Capítulo 2 Capítulo 2

CAPÍTULO 2

NÃO TENHO PARA ONDE IR

Eu não parei de correr.

Nem quando meus pulmões começaram a queimar.

Nem quando minhas pernas ficaram pesadas.

Nem quando a chuva deixou de ser apenas uma cortina gelada sobre o meu rosto e passou a escorrer pela minha nuca, pelas costas, entrando por dentro da roupa.

Eu simplesmente corri.

A cada esquina, olhava para trás.

Nada.

Nenhum dos homens.

Nenhum carro preto.

Nenhuma silhueta.

Mesmo assim, eu não confiava naquela ausência.

Eles poderiam estar atrás de mim.

Poderiam estar me observando.

Poderiam estar esperando que eu cometesse o erro de voltar para casa.

Mas eu não tinha para onde ir.

Essa era a pior parte.

Eu não tinha dinheiro suficiente para desaparecer.

Não tinha amigos íntimos espalhados pela cidade.

Não tinha parentes próximos que eu pudesse procurar no meio da madrugada.

E, principalmente, não tinha sequer o meu celular.

Ele estava dentro da minha bolsa.

A bolsa que eu havia deixado no restaurante.

Parei finalmente em uma rua mais afastada, apoiando as mãos nos joelhos.

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas.

Três.

Nada.

Nenhum carro.

Nenhum passo.

Nenhuma voz.

Levantei a cabeça.

Eu conhecia aquela rua.

Ficava a poucas quadras do meu prédio.

Meu coração afundou.

Eu deveria continuar correndo.

Era o mais lógico.

Se aquelas pessoas sabiam onde eu trabalhava, talvez também soubessem onde eu morava.

Mas como?

Eu não tinha dito meu nome.

Não tinha conversado com ninguém.

Não tinha dado qualquer informação.

Talvez eles nem soubessem quem eu era.

Talvez eu estivesse imaginando coisas.

Talvez aquele homem sequer soubesse que eu existia.

Aquela ideia me agarrou como uma última esperança.

Roman havia me visto.

Sim.

Mas ele não sabia meu nome.

Não sabia onde eu morava.

Não sabia nada sobre mim.

Eu era apenas uma testemunha.

Uma mulher que havia visto algo por acaso.

Se eu desaparecesse por algumas horas, talvez tudo acabasse.

Talvez eles desistissem.

Talvez nem estivessem procurando por mim naquele momento.

Talvez eu tivesse conseguido escapar.

Eu precisava acreditar nisso.

Comecei a caminhar.

Dessa vez, mais devagar.

Meu prédio surgiu alguns minutos depois.

Era um edifício antigo de quatro andares, com uma fachada que precisava urgentemente de pintura.

Nunca havia gostado muito daquele lugar.

Mas naquela noite, vê-lo me trouxe um alívio quase doloroso.

Entrei rapidamente.

O hall estava vazio.

O porteiro não estava na cabine.

Subi as escadas.

Primeiro andar.

Segundo.

Terceiro.

Parei diante da minha porta.

Meu coração voltou a acelerar.

Fiquei alguns segundos olhando para a fechadura.

E se alguém estivesse lá dentro?

Ridículo.

Como alguém poderia estar lá?

Eu tinha a chave.

Ninguém sabia onde eu morava.

Pelo menos era o que eu pensava.

Coloquei a chave na fechadura.

Girei.

A porta abriu.

Escuro.

Entrei.

Acendi a luz.

Tudo parecia exatamente como eu havia deixado.

O sofá.

A pequena mesa.

A televisão.

Os livros empilhados no canto.

Minha caneca sobre a pia.

Nada estava fora do lugar.

Fechei a porta atrás de mim.

Tranquei.

Depois tranquei novamente.

E, por algum motivo, empurrei a cômoda pequena contra a porta.

Fiquei olhando para ela.

Eu estava enlouquecendo.

Aquilo não fazia sentido.

Eu tinha acabado de passar por uma experiência traumática.

Era normal estar assustada.

Normal imaginar perigos.

Normal sentir que alguém estava atrás de mim.

Peguei uma toalha no banheiro e sequei o rosto.

Então percebi que minhas mãos tremiam.

Muito.

Olhei para o espelho.

Meu cabelo estava completamente molhado.

Meu rosto pálido.

Os olhos arregalados.

Eu parecia outra pessoa.

— Você está segura — sussurrei para mim mesma.

Minha própria voz pareceu estranha.

— Está tudo bem.

Não estava.

Mas precisava estar.

Troquei de roupa.

Coloquei um pijama velho e fui até a cozinha.

Abri a geladeira.

Não consegui comer.

Fechei.

Fui até o quarto.

Olhei para a cama.

Eu deveria dormir.

Talvez, quando acordasse, tudo aquilo parecesse menos assustador.

Deitei.

Puxei o cobertor até o pescoço.

Fechei os olhos.

E imediatamente vi o homem ajoelhado.

Vi a arma.

Vi Roman.

Abri os olhos.

— Droga.

Virei para o outro lado.

Tentei pensar em qualquer outra coisa.

Contas.

Trabalho.

Marina.

Minha mãe.

O aluguel.

Qualquer coisa.

Mas minha mente continuava voltando para aquela cena.

Para o modo como Roman havia segurado a arma.

Para o homem implorando.

Para a tranquilidade assustadora na voz dele.

E para aqueles olhos encontrando os meus.

Levantei-me.

Eu não conseguiria dormir.

Fui até a sala e sentei no sofá.

O relógio marcava 1h38.

Peguei o controle da televisão.

Liguei.

Deixei qualquer programa passando.

O volume baixo.

Eu precisava de algum ruído.

Alguma coisa que me lembrasse que o mundo continuava normal.

