Capitulo 3

O seguranca esperou Clara responder. Ele parecia jovem demais para entender a violencia elegante que acontecia diante dele, mas experiente o bastante para saber que gente rica transformava qualquer erro de procedimento em ameaca de processo.

  • Senhora, posso ver seu convite? - perguntou.

Antes que Clara abrisse a bolsa, Henrique interferiu.

  • Convite pode ser foto encaminhada. Verifique na lista. Nome completo: Clara Azevedo. Talvez tenham colocado como acompanhante de alguem.

O tom dele dizia amante, oportunista, penetra. Nao precisava dizer em voz alta. O salao sabia completar crueldades.

Clara encarou o seguranca.

  • Voce pode chamar Beatriz Lima.

Henrique soltou uma risada.

  • Claro. Agora ela conhece a organizadora.

Marcia se aproximou do funcionario, falando baixo, mas nao o bastante.

  • Ela sempre teve crises de fantasia. Quando era adolescente, dizia que seria compositora famosa. Depois inventou contatos no cinema. Nao queremos confusao.

Clara sentiu o golpe, porque aquele era o veneno mais antigo. Nao bastava dizer que ela nao tinha dinheiro. Era preciso dizer que ela nao tinha realidade. Que qualquer sonho seu era delirio.

  • Marcia - disse Clara -, cuidado com o proximo passo.

Roberto riu pelo nariz.

  • Ameacas agora?

  • Aviso.

  • Voce nao tem posicao para avisar ninguem.

O seguranca tocou o radio preso ao ouvido.

  • Base, preciso confirmar uma convidada. Nome Clara Azevedo.

Houve chiado. Clara podia ter encerrado tudo ali. Bastava dizer que seu nome constava na lista de organizadores, nao na de convidados comuns. Mas o palco ainda nao estava pronto. A sequencia importava. Se ela se defendesse antes da acusacao amadurecer, eles se diriam confundidos. Se a verdade chegasse depois do abuso publico, cada palavra deles ficaria presa na memoria da sala.

Essa era a diferenca entre vinganca e limite: ela nao queria inventar uma queda. Queria apenas parar de amortecer a deles.

Henrique percebeu que ela nao reagia e avancou.

  • Sabe qual e o problema da Clara? Ela sempre odiou quando alguem na familia conquistava algo. Quando eu fui para os Estados Unidos, ela fez um drama. Quando abri minha consultoria, sumiu. Agora que estou aqui, conversando com gente seria, aparece desse jeito.

  • De que jeito? - Clara perguntou.

  • Sozinha, sem convite visivel, rondando mesa de doadores.

  • Eu estava perto de uma coluna.

  • Porque estava esperando uma chance.

Marcia suspirou para a plateia improvisada.

  • Ela nao e ma. So ficou amarga. Algumas pessoas nao superam nao terem dado certo.

Clara olhou para a mulher que um dia chamara de mae. Lembrou-se de Marcia pegando seu envelope de pagamento na cozinha e dizendo que guardaria para as despesas da casa. Lembrou-se de procurar o dinheiro dois dias depois e descobrir que Henrique precisava de um notebook novo. Lembrou-se de chorar no banheiro com a torneira aberta, nao porque perdera dinheiro, mas porque ainda acreditava que, se fosse boa o bastante, alguem pediria desculpas.

Ninguem pediu.

  • Voce tem razao sobre uma coisa - Clara disse. - Algumas pessoas nao superam.

Marcia ergueu o queixo, satisfeita.

  • Que bom que reconhece.

  • Voces nunca superaram a possibilidade de eu deixar de pagar.

O rosto de Marcia fechou.

Henrique se inclinou para ela, a voz baixa.

  • Se voce falar mais uma palavra sobre dinheiro, eu acabo com qualquer chance que voce tenha neste meio.

  • Que meio?

  • Gente rica fala entre si, Clara.

  • Fala mesmo.

A resposta dele foi interrompida pelo retorno do radio do seguranca.

  • Nome nao localizado na lista de convidados gerais - disse uma voz metalica.

Henrique abriu os bracos.

  • Pronto.

O seguranca ficou desconfortavel.

  • Senhora, se puder me acompanhar ate a recepcao...

Clara manteve a calma.

  • Peca para verificar a lista institucional.

  • Nao existe isso para convidado - Henrique cortou.

  • Existe para organizacao.

A palavra pareceu irrita-lo mais do que uma ofensa.

  • Organizacao? Voce? Clara, chega. Voce esta se expondo.

Roberto viu alguns celulares discretamente levantados. A oportunidade de controlar a narrativa o acendeu.

