Capítulo 2: Ele se lembra da alergia dela, mas não se lembra de que eu odeio cebolas

(Ponto de vista de Sophia)

Já era de noite quando cheguei em casa.

Emily estava sentada no sofá, o rosto carregado, assustadoramente furiosa.

O tablet na mesa de centro estava travado numa única imagem — Daniel carregando Ella para fora do hotel.

A foto estava cristalina; até a ansiedade no rosto dele dava para ver perfeitamente.

— Sophia, pra você isso é “resolver as coisas”? — Emily bateu o tablet na mesa, o olhar me cortando como uma faca. — Eu mandei você trazer ele de volta, não transformar isso em notícia! Que tipo de esposa você é? Nem uma coisa tão simples consegue dar conta?

Baixei os olhos, o coração cheio de amargura.

O que eu podia fazer? Devia contar que o filho precioso dela me expulsou por causa da mulher que ama?

Pra quê? No coração da Emily, o filho sempre iria importar mais do que eu — a nora que surgiu do nada.

— Desculpa, mãe. Eu não soube lidar — falei baixo.

Emily soltou um riso frio pelo nariz.

— Se a Avery não tivesse insistido pra você se casar com o Daniel, eu nunca teria concordado! Dá um jeito de limpar essa bagunça sozinha e não arraste a reputação da família Cooper pela lama!

Dito isso, ela pegou a bolsa e foi embora sem olhar para trás.

Eu me larguei no sofá, me sentindo completamente esgotada.

Foi então que meu celular vibrou.

Uma mensagem do Daniel:

[Leva alguma comida pro hospital. Sem amendoim — a Ella é alérgica a amendoim.]

Ao ver aquela mensagem, senti como se alguém apertasse meu coração com força; doía a ponto de quase sufocar.

Ele lembrava que a Ella era alérgica a amendoim. Mas nunca conseguia lembrar que eu não gosto de cebola.

Essa é a diferença entre amar e não amar alguém.

Pensei que faltavam menos de três meses para eu ir embora. Afinal, eu tinha prometido à Avery.

Conheci a Avery quando eu fazia trabalho voluntário num asilo.

Minha mãe estava muito doente na época e precisava de dinheiro para o tratamento. Eu trabalhava em três empregos por dia para conseguir pagar as despesas médicas dela.

Avery ficou com pena de me ver me matando daquele jeito. Achou que eu era uma boa pessoa, então pagou todas as despesas.

Eu fiquei tão comovida que chorei e disse que com certeza retribuiria.

Avery me analisou de cima a baixo por um instante e, de repente, perguntou:

— Você tem namorado?

Foi assim que eu conheci o Daniel oficialmente pela primeira vez.

Na verdade, eu e o Daniel estudamos na mesma escola.

Mas ele era brilhante demais para notar alguém como eu. Naquela época, ele era a estrela do colégio, cercado por garotas por onde passava.

Eu gostei dele desde o primeiro momento em que o vi, mas eu era só uma estudante pobre e comum, que nem ousava sonhar em ter qualquer ligação com ele.

Então, quando a Avery sugeriu que eu me casasse com ele, eu aceitei quase sem hesitar.

Depois de três anos dando tudo, sem limites, eu finalmente enxerguei com clareza — Daniel nunca teve lugar nenhum para mim no coração.

E eu também já não tinha as mesmas fantasias sobre ele que tinha quando era mais nova.

Assim que eu cumprisse o último desejo da Avery, eu sairia de cena e deixaria que ele ficasse com a Ella.

Preparei uma marmita e, quando eu estava chegando à porta do quarto do hospital, vi Ella aninhada nos braços do Daniel.

Ela estava meio deitada na cama, a mão envolta em bandagens grossas, olhando para ele com os olhos vermelhos.

— Daniel… minha mão vai conseguir segurar um pincel de novo?

— Não fala besteira. — Daniel fez carinho no cabelo dela com cuidado, a voz impossivelmente terna. — O médico disse que é só uma torção leve. Com alguns dias de descanso, você fica bem.

Eu só fiquei ali, parada na porta, petrificada, como se quem estivesse deitada na cama do hospital fosse a esposa do Daniel — e eu fosse a intrusa.

Daniel ergueu os olhos por acaso e me viu.

A ternura no rosto dele sumiu na hora, substituída pela frieza de sempre.