Depois de alguns minutos, meu corpo começou a relaxar.

Talvez realmente tivesse acabado.

Talvez ninguém viesse atrás de mim.

Talvez Roman sequer soubesse quem eu era.

Essa última possibilidade me deu coragem.

Eu poderia ficar ali.

Não precisava fugir.

Não precisava abandonar tudo.

Eu não tinha dinheiro.

Não tinha para onde ir.

E, mesmo que tivesse, para onde eu fugiria?

Outra cidade?

Outro estado?

Eu mal conseguia pagar minhas contas.

Eu não podia simplesmente desaparecer.

Talvez fosse melhor continuar vivendo normalmente.

No dia seguinte, eu poderia ir à polícia.

Contar o que havia visto.

Ou talvez não.

A ideia de procurar a polícia me fez estremecer.

E se aqueles homens tivessem policiais trabalhando para eles?

Eu não sabia absolutamente nada sobre aquele mundo.

Isso era o que mais me assustava.

Eu não sabia o tamanho do perigo.

Não sabia o poder que Roman tinha.

Não sabia quem ele era.

Só sabia que os homens obedeciam a ele.

E isso deveria ser suficiente.

Levantei-me novamente.

Dessa vez, fui até o quarto.

Abri o guarda-roupa.

Comecei a pegar roupas.

Uma blusa.

Duas calças.

Roupa íntima.

Um casaco.

Coloquei tudo dentro de uma mala.

Minha respiração acelerou.

Talvez eu devesse ir embora.

Não para sempre.

Apenas por alguns dias.

Eu poderia pegar um ônibus pela manhã.

Ir para uma cidade vizinha.

Ficar em algum hotel barato.

Depois decidir o que fazer.

Comecei a colocar meus documentos dentro da bolsa.

Peguei alguns objetos pessoais.

Escova de dentes.

Carregador.

Um pouco de dinheiro que guardava dentro de uma caixa.

Contava as notas quando parei.

Pouco.

Muito pouco.

Olhei para a mala aberta.

Minha mão caiu ao lado do corpo.

Eu não tinha para onde ir.

A realidade voltou de uma vez.

Minha mãe morava longe.

Eu poderia ligar para ela.

Mas o que diria?

“Oi, mãe. Preciso ficar alguns dias com você porque testemunhei um assassinato cometido por um homem que talvez queira me matar.”

Ela entraria em pânico.

E eu nem sabia se ele realmente queria me matar.

Talvez tudo aquilo fosse paranoia.

Olhei para a mala.

Depois para o quarto.

Minha vida inteira estava naquele apartamento.

Poucas roupas.

Poucos móveis.

Alguns livros.

Fotografias.

Pequenas coisas sem valor financeiro, mas que significavam tudo para mim.

Eu não podia simplesmente deixar tudo para trás.

Sentei na cama.

Passei as mãos pelo rosto.

— Talvez ele nem saiba quem eu sou.

Falei em voz baixa.

A frase parecia mais convincente quando pronunciada.

Roman não sabia meu nome.

Não sabia meu endereço.

Não sabia nada.

Eu tinha escapado.

Talvez ele nem tivesse mandado ninguém atrás de mim.

Talvez, quando descobrisse que eu era apenas uma funcionária do restaurante, percebesse que não valia a pena procurar.

Talvez eu fosse insignificante.

Essa ideia me trouxe um pouco de conforto.

Desfiz a mala.

Uma peça de cada vez.

Guardei tudo novamente.

Decidi que ficaria.

Pelo menos naquela noite.

Amanhã eu pensaria melhor.

Voltei para a cama.

Dessa vez, o sono veio rápido.

---

Acordei algumas horas depois.

Minha garganta estava seca.

Olhei para o relógio.

3h17.

Fiquei alguns segundos encarando o teto.

Então me sentei.

Eu precisava de água.

Levantei devagar.

O apartamento estava completamente silencioso.

Caminhei pelo corredor.

A luz da cozinha estava apagada.

Entrei.

Peguei um copo.

Abri a torneira.

A água começou a cair.

Bebi rapidamente.

Depois enchi o copo novamente.

Foi quando ouvi um som.

Um ruído baixo.

Vindo da sala.

Parei.

O copo ficou suspenso na minha mão.

Meu coração começou a bater mais rápido.

Talvez fosse a televisão.

Eu tinha deixado ligada.

Olhei para a sala.

A televisão estava desligada.

Meu estômago se contraiu.

Eu tinha certeza de que havia desligado antes de dormir.

Fiquei imóvel.

Um segundo.

Dois.

Três.

Então ouvi novamente.

Um pequeno movimento.

Como alguém mudando de posição.

Meu corpo inteiro ficou frio.

Não.

Não podia ser.

Talvez fosse o prédio.

Talvez um vizinho.

Talvez algum barulho vindo da rua.

Segurei o copo com força.

Dei um passo para fora da cozinha.

Depois outro.

A sala estava escura.

As cortinas estavam fechadas.

A única iluminação vinha da luz fraca do corredor.

Olhei para o sofá.

Primeiro vi apenas uma silhueta.

Meu cérebro se recusou a compreender.

Então a pessoa se mexeu.

Devagar.

Muito devagar.

E eu vi um homem sentado no meu sofá.

Ele estava completamente à vontade.

Uma das pernas cruzada sobre a outra.

As mãos apoiadas nos braços do sofá.

Como se aquela fosse a casa dele.

Como se estivesse esperando por mim.

Meu copo quase caiu da minha mão.

Não consegui gritar.

O homem levantou o rosto.

Mesmo na penumbra, reconheci aqueles olhos.

Meu sangue congelou.

Roman estava sentado no meu sofá.

E ele já estava me esperando.

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