Capítulo 4 Cruel e vingativo
— Já te dei os documentos que achei no escritório do Kevin e te dei o dinheiro. — Tocando o rosto que ainda ardia por causa do tapa, ela piscou.
— Estúpida! — Vociferou Andrew. — Saia daqui.
— Preciso de um lugar para passar a noite. — O pedido de Justine ecoou pela sala de estar.
— Não, você não vai ficar aqui. — O homem robusto aumentou a voz.
Andrew tinha mais de quarenta anos e a aliança com Kevin Harrison era de suma importância para ampliar os negócios.
Justine só tinha que convencer o marido a fazer um acordo com o seu rival e deixá-lo a fazer negócios na área em que ele dominava, mas ela desperdiçou muito tempo, entregando-se à sensualidade que emanava daquele italiano e ao seu trabalho como designer de moda no ateliê que o marido montou.
— Por favor, mamãe! — O olhar suplicante de Justine se deteve na mulher sentada no sofá.
— É melhor você ir, Chérie — Sophia repetiu a ordem de Andrew.
— Como pode fazer isso comigo, mamãe? — As lágrimas ardiam em seus olhos. — Primeiro, você me largou com a minha avó depois que o meu pai faleceu e agora, você está me deixando de lado outra vez!
— Nunca quis ter filhos, Justine. — A voz de Sophia alterou. — O seu pai era quem insistia. Ainda bem que ele morreu. Perdi dez anos da minha vida enquanto cuidava de uma filha indesejada.
— Então, foi por isso que a senhora me abandonou com a minha avó?
— É claro, aquela velha te adorava e eu queria distância de você.
Aos dezoito anos, Justine descobriu que sua avó estava com câncer em estágio quarto e, por isso, saiu do interior da França e foi à Itália procurar Sophia para auxiliar nas despesas médicas de sua avó. Todavia, ela entrou num acordo com duas pessoas vigaristas que destruíram sua vida.
De longe, Andrew passou a mão na barba bem feita. Um sorriso apareceu no rosto enquanto ele ouvia a discussão entre Justine e Sophia.
— Já chega, pode ir embora, chérie. — Sophia lançou as palavras no ar ao ficar em pé. — Preciso dar um pouco de atenção para o meu marido. — Foi ao encontro de Andrew.
Justine nunca sentiu tanto rancor por sua mãe. A única que deveria apoiá-la, acabou lhe dando as costas nos momentos em que mais precisou.
Ao sair da luxuosa cobertura, Justine foi para a estação de metrô.
Mais tarde, ela tirou o anel de diamante do dedo, os brincos e o colar para vender numa loja que comprava joias. Com o dinheiro que conseguiu, ela acabou alugando um quarto no hotel em Via padova, Loreto, Milão.
Na manhã seguinte, Justine tentou abrir o ateliê, mas os capangas de seu ex-marido a impediram de entrar.
Voltando ao quarto inóspito do hotel, ela fez algumas propagandas de seu trabalho nas redes sociais e descobriu que muitas clientes estavam falando mal das peças de roupas que ela produziu. Antes, ela mal tinha espaço na agenda e, dias após a separação, não tinha mais onde atender às suas clientes.
No dia do divórcio, Kevin mal lhe deu atenção. Somente rubricou o documento e saiu. Ela correu para alcançá-lo, mas parou ao ver o ex-marido abraçando outra mulher.
— Com licença, podemos conversar? — A voz mirrada de Justine perguntou.
Ele nem mesmo olhou para trás, apenas continuou andando.
— Kevin! — Parou na frente dele e de Beatrice.
— Saia do meu caminho. — O homem amargurado falou entre dentes. — Não quero ver sua cara nesta cidade outra vez.
Ao erguer os olhos, Justine teve um breve vislumbre de Beatrice, que segurou a mão de Kevin. As lágrimas brotaram do canto de seus olhos. Arrasada, Justine voltou à sala onde assinou os papéis do divórcio e pegou as coisas que o advogado de Kevin entregou.
— A senhora assinou regime de separação de bens na data do casamento, portanto, o que cada um de vocês possuía antes da união permanece de posse exclusiva das partes.
— Não posso ficar com o carro?
— O senhor Harrison deu a Ferrari para a namorada. Ele ainda reclamou que houve um desfalque de setenta mil euros e exigiu que esse valor seja devolvido quanto antes.
— Como vou pagar? — Exasperada, Justine perguntou. — Estou sem trabalho e mal tenho o que comer…
O desespero a consumiu, fazendo com que a jovem grávida esmorecesse.
— O funcionário do senhor Harrison deixou algumas malas com seus pertences. Acompanhe a minha secretária até a sala onde estão as bagagens.
— E quanto ao meu bebê? Estou grávida!
— Já falou com o senhor Harrison sobre isso?
— Eu contei, mas o Kevin acha que o filho não é dele.
— Converse com o seu advogado sobre isso e peça para entrar em contato comigo, por agora, isso é tudo.
Como pagaria um advogado naquela altura da vida? Além disso, o ex estava com tanto ódio dela que poderia matá-la se continuasse cruzando o seu caminho.
Justine saiu de lá, levando uma bagagem por vez até o táxi que a aguardava na portaria do prédio. Logo, ela fez um dinheiro vendendo as roupas, os sapatos e os acessórios de grife em um bazar improvisado. Com o valor que conseguiu, ela alugou um apartamento pequeno no centro.
Em poucos dias, Justine arrumou trabalho como costureira num ateliê de roupas e destacava-se em tudo o que fazia, mas, certo dia, foi demitida sem qualquer explicação.
— Foi o senhor Harrison Giordano quem mandou me demitir, não foi? — Justine quis saber a todo custo.
Era óbvio que foi ele. O ex-marido era cruel e vingativo. Não quis matá-la, mas faria de tudo para que Justine pagasse por sua traição.
— Por favor, não complique a minha situação. Vá embora! — O dono do Ateliê dispensou sem lhe dar maiores explicações.
Cada dia ficava mais difícil arrumar emprego naquela cidade. “Como vou pagar a dívida?” Pensava, desesperada, enquanto estava no metrô de volta para o hotel.