— Cadê a comida que eu mandei você trazer?

Empurrei a porta e coloquei a marmita na mesinha de cabeceira.

Daniel abriu e, na mesma hora, franziu a testa. “Sanduíches? Foi só isso que você preparou?”

“Tem repórter para todo lado lá fora. Se eles tirarem fotos, vai afetar o preço das ações do Grupo Cooper”, expliquei com calma.

“Não tem nada na sua cabeça além do dinheiro da família Cooper?” O tom dele vinha carregado de deboche. “Que mulher superficial!”

Mordi o lábio e perguntei baixinho: “Quer que eu vá comprar outra coisa?”

“Não precisa!” Daniel me cortou friamente, pegou um sanduíche e levou até a boca de Ella.

Ella, pálida e frágil, olhou para ele e disse, manhosa: “Daniel, minha mão está doendo. Me dá na boca.”

Daniel hesitou por um instante e então aproximou o sanduíche da boca dela.

Ella deu uma mordidinha com uma expressão de felicidade, mas, depois de mastigar duas vezes, de repente começou a tossir com violência.

“Cof, cof... tem... amendoim nisso...” Ela apertou o peito, ofegante, o rosto tomado de dor.

O rosto de Daniel escureceu imediatamente.

Ele se virou e começou a gritar comigo. “Eu deixei bem claro que a Ella é alérgica a amendoim, e mesmo assim você colocou manteiga de amendoim de propósito no sanduíche? Qual é o seu problema?”

“Eu não fiz isso!” Meu coração tremeu enquanto eu tentava me explicar. “Se você não acredita em mim, prova você!”

Daniel encarou o sanduíche; havia um lampejo de hesitação no olhar.

Nesse instante, Ella de repente apertou o peito e soltou um gemido sofrido. “Daniel... eu estou me sentindo péssima... não consigo respirar...”

A atenção de Daniel foi puxada de volta para ela na mesma hora.

Ao ver aquela cena, eu só conseguia achar tudo absurdo e ridículo.

Falei, gelada: “Para de fingir. Quem tem alergia não consegue falar tanto assim.”

“Cala a boca!” Daniel rosnou, sem nem olhar para trás. “Sai daqui!”

Eu vi aquele homem ansioso e cuidadoso com outra mulher, sem conseguir dizer uma palavra, e só pude me virar e sair em silêncio do quarto do hospital.

No momento em que fechei a porta, ouvi lá dentro a voz falsa de Ella: “Daniel, não seja tão duro com a Sophia. Ela parece chateada... você devia ir atrás dela. Eu estou bem.”

Em seguida veio o resmungo desdenhoso de Daniel. “Deixa. Que ela pense no que fez. Já já passa.”

Do lado de fora da porta, eu congelei por completo, as lágrimas escorrendo sem controle.

Por três anos, Daniel tinha se acostumado. Acostumado com o meu dar, com a minha paciência.

Então ele tinha certeza de que, por mais que me machucasse, eu nunca iria embora.

Caminhei até o elevador como num transe. Assim que saí pela entrada do hospital, um grupo de repórteres surgiu do nada e me cercou.

Os flashes das câmeras estouravam enlouquecidos no meu rosto, tão fortes que eu mal conseguia abrir os olhos.

“Sra. Cooper, há algum problema no seu casamento com o Sr. Cooper?”

“O Sr. Cooper estava num hotel tarde da noite com uma mulher. O que a senhora tem a dizer sobre isso?”

“A senhora e o Sr. Cooper vão se divorciar?”

Eu fiquei tão assustada com aquilo que dei um passo para trás, a mente em branco.

Mas, quando eu tentava desesperadamente abrir caminho no meio da multidão, um repórter enfiou de repente um celular na minha cara, com uma foto na tela—

Na foto, Daniel e Ella estavam sentados frente a frente num restaurante, a mão de Ella repousada sobre o dorso da mão de Daniel.

A foto tinha sido tirada hoje à tarde.

Pouco antes de eu ir ao hospital levar os sanduíches.

Então, enquanto ele me mandava levar comida ao hospital, estava levando Ella para um jantar romântico.

Minhas mãos começaram a tremer. Não de tristeza, e sim porque um pensamento ainda mais aterrorizante me ocorreu de repente—

Ele realmente acreditava que Ella era alérgica, ou simplesmente não se importava com a verdade?

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