Capítulo 4 Capítulo 4
CAPÍTULO 4
ENTRE O MEDO E A FUGA
Eu passei o restante da noite acordada.
Depois que Roman saiu do meu apartamento, tentei me convencer de que aquilo tinha sido apenas um pesadelo particularmente cruel.
Não funcionou.
A cada vez que fechava os olhos, eu o via sentado no meu sofá.
Calmo.
Imóvel.
Como se invadir a casa de uma mulher no meio da madrugada fosse a coisa mais normal do mundo.
E talvez, para ele, fosse.
Levantei-me antes das seis da manhã.
Não porque tivesse dormido.
Eu simplesmente desisti de tentar.
Fui até a cozinha, preparei café e fiquei alguns minutos olhando para a xícara.
Minha mão tremia.
Eu a escondi debaixo da mesa.
— Você precisa se acalmar, Stella.
Minha própria voz parecia fraca.
Peguei o celular.
Tinha mensagens de Marina perguntando se eu estava bem.
Uma parte de mim queria responder.
Outra parte lembrava que qualquer pessoa poderia estar observando meu telefone.
Olhei para a janela.
Depois para a porta.
Roman tinha dito para eu não sair.
E eu pretendia obedecer.
Por aproximadamente vinte minutos.
Então percebi que obedecer significava permanecer dentro de uma casa que ele conseguia invadir quando quisesse.
Aquilo me fez sentir ainda mais presa.
Levantei-me.
Tomei banho.
Troquei de roupa.
Peguei minha bolsa.
Fiquei parada diante da porta.
Minha mão segurava a maçaneta.
Eu deveria ficar.
Roman havia sido muito claro.
Mas eu também não confiava nele.
E, se havia uma coisa que eu tinha aprendido naquela noite, era que ficar parada esperando o perigo chegar não era uma estratégia.
Abri a porta.
O corredor estava vazio.
Desci as escadas.
Cada degrau parecia mais alto do que o anterior.
Quando cheguei ao térreo, olhei para a cabine do porteiro.
Vazia.
Ótimo.
Saí.
O ar da manhã estava frio.
A rua parecia completamente normal.
Pessoas caminhavam para o trabalho.
Um homem carregava sacolas.
Uma mulher empurrava um carrinho de bebê.
Um ônibus passou na avenida.
Tudo continuava exatamente como sempre.
Aquilo era quase ofensivo.
Como o mundo podia continuar normal depois do que eu tinha visto?
Comecei a caminhar.
Não tinha um destino específico.
Só queria chegar ao restaurante.
Talvez Marina pudesse me ajudar.
Talvez eu pudesse recuperar minha bolsa.
Talvez pudesse pedir para ela me deixar dormir na casa dela por alguns dias.
Talvez...
Parei.
Meu coração afundou.
Um carro preto estava estacionado do outro lado da rua.
Não era o mesmo carro que eu tinha visto na noite anterior.
Ou talvez fosse.
Eu não sabia.
Continuei andando.
Não olhei diretamente para ele.
Passei pela esquina.
Mais alguns passos.
Então ouvi uma voz.
— Stella.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Fechei os olhos por um instante.
Não.
Não podia ser.
Virei devagar.
Roman estava encostado em outro carro preto.
Como se estivesse esperando por mim.
Uma das mãos estava no bolso do casaco.
Na outra, segurava um cigarro.
A fumaça subia lentamente diante do rosto dele.
Ele parecia completamente tranquilo.
Eu, por outro lado, provavelmente parecia alguém prestes a ter um colapso nervoso.
— Você está me seguindo?
Roman levou o cigarro à boca.
Tragou.
Depois soltou a fumaça para o lado.
— Eu estava esperando você.
— Isso não responde.
— Responde o suficiente.
Olhei para os lados.
Algumas pessoas passavam pela calçada.
Isso me deu uma pequena sensação de segurança.
— Eu estou indo trabalhar.
— Não.
— Não o quê?
— Você não vai trabalhar hoje.
Franzi a testa.
— Você não manda em mim.
Roman tirou o cigarro da boca.
— Ainda não.
A palavra ficou entre nós.
— Ainda?
Ele não respondeu.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Eu não fiz nada.
— Eu sei.
— Então pare de me perseguir.
Roman soltou o cigarro no chão e o apagou com a ponta do sapato.
Depois se afastou do carro.
— Stella.
O tom dele mudou.
Não estava mais brincando.
— Não complique as coisas.
— Para quem?
— Para você.
Cruzei os braços.
— Eu não estou complicando nada.
— Está saindo de casa depois que eu pedi para não sair.
— Eu não pedi sua permissão para sair.
Roman me encarou.
— Você não está entendendo.
— Então explique.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois caminhou até mim.
Eu recuei automaticamente.
Ele parou.
— Ontem à noite, você viu um assassinato.
Meu estômago se contraiu.
— Eu sei.
— Não. Você ainda não entendeu o que isso significa.
— Significa que você matou um homem.
— Significa que você testemunhou a morte de um senador.
Ele enfatizou a última palavra.
— Um homem que tinha inimigos poderosos. Um homem que estava envolvido em coisas que fariam pessoas muito perigosas perderem dinheiro, poder e liberdade.
Meu coração acelerou.
— E isso tem alguma coisa a ver comigo?
— Agora tem.
— Eu não tenho nada a ver com isso.
— Eu sei.
— Então me deixe ir.
Roman respirou fundo.
— Você acha que eu estou tentando controlar você.
— Está.
— Talvez.
Ele não negou.
— Mas estou fazendo isso porque é a única maneira de manter você viva.
