Capítulo 5 Um recomeço inevitável

Cada dia era um recomeço inevitável. Justine procurou vagas em outros ateliês na cidade da moda, mas não conseguiu outros trabalhos nessa área.

A barriga mal aparecia no quinto mês de gestação. Justine estava muito magra devido à má alimentação. Logo o bebê chegaria e, na situação em que vivia, qualquer trabalho era bem-vindo. 

Por vezes, ela procurou pelo ex para falar sobre a gravidez, mas Kevin foi para Ibiza com a sua nova namorada e não tinha previsão de retorno.

Ela ficou sabendo que o consiglieri do CEO já tinha dado a ordem para não permitirem a entrada de Justine na empresa e na mansão. Inclusive, proibiu os funcionários de divulgar qualquer informação sobre o chefe.

Para garantir o próprio sustento, Justine lavava louças e limpava a cozinha do restaurante durante a noite.

No oitavo mês da gestação, ela saiu mais cedo do restaurante, pois estava sentindo fortes contrações. Em meio a dores do parto, seguiu pelas ruas pedindo carona, mas todos se recusavam a ajudá-la. Quando conseguiu chegar ao pronto-socorro, acabou perdendo sentidos.

Horas mais tarde, ela despertou. O desespero tomou conta assim que percebeu que estava deitada sobre uma maca enquanto o soro percorria pelo acesso até entrar em suas veias.

— Onde está o meu bebê? — A sua voz estava fraca quando perguntou para a enfermeira.

— O seu filho está com a avó. — Apontou para a mulher parada ao lado da janela.

— É menino?

— Sim! — A enfermeira respondeu com gentileza.

Do outro lado, Sophia embalava o neném enrolado numa manta azul.

— Trouxe fraldas, roupinhas e algum dinheiro para você. — Sophia cochichou ao chegar mais perto.

Justine acreditava que aquele ato indulgente era uma forma de Sophia tentar se redimir pela maneira rude como a tratou no dia em que a expulsou para ficar com o amante.

— O que faz aqui? — A voz fraca de Justine indagou.

— A recepcionista do hospital ligou depois que o bebê nasceu.

— Esqueci de tirar você dos meus contatos de emergência. — Justine virou a cara para o outro lado. — Por favor, deixe o meu filho e vá embora, Sophia. — Amargurada, ela pediu.

— Posso ficar mais um pouco com o meu neto?

— Não!

— Deu o nome do seu pai. Que fofo! — Continha sarcasmo na voz mansa de Sophia.

Após pegar o bebê, Justine viu os pequenos olhos azuis do menino. Para onde ela fosse, levaria consigo uma lembrança do ex-marido.

— Quando vim para Milão, eu morei num cortiço de Via Gola, em Navigli. — Confessou Sophia enquanto vasculhava a bolsa para pegar a chave. — Tenho um apartamento no terceiro andar de um dos prédios daquele cortiço. Ali é um bairro da periferia onde você pode recomeçar sem ficar no meio nessa guerra de egos entre o Kevin e o Andrew. Aquela área não está sob o domínio deles.

— Não preciso de caridade. — Embora necessitasse, Justine deixou o orgulho falar mais alto.

— Você ficará um tempo sem trabalhar e vai precisar cuidar do bebê por algumas semanas. Como arcará com aluguel no centro de Milão?

Por um lado, Sophia tinha razão. Não tinha mais como Justine se manter naquela cidade. O custo de vida estava bem acima do que ela podia pagar.

— Pense no seu filho, chérie! — Sophia insistiu.

Não tinha outra alternativa a não ser aceitar a ajuda daquela mulher. Ao menos, teria um teto sob suas cabeças até que se recuperasse do parto.

Dias depois, Justine recebeu alta do hospital e aceitou a carona de Sophia até o bairro da periferia, onde se instalou no apartamento simples com o bebê. Aquela foi a última vez que ambas se viram.

No ano seguinte, Justine tentou entrar em contato com Sophia para comemorar o aniversário de Bryan, mas recebeu a notícia de que ela morreu. Apesar de estar magoada com a mãe, Justine chorou por alguns dias, mas não quis saber a causa da morte da mãe, que a desprezou.


Sete anos depois…

Justine estava habituada a viver ilegalmente num apartamento em ruínas no cortiço em Via Gola, uma área era definida como o “Bronx” de Milão. O local era perigoso devido ao tráfico de drogas e pela ilegalidade difusa, mas ela decidiu se esconder naquela cidade e, por muitos anos, conseguiu viver em paz sem que o ex-marido a prejudicasse.

Em certo dia, havia um denso nevoeiro e a Via Gola parecia tranquila. Habitualmente, Justine costumava sair de casa às sete da manhã para deixar o filho na escola e ir direto para a fábrica. 

Quase sempre, as janelas estavam fechadas e as poucas pessoas que passavam na rua eram circunspectas. As casas e apartamentos pareciam ter os olhos, dando a sensação de estar sendo vigiada toda vez que caminhava para o ponto de ônibus.

Depois que encerrava o seu expediente na fábrica, ela buscava o Bryan na escola, deixava o filho com a vizinha e corria para um restaurante, onde ela atendia mesas num local com bastante bares em Navigli.

Algumas vezes, cafetões a convidaram para trabalhar como prostituta, mas ela negava. Em outras ocasiões, alguém oferecia algum tipo de entorpecente, que ela se negava a comprar.

Em uma tarde de temperaturas amenas, Justine parou em frente à entrada da escola. Os olhos dourados prestavam atenção nas crianças que saíam. Ao avistar Bryan, ela acenou para o filho. Os seus lábios se comprimiram numa linha fina até esboçarem um sorriso que embelezou ainda mais o seu rosto.

Na semana anterior, Bryan havia completado seis anos e Justine ainda não tinha lhe dado o seu presente de aniversário. Os olhos perspicazes da mãe notaram que tinha algo por trás da tristeza no semblante abatido do filho. Havia um hematoma no rosto do garoto.

— Quem fez isso com você, mon coeur? — Apreensiva, ela passou a mão pelos cabelos castanhos claros do filho.

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