  • Meus amigos, desculpem o constrangimento. Esta mulher foi criada na nossa casa. Recebeu tudo que uma filha poderia receber. Infelizmente, escolheu se afastar e agora retorna com acusacoes e documentos absurdos. Peço que nao julguem nossa familia por esta cena.

Marcia colocou a mao no peito dele.

  • Roberto, por favor...

  • Nao, Marcia. Chega. Amor tambem tem limite.

Clara ouviu aquela frase e sentiu uma porta interna se fechar. Amor tambem tem limite. Era incrivel como eles conseguiam roubar ate a linguagem da vitima.

Ela deu um passo para a frente.

  • Tem, sim. O meu chegou quando voces me ligaram onze vezes numa noite porque Henrique precisava pagar aluguel em dolar. Chegou quando Roberto disse que minha bolsa de estudos era egoismo. Chegou quando Marcia me chamou de filha enquanto usava minha conta para esconder vergonha do filho preferido.

Um murmurio atravessou o grupo.

Henrique ficou rubro.

  • Mentira.

  • Voce quer que eu mostre as transferencias?

Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu rapido.

Marcia se recuperou primeiro.

  • Transferencias? Ajudas espontaneas, talvez. Ninguem obrigou voce.

Clara quase admirou a coragem.

  • Ninguem obriga quando ensina uma crianca a acreditar que sera abandonada se disser nao.

O seguranca olhou para Roberto, depois para Clara. Ja nao parecia tao certo.

Henrique percebeu e decidiu aumentar o incendio.

  • Se ela tem tanta prova, por que nao mostra? Porque e tudo encenacao. Ela veio aqui atras de atencao. Talvez tenha descoberto que a Fundacao Novo Amanhecer vai anunciar um grande nome hoje e quis se aproximar.

A ironia era tao perfeita que Clara quase sentiu pena do futuro dele.

  • Talvez - ela disse.

  • Esta ouvindo? Ela admite.

Roberto apontou para o seguranca.

  • Tire-a daqui antes que prejudique o evento.

O funcionario respirou fundo.

  • Senhora, por favor.

Clara nao se moveu.

As luzes do palco baixaram de vez. A musica instrumental que ela mesma compusera para a fundacao começou a tocar, suave no inicio, crescendo em cordas e piano. Clara viu Henrique franzir a testa, incomodado com uma melodia que nao reconhecia, embora tivesse zombado dela por anos.

Beatriz Lima apareceu sob o foco principal.

  • Boa noite. Em nome da Fundacao Novo Amanhecer, obrigada por estarem aqui. Esta noite existe por causa de medicos, familias, doadores e pessoas que escolheram agir antes de serem aplaudidas.

O salao silenciou. Mesmo o grupo ao redor de Clara se virou para o palco, embora Henrique ainda mantivesse um olho nela, como se temesse que fugisse antes de ser expulsa.

Beatriz continuou:

  • Durante anos, nossa fundacao preservou o anonimato de alguns fundadores. Foi uma decisao respeitada por todos nos. Mas o crescimento dos projetos, a abertura de novas alas pediatricas e a expansao para hospitais publicos exigem que certas historias sejam contadas.

Clara sentiu o coracao bater mais forte.

Marcia cochichou:

  • Esta vendo? Gente de verdade. Aprenda.

Clara nao respondeu.

Na tela, apareceram imagens de criancas em recuperacao. Depois, a fachada do Hospital Santa Isabel. O rosto do Dr. Samuel Nogueira surgiu em video.

  • Ha pessoas que doam dinheiro - disse ele na gravacao. - E ha pessoas que doam destino. Hoje, o Brasil precisa conhecer uma mulher que transformou direitos autorais, investimento privado e trabalho artistico em leitos, cirurgias e esperanca.

Henrique riu baixo.

  • Mulher rica adora parecer santa.

Beatriz sorriu para o publico.

  • Senhoras e senhores, em instantes vamos revelar uma das fundadoras anonimas da Fundacao Novo Amanhecer.

O tecnico de luz moveu um refletor.

Roberto ainda segurava o braco do seguranca.

Beatriz abriu o envelope.

  • Antes, peço que todos olhem para a pessoa que, por anos, pediu para que cada aplauso fosse dirigido aos hospitais, nao a ela.

O refletor deslizou pelas mesas centrais.

Henrique ajeitou o paleto, como se esperasse que a luz encontrasse algum investidor ao seu lado.

Entao o circulo branco atravessou o salao, passou por Roberto, por Marcia, por Henrique, e parou em Clara.

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