Capítulo 3 Capítulo 3

CAPÍTULO 3

VOCÊ VIU DEMAIS

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Roman estava sentado no meu sofá.

Dentro da minha casa.

No meio da madrugada.

Como se tivesse todo o direito de estar ali.

Meu primeiro impulso foi correr.

Meu segundo foi gritar.

Nenhum dos dois aconteceu.

Eu simplesmente fiquei parada, segurando um copo de água, olhando para o homem que, poucas horas antes, eu tinha visto apontar uma arma para alguém.

Ele parecia ainda mais assustador naquela sala silenciosa.

Sem o sobretudo.

Sem os outros homens ao redor.

Sem a chuva.

Sem toda aquela movimentação.

Apenas ele.

Calmo.

Imóvel.

Observando cada reação minha.

— Como você entrou aqui?

Minha voz saiu tão baixa que quase não parecia minha.

Roman não respondeu imediatamente.

Seus olhos desceram para o copo que eu segurava.

Depois voltaram para o meu rosto.

— Você deveria ter trancado a janela da cozinha.

Olhei automaticamente para trás.

A janela.

Meu coração disparou.

Ele tinha entrado por ali?

Não.

Era impossível.

Eu morava no terceiro andar.

Voltei a encará-lo.

— Você invadiu a minha casa.

— Sim.

A resposta veio sem qualquer hesitação.

Dei um passo para trás.

— Isso é crime.

Uma sobrancelha dele se ergueu.

— Você realmente pretende discutir crimes comigo?

Fiquei em silêncio.

Ele tinha razão.

E aquilo me assustou ainda mais.

Roman se levantou.

Instintivamente, recuei.

Ele parou.

Não avançou.

Apenas me observou.

— Eu não vim machucar você.

— Então por que está aqui?

— Porque você viu demais.

A frase atravessou meu corpo.

Segurei o copo com mais força.

— Eu não vi nada.

Ele soltou uma risada curta.

Não havia humor nela.

— Você estava escondida atrás de uma janela observando uma execução.

Engoli em seco.

— Eu não sabia o que estava acontecendo.

— Mas agora sabe.

Não respondi.

Roman caminhou até a mesa de centro.

Pegou um objeto que estava sobre ela.

Meu porta-retrato.

Uma fotografia minha com minha mãe.

Ele olhou para a foto por alguns segundos.

— Você mora sozinha.

Não era uma pergunta.

— Sim.

Ele colocou o porta-retrato de volta.

— Trabalha no restaurante há um ano e oito meses.

Meu coração afundou.

— Como você...

— Seu nome é Stella Moretti.

Minha respiração falhou.

— Vinte e cinco anos.

Ele continuou como se estivesse lendo uma lista.

— Sem antecedentes. Sem dívidas relevantes. Nenhum relacionamento sério atualmente. Sua mãe mora em outra cidade. Você visita quando pode.

Eu não conseguia acreditar.

— Você investigou minha vida.

— Precisava saber quem tinha me visto.

— Eu não sou ninguém.

Ele me encarou.

— Esse é justamente o problema.

Franzi a testa.

— O que isso significa?

Roman ficou em silêncio por um momento.

Então se aproximou.

Dessa vez, lentamente.

— Significa que você não é uma criminosa. Não faz parte de nenhuma organização. Não trabalha para ninguém. Você não estava me espionando.

Ele parou a poucos metros de mim.

— Você simplesmente estava no lugar errado.

Minha garganta apertou.

— Então me deixe ir.

Roman me observou.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque você viu o suficiente para me destruir.

Meu coração bateu mais forte.

— Eu não entendo.

Ele passou a mão pelo maxilar.

Parecia estar escolhendo cuidadosamente as próximas palavras.

— O homem que você viu morrer não era um homem qualquer.

— Quem era?

Roman sustentou meu olhar.

— Um senador.

O copo escapou parcialmente dos meus dedos.

Quase caiu.

— O quê?

— Um senador.

Balancei a cabeça.

— Não.

— Sim.

— Eu teria reconhecido.

— Você viu de longe. Estava escuro. Estava chovendo.

Eu me lembrei da cena.

O homem ajoelhado.

A camisa ensanguentada.

A voz desesperada.

Meu estômago embrulhou.

— Por que um senador estava com você?

Roman não respondeu.

— O que ele estava fazendo ali?

Silêncio.

— Por que você matou um senador?

Os olhos dele ficaram mais frios.

— Cuidado, Stella.

Parei.

Ele não levantou a voz.

Não precisou.

— Você está fazendo perguntas que não deveria fazer.

— Mas você entrou na minha casa!

Minha voz finalmente saiu mais alta.

— Invadiu meu apartamento, investigou minha vida e agora está dizendo que eu não posso perguntar por que matou um senador?

Roman ficou completamente imóvel.

— Eu não disse que não poderia perguntar.

— Então responda.

Ele me encarou por alguns segundos.

— O senador estava envolvido em negócios que não deveriam existir.

— Isso não responde.

— É a resposta que você vai receber.

Senti raiva.

Era estranho.

Eu estava diante de um homem que provavelmente poderia acabar com a minha vida com uma ordem.

Ainda assim, naquele momento, a raiva venceu o medo.

— Você acha que pode simplesmente matar alguém e esconder isso?

Roman inclinou levemente a cabeça.

— Não.

— Então?

— Acho que algumas pessoas passam a vida acreditando que são intocáveis.

— E você não é?

Ele deu um passo na minha direção.

— Não.

Aquela resposta me surpreendeu.

Roman não parecia orgulhoso.

Parecia simplesmente estar constatando um fato.

— A morte daquele senador vai chamar atenção — continuou. — E se descobrirem que eu estava envolvido...

