Capitulo 2
Clara poderia ter desmentido Henrique no mesmo segundo. Poderia ter chamado Beatriz, mostrado a credencial guardada no aplicativo do evento, dito seu nome completo para qualquer seguranca com tablet. Mas havia algo antigo na cena, algo que ia alem do salao iluminado. Os Vasconcelos tinham acabado de repetir, diante de estranhos, o mesmo metodo que usavam na cozinha da casa: primeiro diminuíam, depois acusavam, por fim exigiam obediencia como se fosse reparo.
Ela decidiu ouvir ate onde iriam.
- Parente distante? - Clara perguntou.
Henrique deu de ombros.
- Estou sendo generoso.
Marcia suspirou, ja com os olhos umidos.
- Nao fala assim. A Clara foi criada com a gente. Deus sabe que tentamos dar tudo.
Roberto aproveitou a deixa.
- E por isso mesmo ela deveria ter mais cuidado antes de criar uma cena. Uma familia respeitavel nao lava problema em publico.
Clara olhou em volta. Alguns convidados fingiam nao escutar. Outros escutavam com uma atencao faminta. Em Sao Paulo, dinheiro antigo e dinheiro novo tinham a mesma fraqueza: adoravam um escandalo desde que pudessem chamar de preocupacao.
-
Que problema eu lavei? - ela perguntou.
-
Voce sabe - Roberto disse.
Henrique se aproximou, sorrindo sem mostrar os dentes.
- Pai, talvez ela nao saiba. Clara sempre foi ruim com numeros grandes.
Era mentira. Ela tinha organizado cada centavo que aquele homem usara para bancar a fantasia de genio financeiro.
Marcia tocou a mao de Clara. O gesto veio rapido, intimo, invasivo. Clara retirou a mao sem violencia.
- Filha, nao faz isso. A gente nao queria te expor, mas Henrique esta num momento delicado. Um investimento atrasou, uns socios agiram de ma-fe, e ele precisa reorganizar uma divida temporaria.
Pronto. Ali estava.
Nao tinham vindo apenas brilhar. Tinham vindo cacar dinheiro.
-
Divida temporaria - Clara repetiu.
-
Voce conhece gente de producao, artista, esse pessoal de documentario - Marcia continuou. - Talvez possa apresentar alguem. Ou falar com algum patrocinador. Nao e para voce pagar tudo. So ajudar a abrir uma porta.
Roberto endureceu a voz.
- E o minimo depois de tudo que fizemos por voce.
A frase fez Clara voltar aos dezessete anos.
Ela estava sentada diante de uma carta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com uma bolsa parcial para composicao. O papel tinha cheiro de impressora e futuro. Marcia chorava no sofa. Roberto dizia que Henrique precisava do curso preparatorio internacional, que aquilo mudaria o nome da familia, que Clara era talentosa e talentos sobreviviam, mas oportunidades como a dele nao voltavam. Henrique ficara no corredor, ouvindo tudo, sem uma unica palavra de culpa.
Naquela noite, Clara dobrara a carta e a guardara.
No dia seguinte, vendera o teclado.
Agora, no salao do Tangara, Roberto falava como se tivesse dado a ela uma vida quando, na verdade, tinha cobrado aluguel emocional por cada migalha.
- O que voces fizeram por mim? - Clara perguntou.
Marcia pareceu ofendida de verdade.
-
Como assim?
-
Quero ouvir. O que voces fizeram?
Roberto olhou para os lados, incomodado com o volume baixo e claro da pergunta.
-
Te demos casa, comida, escola.
-
Ate eu completar dezoito anos. A obrigacao legal minima de qualquer familia adotiva.
-
Obrigacao? - Marcia levou a mao a boca. - E assim que voce chama amor?
-
Amor nao exige recibo depois.
Henrique riu.
- Olha so. Aprendeu palavra bonita em podcast.
Clara virou o rosto para ele.
- Aprendi com contrato, boleto e banco.
O sorriso dele vacilou.
Roberto percebeu o risco e mudou a estrategia.
- Ninguem esta te cobrando nada impossivel. Henrique precisa de duzentos mil reais ate segunda-feira para segurar uma operacao. Voce vive nesse meio de fundacao, filme, artista. Conhece pessoas. Pode conseguir.
Nao era um pedido. Era a antiga ordem com perfume caro.
- E se eu nao quiser?
Marcia deixou uma lagrima cair. Uma so. Perfeita.
- Entao vou saber que perdi minha filha de vez.
