Capítulo 1 Capítulo 1
CAPÍTULO 1
A NOITE EM QUE TUDO MUDOU
Eu sempre acreditei que coisas ruins aconteciam com outras pessoas.
Era uma crença idiota, eu sabia.
Mas, durante vinte e cinco anos, funcionou perfeitamente.
Eu acordava cedo, trabalhava, reclamava do preço das coisas, chegava em casa cansada e dormia pensando no que faria no dia seguinte. Minha maior preocupação naquela semana tinha sido descobrir como pagaria o conserto da máquina de lavar sem precisar parcelar em seis vezes.
Eu não tinha inimigos.
Não conhecia criminosos.
Não frequentava lugares perigosos.
E certamente nunca tinha imaginado que, em uma noite chuvosa de quinta-feira, acabaria correndo pelas ruas com a certeza de que alguém queria me matar.
Tudo começou por causa de uma chave.
Uma maldita chave que eu deveria ter deixado sobre o balcão.
— Stella, você vai fechar?
A voz de Marina veio da cozinha.
Olhei para o relógio preso atrás do balcão.
23h47.
— Já estou terminando!
Peguei a última bandeja vazia da noite e a levei para a cozinha.
O restaurante estava praticamente vazio. Restavam apenas duas mesas ocupadas na área da frente, alguns copos espalhados e o cheiro persistente de café, fritura e chuva entrando toda vez que alguém abria a porta.
Eu trabalhava naquele lugar havia quase dois anos.
Não era exatamente o emprego dos meus sonhos, mas pagava as contas.
E eu tinha aprendido a gostar das pessoas.
Marina era a gerente. Tinha quarenta anos, três filhos e a habilidade sobrenatural de perceber quando alguém estava prestes a cometer uma estupidez.
Naquela noite, porém, ela estava preocupada demais com o horário para notar a minha.
— Você vai direto para casa? — perguntou.
— Sim.
— Não passa naquele mercadinho da esquina.
Parei.
— Por quê?
Ela apontou para a janela.
— Essa chuva está ficando horrível. Vai direto.
Olhei para fora.
A água caía com força sobre a calçada, transformando as luzes dos carros em manchas coloridas no asfalto.
— Tudo bem.
Ela pegou a bolsa.
— E não esquece de trancar a porta dos fundos.
— Pode deixar.
Foi exatamente aí que eu deveria ter prestado atenção.
Porque, naquela noite, eu esqueci.
Ou melhor...
Eu achei que tinha esquecido.
Depois de terminar meu turno, coloquei a jaqueta, peguei minha bolsa e saí pela porta da frente.
A chuva tinha diminuído um pouco.
Respirei fundo.
O ar estava frio.
Meu apartamento ficava a quinze minutos dali. Eu poderia ter chamado um carro, mas o aplicativo mostrava uma tarifa absurda por causa da chuva.
Então comecei a caminhar.
Foi quando percebi que tinha esquecido meu celular.
Parei no meio da calçada.
— Droga.
Revirei os olhos.
Meu celular estava carregando atrás do balcão.
Voltei.
Não queria chegar em casa sem ele.
Empurrei a porta do restaurante e encontrei tudo escuro.
Marina já tinha ido embora.
Acendi apenas a luz do corredor e caminhei até o balcão.
Meu celular estava exatamente onde eu havia deixado.
Peguei o aparelho.
A tela acendeu.
Duas mensagens.
Uma da minha mãe.
Outra do banco.
Nada importante.
Coloquei o telefone na bolsa e me virei.
Então ouvi um barulho.
Parei.
Era um som abafado.
Como uma porta fechando.
Olhei em direção à cozinha.
— Marina?
Nenhuma resposta.
Talvez ela tivesse esquecido alguma coisa.
Caminhei até lá.
— Marina?
Silêncio.
A cozinha estava vazia.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Provavelmente era apenas algum funcionário que havia voltado.
Então ouvi vozes.
Vozes masculinas.
Vindas dos fundos.
Franzi a testa.
A porta dos fundos estava fechada.
Eu deveria ter ido embora.
Em vez disso, aproximei-me.
Havia uma pequena janela na parede que dava para o estacionamento atrás do restaurante.
A cortina estava parcialmente aberta.
Parei antes de chegar perto.
Não sei por quê.
Talvez algum instinto tenha me impedido.
Inclinei apenas um pouco a cabeça.
E olhei.
Havia três carros pretos estacionados no estacionamento.
Carros grandes.
Luxuosos.
Com os motores ligados.