Soltei uma risada nervosa.
— Engraçado. Você fala como se eu devesse agradecer.
— Não espero que agradeça.
— Ótimo.
— Espero que tenha bom senso.
Meu rosto esquentou.
— Eu tenho bom senso.
— Então use.
Ele apontou discretamente para a rua.
— Você acha que sair sozinha depois do que aconteceu é uma boa ideia?
Olhei ao redor.
— Tem gente por toda parte.
— E nenhuma dessas pessoas sabe quem está observando você.
Fiquei em silêncio.
Roman continuou:
— Ontem você conseguiu escapar porque eles não sabiam exatamente quem estavam procurando.
— E agora?
— Agora sabem.
Meu coração afundou.
— Como?
— Porque você correu para casa.
Ele disse aquilo com tanta naturalidade que fiquei gelada.
— Você estava me seguindo.
— Sim.
— Então você sabe que eu vim para cá.
— Sei.
— E eles também sabem?
Roman me encarou.
— Alguns deles.
Minha boca ficou seca.
— Você está tentando me assustar.
— Não preciso.
A resposta veio fria.
— A situação já é assustadora.
Olhei para o carro atrás dele.
A porta do passageiro estava aberta.
Meu estômago se revirou.
— Não.
Roman seguiu meu olhar.
— Entre.
Balancei a cabeça.
— Não vou entrar nesse carro.
— Stella.
— Não.
— Entre.
— Você acha mesmo que eu vou entrar voluntariamente em um carro com o homem que vi matar alguém?
Roman permaneceu imóvel.
— Sim.
— Por quê?
— Porque você tem medo de morrer.
Aquelas palavras me atingiram.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei o suficiente.
— Então você deveria saber que eu não vou simplesmente entrar em um carro com você.
Roman olhou para mim por alguns segundos.
Depois disse:
— Você está certa.
Aquela resposta me surpreendeu.
— O quê?
— Você não deveria confiar em mim.
Ele se aproximou mais um passo.
— Mas deveria ter mais medo das pessoas que estão procurando você.
Meu coração começou a bater tão rápido que doía.
— Eu posso ir para a polícia.
— Pode.
— Posso contar tudo.
— Pode.
— Então por que não me impede?
Roman inclinou a cabeça.
— Porque a polícia não vai conseguir proteger você vinte e quatro horas por dia.
— E você conseguiria?
— Sim.
A confiança naquela resposta me deixou desconfortável.
— Você fala como se fosse invencível.
— Não sou.
Ele olhou para a rua.
— Mas tenho recursos que você não tem.
Eu não sabia o que responder.
Roman voltou a olhar para mim.
— Você viu demais, Stella.
Minha garganta apertou.
— Principalmente a morte do senador.
Ele deu um passo na direção do carro.
— Aquilo poderia me colocar atrás das grades.
Meu coração parou.
— Então é isso.
Roman olhou para mim.
— O quê?
— Você está com medo de que eu conte.
— Naturalmente.
— Então você realmente vai me matar.
A expressão dele mudou.
Quase imperceptivelmente.
— Se quisesse fazer isso, não teria vindo buscar você.
— Talvez esteja apenas esperando o momento certo.
— Não.
— Como posso saber?
Roman ficou alguns segundos em silêncio.
Então abriu a porta traseira.
— Você não pode.
Ele olhou diretamente nos meus olhos.
— E eu não posso obrigar você a confiar em mim.
— Então?
— Então você tem uma escolha.
Olhei para o carro.
Depois para ele.
— Qual?
— Pode continuar andando.
Roman fez uma pausa.
— Ou pode entrar nesse carro e continuar viva tempo suficiente para descobrir por que eu preciso proteger você.
Minha garganta secou.
— E se eu não entrar?
Ele olhou para a rua atrás de mim.
— Então espero que esteja certa sobre ninguém estar seguindo você.
Virei discretamente o rosto.
Um carro passava lentamente.
Outro estava estacionado mais adiante.
Não sabia se eram suspeitos.
Talvez fossem apenas carros.
Talvez minha paranoia estivesse começando a me consumir.
Voltei a olhar para Roman.
Ele estava esperando.
Sem pressa.
Como se soubesse qual seria minha decisão.
Eu odiava aquilo.
Odiava o modo como ele parecia sempre ter controle.
Odiava estar diante dele sem saber o que fazer.
Mas eu tinha medo.
Muito medo.
E o pior era que eu começava a perceber que Roman estava certo sobre uma coisa.
Eu realmente não sabia quem estava me procurando.
Eu só sabia quem eu já tinha visto.
E aquele homem estava diante de mim.
Roman abriu um pouco mais a porta.
— Entre.
Olhei novamente para o carro.
Depois para a rua.
Minha mão apertou a alça da bolsa.
Eu queria correr.
Queria chamar alguém.
Queria acordar e descobrir que tudo aquilo não tinha acontecido.
Mas não fiz nada disso.
Porque a imagem do homem ajoelhado voltou à minha mente.
A arma.
O sangue.
A voz de Roman.
E a palavra que ele tinha repetido tantas vezes.
Senador.
Se aquele homem realmente podia acabar atrás das grades por causa do que eu tinha visto, então eu não fazia ideia de quem mais poderia estar interessado em me encontrar.
Respirei fundo.
Meu corpo tremia.
Entrei no carro.
Roman fechou a porta atrás de mim.
E, no instante em que ouvi o clique da trava, percebi que talvez tivesse acabado de trocar uma ameaça que eu conhecia por outra que eu ainda não conseguia compreender.
