Capítulo 2 Traidora

Sentado atrás da ampla mesa de sua diretoria na sede do Grupo Harrison Giordano, Kevin encarava fixamente o porta-retratos que continha a foto de sua esposa. Aquelas mechas loiras e longas, os olhos dourados e o belo sorriso alinhado que um dia o enlouqueceram de paixão agora pareciam uma farsa completa, uma armadilha muito bem orquestrada.

Tomado por uma fúria cega e incontrolável, ele ergueu a mão comprida e arremessou o objeto contra a parede com toda a sua força. O vidro se estilhaçou em mil pedaços no chão, refletindo perfeitamente o estado de seu próprio coração.

— Traidora! — As palavras amargas saíram entre os dentes apertados, enquanto ele passava as mãos pelas mechas de cabelo castanho e respirava profundamente para tentar se acalmar. — Desta vez, ela não escapa de mim.

Aos vinte e cinco anos, Kevin Harrison Giordano havia assumido a administração dos negócios de sua poderosa família com mãos de ferro. 

O CEO, que secretamente comandava o temido submundo do crime organizado em Milão, era casado com a jovem francesa por quem havia se apaixonado perdidamente no passado. Ninguém no país ousava desafiar sua autoridade, exceto a própria mulher que ele havia colocado dentro de sua cama e de sua vida.

Sua mente, traiçoeira e dolorida, o levou involuntariamente de volta ao começo de tudo. A primeira vez em que vira Justine Delacroix foi em um suntuoso evento de moda de Milão. Naquela noite, ele acompanhava sua amiga de infância, Beatrice, no badalado desfile de prêt-à-porter, alta costura e Cruise da grife Dior.

No entanto, ao invés de prestigiar a amiga que cruzava a passarela sob os aplausos do público, a atenção total de Kevin foi capturada por um par de olhos dourados específicos nos bastidores. O nariz arrebitado e o sorriso tímido compunham os traços incrivelmente delicados da jovem que, na época, trabalhava duro como estagiária de design de moda, auxiliando na criação e comercialização das peças de vestuário e acessórios de luxo.

Naquela noite inesquecível, Justine usava um deslumbrante vestido de seda vermelho que se ajustava perfeitamente às curvas de seu corpo magro. O decote acentuado em "V" exibia o colo de seus seios firmes, e a fenda ousada no lado direito revelava parte de sua coxa macia a cada passo.

Apenas algumas semanas depois daquele evento, ela já estava namorando o imponente italiano, que media cerca de 1,90 m de altura e arrancava suspiros por onde passava. Certo dia, durante um jantar romântico e exclusivo a bordo de seu iate de luxo, Justine fingiu imensa surpresa quando Kevin lhe entregou um reluzente anel com um diamante solitário. Não demorou muito para que o noivado acontecesse e eles se casassem sob as bênçãos da alta sociedade.

Apesar da paixão arrebatadora e carnal que os envolvia diariamente na mansão, Justine começou a dar sinais estranhos de que mantinha segredos ocultos após alguns meses de matrimônio. Desconfiado por instinto, Kevin comprou um celular de última geração para dar de presente à esposa. No entanto, antes de entregar o embrulho luxuoso, ele instalou secretamente um spyware altamente sofisticado no aparelho telefônico. Desde então, ele passou a monitorar eletronicamente todos os seus passos, mensagens e ligações.

Naquele dia fatídico, Kevin estava completamente carregado de raiva pura. O monitoramento e as informações de seus espiões revelaram que a esposa havia ido ao banco e sacado cerca de setenta mil euros em espécie da conta conjunta do casal. Para piorar a situação, após analisar pessoalmente as imagens das câmeras de segurança escondidas do quarto onde dormiam, ele viu a esposa pegando e escondendo na bolsa boa parte das joias valiosas que ficavam guardadas no cofre particular.

Furioso com a constatação da mentira, ele saiu de trás de sua ampla mesa de capitonê e passou a perambular pelo escritório da diretoria feito um animal selvagem enjaulado. Ele passava os dedos longos pela testa vincada conforme sua mente ponderava sobre os últimos acontecimentos terríveis.

Apenas na noite anterior, ele havia comemorado com extrema alegria o primeiro ano de casado com a esposa em um restaurante de luxo na capital da moda. Ele a presenteara com um belo e caríssimo colar de diamantes legítimos. Quando retornaram para a enorme mansão do clã, ele a levou até a garagem escura apenas para mostrar uma Ferrari 250 GTO vermelha reluzente, enfeitada com um grande laço de fita branco.