Havia homens ao redor deles.
Todos vestidos de preto.
Meu estômago se contraiu.
Não eram clientes.
Definitivamente não eram funcionários.
Um homem estava parado diante do porta-malas aberto de um dos carros.
Outro segurava alguém pelo braço.
Demorei alguns segundos para perceber que havia uma pessoa ajoelhada no chão.
Um homem.
Ele estava machucado.
Havia sangue em sua camisa.
Meu primeiro pensamento foi chamar a polícia.
Meu segundo foi que talvez aquilo fosse uma briga.
Meu terceiro pensamento desapareceu quando ouvi uma voz.
Calma.
Fria.
Completamente diferente das outras.
— Você teve uma oportunidade.
O homem que falou estava alguns metros à frente.
Eu não conseguia ver seu rosto direito.
Ele estava de costas para mim.
Alto.
Vestido com um sobretudo preto.
As mãos nos bolsos.
Mesmo à distância, havia alguma coisa nele que fazia os outros homens parecerem subordinados.
O homem ajoelhado levantou a cabeça.
— Roman...
Meu sangue gelou.
Roman.
Eu não sabia quem era.
Mas o modo como aquele homem pronunciou o nome me fez entender que não estava falando com alguém comum.
— Eu posso explicar.
Roman ficou em silêncio.
— Eu não queria trair você.
— Não?
A voz dele continuava tranquila.
Quase educada.
— Então explique.
O homem começou a falar rapidamente.
Não consegui entender tudo.
Palavras como dinheiro, documentos, família e polícia chegaram até mim de forma fragmentada.
Eu deveria sair.
Eu sabia disso.
Mas meus pés não se moveram.
Roman se aproximou do homem ajoelhado.
Agora consegui ver um pouco melhor seu perfil.
Cabelos escuros.
Mandíbula marcada.
Um rosto sério.
Ele parecia ter pouco mais de trinta anos.
E não parecia nervoso.
Era isso que me assustava.
O homem diante dele tremia.
Roman não.
— Você vendeu informações da minha família — disse ele.
— Eu fui pressionado.
— Todos são pressionados.
Roman tirou uma das mãos do bolso.
Por um instante, pensei que fosse pegar o celular.
Então vi a arma.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Não consegui respirar.
A arma estava na mão dele.
O homem ajoelhado começou a implorar.
— Por favor.
Roman olhou para ele.
— Você sabe o que acontece com quem trai a minha confiança.
Eu recuei.
Um passo.
Depois outro.
Meu cotovelo bateu em alguma coisa.
Um copo caiu.
O som explodiu no silêncio da cozinha.
Meu coração parou.
Do lado de fora, todos ficaram imóveis.
Eu também.
Por um segundo, ninguém se mexeu.
Então um dos homens virou a cabeça na direção da janela.
Eu me abaixei.
Tarde demais.
— Tem alguém aí.
Minha respiração desapareceu.
Ouvi passos.
— O quê?
— Dentro do restaurante.
Meu cérebro finalmente voltou a funcionar.
Corri.
Não pensei.
Não peguei minha bolsa.
Não peguei meu celular.
Apenas corri.
Atravessei a cozinha e empurrei a porta da frente com tanta força que ela bateu contra a parede.
A chuva atingiu meu rosto.
Eu escorreguei na calçada, quase caí e continuei.
— Peguem ela!
A voz veio de trás.
Corri mais rápido.
Não sabia para onde estava indo.
Não sabia quem eram aquelas pessoas.
Só sabia que precisava desaparecer.
Virei a esquina.
Meus sapatos molhados escorregavam no asfalto.
Ouvi passos atrás de mim.
Meu peito queimava.
Olhei por cima do ombro.
Dois homens saíram do restaurante.
Eles estavam vindo atrás de mim.
— Pare!
Claro que eu não parei.
Corri como nunca tinha corrido na vida.
Atravessei a rua sem olhar.
Um carro buzinou.
Ouvi o motorista gritar.
Não parei.
Passei por uma viela estreita entre dois prédios.
Talvez conseguisse despistá-los.
Meu cabelo grudava no rosto.
A chuva encharcava minha roupa.
Minha bolsa tinha ficado no restaurante.
Meu celular também.
Eu estava sozinha.
Sem dinheiro.
Sem documentos.
Sem sequer saber para onde ir.
Mas continuar correndo era melhor do que parar.
Ouvi os homens entrando na viela.
— Ela foi por aqui!
Fechei os olhos por um segundo.