Clara sentiu uma dor pequena, nao por perder Marcia, mas pela menina que um dia teria feito qualquer coisa para impedir aquela frase. A menina teria prometido trabalhar mais. Teria pedido desculpas por existir com limite. Teria feito uma transferencia antes de dormir.
A mulher diante deles apenas respirou.
- Voce me perdeu quando me transformou em ponte para o Henrique atravessar.
Um homem de cabelo grisalho, na mesa ao lado, cochichou com a esposa. Henrique viu o movimento e ficou vermelho.
-
Chega. Voce nao vai arruinar minha noite.
-
Sua noite?
-
Sim. Minha. Tenho investidores aqui.
-
Entao fale com eles sobre a sua divida temporaria.
Henrique apertou o maxilar.
Roberto entrou no meio, baixo e venenoso.
- Escuta bem, Clara. Voce pode brincar de independente, mas seu sobrenome ainda esta ligado ao nosso. Se voce se comportar como ingrata aqui, todo mundo vai saber que tipo de pessoa voce e.
Ela quase riu. Nao de humor. De cansaco.
-
Meu sobrenome e Azevedo.
-
Foi o nome que demos.
-
Foi o nome que voces usaram para assinar minha adocao. Nao e propriedade.
Marcia fungou.
- Olha a frieza. Henrique, voce esta vendo? Eu sempre disse que ela tinha um coracao duro.
Clara abriu a bolsa. Desta vez, pegou uma pasta fina, dobrada com cuidado. Nao era para aquela noite, mas ela a carregava em eventos grandes desde que Roberto a procurara por mensagem seis meses antes pedindo uma conversa de familia.
Luana dizia que Clara parecia exagerada. Rafael dizia que precaucao era apenas memoria aprendendo a usar sapato.
Ela desdobrou as folhas.
- Ja que voces gostam de falar em familia, vamos falar do que existe no papel.
Roberto franziu a testa.
-
O que e isso?
-
Escritura publica de declaracao de independencia financeira, assinada em cartorio. Notificacao extrajudicial registrada. Parecer da minha advogada. Tudo enviado a voces cinco anos atras.
Marcia ficou palida.
Henrique tentou pegar a folha. Clara afastou.
- Este documento reconhece que, desde a minha maioridade, nao existe obrigacao minha de sustentar qualquer membro da familia Vasconcelos. Tambem registra que qualquer tentativa de me pressionar por dinheiro, usando adocao ou exposicao publica, pode ser tratada como assedio, constrangimento e tentativa de extorsao.
A palavra extorsao chegou aos ouvidos proximos com a delicadeza de um prato quebrando.
Roberto perdeu a cor por um segundo, mas recuperou a autoridade com raiva.
-
Voce trouxe documento contra a propria familia?
-
Eu trouxe documento contra quem usa a palavra familia para cobrar silencio.
Marcia deixou de chorar.
-
Voce sempre foi ingrata.
-
Nao. Eu fui treinada para confundir gratidao com servidao.
Henrique olhou para a pasta, depois para os convidados.
- Isso nao prova nada. Qualquer um imprime papel. Voce acha que vai me intimidar com juridiquês?
Clara inclinou a cabeca.
-
Nao preciso intimidar voce.
-
Claro que precisa. Porque, no fundo, voce sabe que nao e ninguem aqui. Ninguem.
As luzes do salao piscaram, anunciando o inicio da primeira apresentacao. Beatriz subiu ao palco com um microfone. A voz dela ainda nao saiu nas caixas porque o tecnico ajustava o som.
Henrique viu a chance de recuperar controle antes que a programacao comecasse.
Ele ergueu a voz.
- Seguranca.
Clara fechou a pasta.
Um homem de terno preto, com cracha do evento, aproximou-se. Henrique apontou para ela como se apontasse para uma mala esquecida.
- Esta senhora esta causando constrangimento aos convidados. Acho melhor confirmar se ela realmente tem autorizacao para estar aqui.
O seguranca virou-se para Clara.
E Marcia, com a voz doce de sempre, completou:
- Por favor, seja discreto. Ela ja sofreu muito. Nao queremos humilha-la mais.
Clara olhou para os tres. Pela primeira vez, eles tinham conseguido o que queriam: uma autoridade externa diante dela, pronta para perguntar se ela pertencia.
Ela abriu a bolsa de novo.
Mas antes que pudesse mostrar a credencial, Beatriz falou ao microfone.
- Senhoras e senhores, pedimos que tomem seus lugares. Em alguns minutos, a Fundacao Novo Amanhecer fara o anuncio mais importante desde a sua criacao.
Henrique sorriu, achando que o palco salvaria sua imagem.
Clara guardou a credencial.
Ainda nao.
