário”.

No aniversário do dia em que a gente foi morar junto — eu cozinhei um jantar inteiro e esperei até meia-noite enquanto ele mandava mensagem: “A Odette está abalada. Vou ficar com ela.”

Mais irônico ainda: hoje, 15 de julho, nem era meu aniversário de verdade — era o aniversário do dia em que assinamos nosso acordo, cinco anos atrás. Ele nunca lembrava do meu aniversário de verdade, mas queria “comemorar” a data do acordo.

Depois de um longo silêncio, eu disse:

— “Tá. Oito horas hoje à noite. Me encontra no píer.”

Não porque eu ainda tivesse esperança, mas porque eu queria encerrar de vez o capítulo desses cinco anos.

Eu estava no meu apartamento perto do porto, vestindo o mesmo vestido de quando conheci o Jackson, cinco anos atrás. Passei uma maquiagem leve, borrifei o perfume de que ele já tinha dito que gostava.

Depois me sentei perto da janela, observando as luzes do iate “St. Charles”.

Oito horas — o iate se acendeu com luzes coloridas. Nove horas — silhouettes se moviam no convés, e a música vinha flutuando até aqui. Dez horas — fogos explodiram sobre o rio. Onze horas — o iate deixou o cais, começando o cruzeiro noturno pelas águas.

Meia-noite — meu “aniversário”.

Meu celular ficou quieto. Nada de ligação, nada de mensagem, nada.

À uma da manhã, finalmente tocou.

— Cordelia, me desculpa... A Odette teve uma dor de estômago de repente, deve ser nervosismo por causa da cirurgia. Eu levei ela pro hospital. — A voz do Jackson estava apressada, mas, mais do que isso, culpada.

O som ao fundo estava cristalino: jazz ao vivo, gente comemorando, alguém gritando “Apaga as velas!”. Aí veio uma voz feminina familiar: “Jackson, vem cortar o bolo!”

— Eu adiei a festa no iate, a gente faz semana que vem. Ainda dá tempo, né? Assim que a Odette estiver estável, eu vou te ver. Me espera no seu apartamento, tá?

Eu não disse nada. Só fiquei ouvindo, do outro lado da linha, a festa que pertencia a outra mulher.

Três minutos depois de desligar, um número desconhecido me mandou uma foto.

Na foto, o Jackson estava de smoking, de pé diante de um bolo onde se lia: “Desejando uma cirurgia bem-sucedida ❤️”. A Odette se encostava nele, erguendo uma taça de champanhe com um sorriso radiante.

Legenda: “Ele disse pra eu relaxar antes da cirurgia de amanhã, então fez essa festa ❤️ Ele ainda escolheu o bolo~”

Olhando a foto, eu ri de repente. Não um riso amargo, e sim aquela leveza que vem com o alívio.

Eu me levantei, acendi as luzes, fui até o quarto. Arranquei o vestido “cheio de significado” e joguei no lixo. Despejei todo o perfume na pia. Troquei por um jeans simples e uma camiseta, puxei minha mala.

Cinco anos. Nove acordos de separação. Esperas incontáveis. Chega.

Três da manhã, terminal executivo do aeroporto de Nova Orleans.

Abri meus contatos e bloqueei o Jackson.

Sentada na sala de espera, eu via as luzes da pista brilhando lá fora. Seis horas até a decolagem.

Eu costumava achar que ir embora exigia uma briga enorme: coisas sendo arremessadas, ele de joelhos me implorando pra não ir. Agora eu sabia que o verdadeiro ir embora era silencioso. Apagar o número, fechar a porta, entrar no avião, nunca olhar pra trás.

Nove da manhã, eu estava na fila de embarque.

Meu celular vibrou — Elise.

Mas quem veio na linha foi a voz do Jackson:

— Cordelia! A cirurgia da Odette foi perfeita! Onde você está? Eu tô indo te buscar agora mesmo—”

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