— De quem é esse carro maravilhoso, querido? — Justine havia questionado com os olhos brilhando.

— É seu, mio amore — a voz rouca, sensual e pausada dele respondeu ao pé de seu ouvido.

— Meu Deus, é linda! — Com os olhos arregalados de genuína surpresa, ela exclamou antes de se virar para ele.

Os braços musculosos e fortes de Kevin envolveram a cintura reta da esposa em um abraço caloroso e possessivo, capturando seus lábios rosados e beijando-a com uma sofreguidão que demonstrava toda a sua paixão. Instintivamente, as recordações eróticas daquela madrugada invadiram a mente do CEO.

Ele se lembrou de quando cruzaram o amplo corredor do segundo piso da mansão e ele a carregou nos braços até a suíte principal. Logo, as roupas de luxo estavam completamente espalhadas pelo chão de madeira. Ele tomou um seio após o outro entre seus lábios famintos, enquanto seu membro robusto e avantajado mergulhava profundamente entre as pernas dela, exigindo mais espaço à medida que a abria e a possuía.

— Oh, mon Dieu! — A voz feminina e doce de Justine gemeu alto na escuridão ao sentir a ereção escorregando em seu molhamento natural e batendo cada vez mais fundo em seu ventre.

Absorto nessas recordações carnais intensas, Kevin ainda conseguia escutar os gemidos ecoando com clareza em sua mente. Sentado na cadeira de couro de seu escritório, um leve grunhido de frustração escapou de seus lábios. Ele segurou por um momento a ereção que começava a medrar sob a calça de linho preta, mas, logo depois, balançou a cabeça com força para se livrar das lembranças da mulher que o havia traído.

Os olhos azuis do CEO voltaram a focar nas veias saltadas de suas próprias mãos. Ele endireitou a postura no encosto de sua poltrona presidencial.

— Cazzo, aquela puttana é uma traidora de marca maior! — Socou a mesa outra vez, sentindo o punho doer.

Repentinamente, a porta dupla da diretoria se abriu sem avisar. Uma mulher alta, esguia e de postura elegante jogou suas longas mechas pretas para trás dos ombros assim que adentrou o recinto. Beatrice desfilou graciosamente até a enorme mesa, exalando um perfume caro.

— Precisa de companhia para relaxar, querido? — A voz manhosa da modelo indagou ao se aproximar.

— Não quero conversar com ninguém agora, Bia — ele grunhiu, afastando os papéis com desdém. 

Embora a modelo fosse inegavelmente bonita, Beatrice não o atraía de forma alguma, por mais que ela demonstrasse desejá-lo constantemente.

— Calma, querido — disse Beatrice ao se posicionar estrategicamente atrás da poltrona dele, pousando suas mãos magras sobre os ombros largos do senhor Harrison. — Relaxe um pouco.

Os dedos de Beatrice começaram a massagear os músculos tensos do pescoço dele. Um leve sorriso de triunfo surgiu no canto dos lábios da modelo no exato segundo em que seus olhos cravaram no vidro rachado do porta-retratos de Justine caído no chão.

— Eu sempre te falei que a sua esposa era infiel e perigosa — a voz feminina afirmou com falsa compaixão.

— Já chega, Bea! — Vociferou Kevin no mesmo instante em que afastou as mãos dela de seus ombros com rispidez e se pôs de pé bruscamente.

Ele pegou seu sobretudo preto de lã e vestiu-o com pressa. Mais que depressa, ele saiu de seu escritório a passos largos.

— Quer que eu vá com você ao evento, querido? — Beatrice acrescentou enquanto seguia Kevin até o corredor dos elevadores. 

— Andiamo — com o tom totalmente gutural, ele retrucou com veemência, sem sequer olhar para trás.

Dentro do elevador privativo, Kevin apertou o botão do subsolo com força e as portas espelhadas se fecharam. Ele passou as mãos nos fios de cabelo lisos e curtos pouco antes de sair no estacionamento subterrâneo e ir direto para o carro de luxo, onde seu motorista particular já aguardava de prontidão com o motor ligado.

— Não se preocupe, querido — disse Beatrice ao entrar e sentar ao lado dele no carro. — Vou te ajudar a esquecer aquela puttana.

Enquanto o automóvel potente saía em alta velocidade para as ruas cinzentas de Milão sob o céu nublado, Kevin passava a mão pelo cavanhaque que emoldurava sua mandíbula retesada e tensa.

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