Ele deixou a frase incompleta.

Eu entendi.

— Você vai ser preso.

Roman me encarou.

— Exatamente.

Meu coração acelerou.

— Então é por isso que você está aqui.

— Em parte.

— Porque eu posso denunciar você.

— Você pode.

— Então você quer me matar.

— Se quisesse, não estaríamos conversando.

A resposta me deixou sem palavras.

Ele continuou:

— Mas existe outro problema.

— Qual?

Roman caminhou até a janela.

Afastou levemente a cortina.

Olhou para a rua.

— Pessoas estão procurando por você.

Senti um arrepio.

— Seus homens?

— Alguns.

— Alguns?

Ele soltou a cortina.

— O senador tinha inimigos.

— E o que isso tem a ver comigo?

Roman voltou os olhos para mim.

— Você foi a última pessoa a vê-lo vivo.

— Eu nem sabia quem ele era!

— Eles não sabem disso.

Meu coração despencou.

— Quem são eles?

— Pessoas que acreditam que você sabe mais do que realmente sabe.

Fiquei em silêncio.

— E se eles encontrarem você primeiro — continuou Roman — vão fazer perguntas.

— E se eu não responder?

O rosto dele endureceu.

— Eles não vão perguntar duas vezes.

Um frio percorreu minha espinha.

Olhei para a porta.

Depois para ele.

— Então eu devo fugir.

— Para onde?

Não respondi.

Ele já sabia.

— Você tentou fazer isso hoje.

— E funcionou.

— Não.

Roman deu um sorriso quase imperceptível.

— Você conseguiu chegar em casa.

A frase me atingiu.

Ele tinha me seguido.

Ou alguém tinha.

— Você estava me observando?

— Sim.

— Desde quando?

— Desde que saiu do restaurante.

Meu estômago se revirou.

— Então por que não me pegou?

Roman ficou em silêncio.

— Porque queria saber para onde você iria.

— E agora sabe.

— Agora sei.

— Então vai me levar?

— Ainda não decidi.

— Não decidiu?

Minha indignação voltou.

— Você está falando da minha vida como se estivesse escolhendo o que comprar no supermercado!

Roman me encarou.

— Porque, neste momento, sua vida está ligada à minha.

— Eu não escolhi isso.

— Eu sei.

— Eu não pedi para ver aquele homem.

— Eu sei.

— Eu não quero fazer parte disso.

— Eu sei.

A calma dele começou a me irritar.

— Então me deixe em paz!

Roman respirou fundo.

— Não posso.

— Por quê?

Ele se aproximou novamente.

— Porque você viu o senador.

Meu corpo ficou rígido.

— E?

— Você viu o rosto dele.

— Sim.

— Viu o meu.

— Sim.

— Viu meus homens.

— Sim.

Ele parou diante de mim.

— E ouviu meu nome.

Minha garganta secou.

— Isso é suficiente para colocar você no centro de uma investigação.

— Eu posso simplesmente dizer que não sei quem você é.

— Pode.

— Então por que não?

Roman me encarou.

— Porque eles podem descobrir que você está mentindo.

— E se eu não contar nada?

— Ainda assim podem acreditar que sabe.

— Você está dizendo que não importa o que eu faça?

— Não.

Ele inclinou-se ligeiramente.

— Estou dizendo que, a partir desta noite, você se tornou um problema para muita gente.

Eu senti os olhos arderem.

Não queria chorar.

Não diante dele.

Não queria demonstrar fraqueza.

— Eu só quero voltar para minha vida.

Roman ficou em silêncio.

Por um instante, algo mudou em sua expressão.

Foi tão rápido que quase pensei ter imaginado.

— Sua vida acabou no momento em que olhou pela janela.

A frase doeu.

Porque eu sabia que era verdade.

Olhei para o sofá.

Para minha pequena sala.

Para a fotografia da minha mãe.

Para o apartamento que, poucas horas antes, parecia o lugar mais seguro do mundo.

Agora havia um estranho sentado ali.

Um homem perigoso que sabia meu nome, minha idade, onde eu trabalhava e quem era minha família.

— O que você vai fazer comigo?

Roman demorou alguns segundos para responder.

— Ainda não decidi.

— Você já disse isso.

— Porque ainda é verdade.

— E se eu fugir?

Ele me olhou diretamente.

— Eu vou encontrar você.

Um arrepio percorreu meu corpo.

— E se eu for à polícia?

— Pode tentar.

— Você está me ameaçando?

— Estou avisando.

Aquela diferença parecia pequena.

Mas não era.

Roman passou por mim.

Caminhou até a porta.

Por um segundo, achei que fosse embora.

Minha respiração finalmente começou a desacelerar.

Então ele parou.

Sem se virar, disse:

— Não saia de casa amanhã.

Franzi a testa.

— Por quê?

Ele virou o rosto apenas o suficiente para me olhar.

— Porque agora eles sabem que você existe.

Meu coração parou.

— Quem?

Roman abriu a porta.

— Os homens que também querem saber o que o senador contou antes de morrer.

Ele saiu.

A porta se fechou.

Fiquei sozinha.

Ou pelo menos pensei que estava.

Corri até a porta e tentei abrir.

Trancada.

Olhei para a sala.

Para a janela.

Para o corredor.

Roman tinha desaparecido.

Mas suas palavras permaneceram comigo.

Agora eles sabem que você existe.

Foi quando percebi uma coisa.

A morte daquele senador não era o fim.

Era apenas o começo.

E eu estava presa no meio de uma guerra que sequer sabia que existia.

Roman não tinha ido embora.

Ele ainda estava ali.

Em algum lugar.

Esperando.

Observando.

E, pela primeira vez, entendi que talvez eu nunca mais conseguisse me livrar dele.

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