Meu coração parecia querer escapar do peito.
Continuei.
Havia uma pequena escadaria à minha direita.
Subi.
Cheguei a uma rua paralela.
Olhei para os dois lados.
Vazia.
Corri novamente.
Minhas pernas começaram a doer.
Eu precisava chegar a algum lugar movimentado.
Uma delegacia.
Um hospital.
Qualquer coisa.
Mas aquela parte da cidade estava praticamente deserta por causa da chuva.
Então ouvi um carro.
Olhei para trás.
Um dos carros pretos apareceu na esquina.
Meu sangue gelou.
Eles tinham me encontrado.
Corri para a primeira porta que vi.
Era uma pequena lavanderia fechada.
Tentei a maçaneta.
Trancada.
Continuei.
Mais adiante havia uma passagem entre dois prédios.
Entrei.
Era estreita e escura.
Pensei que talvez houvesse uma saída do outro lado.
Havia.
Mas quando cheguei ao fim, encontrei um muro alto.
— Não...
Olhei para trás.
As vozes estavam se aproximando.
Eu estava presa.
Meu peito subia e descia violentamente.
Procurei alguma coisa ao redor.
Uma saída.
Uma porta.
Qualquer coisa.
Nada.
Então vi uma pequena porta de metal.
Corri até ela.
Girei a maçaneta.
Abriu.
Entrei.
Era um depósito abandonado.
Fechei a porta devagar.
Segurei a respiração.
Passos passaram do lado de fora.
— Ela entrou aqui.
Meu corpo inteiro tremia.
Coloquei a mão sobre a boca.
Os passos ficaram mais próximos.
— Procurem.
Uma porta bateu.
Depois outra.
Eu me encolhi atrás de algumas caixas velhas.
Não sabia quanto tempo conseguiria ficar ali.
Talvez minutos.
Talvez segundos.
Então ouvi uma voz diferente.
A mesma voz que tinha escutado no estacionamento.
Roman.
— Saiam.
Os homens pararam.
— Mas, senhor...
— Eu disse para saírem.
Silêncio.
Os passos começaram a se afastar.
Meu coração continuava disparado.
Talvez ele tivesse desistido.
Talvez eu tivesse uma chance.
Então ouvi os passos dele.
Um.
Dois.
Três.
Aproximando-se.
Ele entrou no depósito.
Eu não conseguia vê-lo completamente de onde estava.
Apenas as botas pretas paradas a poucos metros.
— Ei.
Meu sangue congelou.
Ele não sabia meu nome.
Eu não sabia como ele me encontrara.
Talvez tivesse encontrado minha bolsa.
Talvez alguém tivesse perguntado no restaurante.
Talvez já soubessem quem eu era.
A mão dele tocou uma das caixas.
— Eu sei que você está aqui.
Fechei os olhos.
Não respirei.
Roman ficou em silêncio.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então ele disse:
— Você viu algo que nunca deveria ter visto.
Minha garganta apertou.
— Mas se eu quisesse matá-la, você já estaria morta.
Meus olhos se abriram.
Ele sabia que eu estava ouvindo.
— Então vou lhe dar uma oportunidade.
A porta atrás dele continuava aberta.
Havia uma pequena janela no alto da parede.
Eu olhei para ela.
Talvez conseguisse chegar até lá.
Roman deu mais um passo.
— Saia devagar.
Eu não obedeci.
Ele esperou.
— Ei.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.
Então ele se virou ligeiramente.
Foi quando percebi que ele estava olhando diretamente para mim.
Nossos olhos se encontraram.
Eu congelei.
Os olhos dele eram escuros.
Implacáveis.
E, por um segundo, nenhum dos dois se moveu.
Roman me encontrou.
Eu sabia.
Ele sabia.
E naquele instante compreendi que minha vida nunca mais seria a mesma.
Meu corpo se moveu antes que minha mente pudesse pensar.
Levantei-me de repente, empurrei as caixas para o lado e corri na direção da porta.
— Ei!
Não parei.
Passei por ele.
Senti sua mão tentando alcançar meu braço, mas consegui escapar.
Corri para fora do depósito.
A chuva voltou a atingir meu rosto.
Ouvi Roman gritar alguma coisa atrás de mim.
Não me importei.
Corri pela rua.
Corri sem saber para onde.
Corri como se minha vida dependesse disso.
Porque, pela primeira vez, ela realmente dependia.
E eu só tinha uma certeza:
eu precisava fugir daquele homem antes que ele conseguisse me alcançar.
