Capítulo 2 CAPÍTULO 2
Ponto de vista de Vivienne
Emma e eu congelamos. Meu estômago despencou, mas Emma apertou minha mão rápido.
— Ei… tá tudo bem — ela sussurrou. — Fica calma.
Eu assenti, embora meu rosto ardesse e meu peito parecesse estar afundando. Ainda assim, deixei que ela me puxasse o resto do caminho até ele.
— Raf! — chamou Emma, com a voz animada.
Rafael se virou, ainda mantendo a garota colada nele. O sorriso dele se alargou quando viu a irmã. — Em! Você viu o gol que eu fiz? De nada por deixar a escola inteira orgulhosa.
Emma revirou os olhos. — Você é muito convencido. Mas parabéns. Você foi ótimo.
Eu fiquei um passo atrás dela, agarrando minha mochila como se fosse um escudo. Meu coração estava disparado sem motivo.
Foi quando os olhos dele pousaram em mim. Ele me deu uma olhada rápida e, em seguida, abriu um sorriso de canto. — E você trouxe sua amiguinha nerd. Que fofo.
As palavras arderam, mas eu mordi o lábio e fiquei quieta.
— Raf — Emma repreendeu, cutucando-o com o cotovelo. — Não seja babaca.
Ele só riu, como se não fosse nada.
Emma suspirou e olhou para a garota ainda encaixada sob o braço dele. — Então… quem é ela?
O braço de Rafael se apertou ao redor da garota, e ele a puxou mais para perto. — Esta é a Jessica — disse, orgulhoso. — O amor da minha vida.
Jessica jogou o cabelo preto e brilhante por cima do ombro e sorriu para Emma. — Oi! Você deve ser a irmãzinha dele. Ele fala de você às vezes.
Emma deu um sorriso educado. — Prazer em conhecer.
Jessica soltou uma risadinha, olhando para Rafael. — A gente se conheceu na pista de patinação no verão passado. Ele literalmente esbarrou em mim. Totalmente destino.
— Com as minhas habilidades, eu não esbarro em ninguém — provocou Rafael, sorrindo de canto para ela. — Mas naquele dia eu abri uma exceção.
Os dois riram.
Cada palavra era como uma faca se torcendo no meu peito. Eu me obriguei a manter o rosto calmo, mas por dentro doía tanto que eu achei que fosse me partir ao meio. Eu nem tinha percebido que Jessica estava olhando para mim até ela acenar de leve.
— E você é…? — ela perguntou.
Eu pisquei, com a garganta de repente seca. — Eu… eu sou a Vivienne.
O sorriso de Jessica se aguçou. — Ah, a amiguinha nerd de quem a Emma vive falando. — Ela inclinou a cabeça. — Não achei que você fosse sair da biblioteca tempo suficiente pra ver a luz do dia.
Rafael deu uma risadinha disso, balançando a cabeça. Jessica o acompanhou, e o som fez meu peito apertar ainda mais.
A mão de Emma foi direto na minha, me segurando. — Ei, para com isso — ela disse, ríspida. — A Vivienne é mais inteligente do que qualquer um nesta escola. Ela é minha melhor amiga. Tenha respeito.
Jessica só ergueu as sobrancelhas, mas o tom de Emma fez com que ela parasse.
Eu encarei o chão, desejando poder desaparecer.
A conversa continuou ao meu redor, mas eu mal ouvia. A risada de Jessica, o sorriso fácil de Rafael — era como água fria derramada sobre algo que eu vinha segurando apertado por dentro. Eu tentei encolher aquela dor, me dizer que estava tudo bem. As pessoas encontravam suas pessoas. Talvez a minha não fosse ele. Talvez isso estivesse tudo bem.
— Raf, tá tudo bem? — alguém do time chamou.
Rafael se endireitou como se não tivesse ouvido de início; então a mão voou para o peito. Ele franziu a testa, devagar e tenso. — Tô — ele forçou, mas não soou certo.
O sorriso de Jessica se desfez. — Tem certeza? — disse ela, chegando mais perto. A voz dela agora tinha bordas macias. Emma também avançou, preocupação no rosto. Ela estendeu a mão na direção dele antes de parar, como se não quisesse quebrar o momento.
Eu não conseguia desviar o olhar.
O rosto de Rafael mudou. A risada que parecia pronta desapareceu. Ele se curvou, respirando rápido. Por um segundo, tudo desacelerou — a multidão, os gritos — como se o mundo inteiro prendesse a respiração.
Então ele se dobrou para a frente e vomitou. Bateu nas tábuas com um som molhado, doentio. Escuro, molhado. Sangue.
Ele desabou no gelo, o corpo batendo com um baque pesado. O som fez meu estômago revirar.
O caos explodiu ao nosso redor. Os companheiros de time largaram os tacos, os patins raspando enquanto corriam até ele. Emma gritou, abrindo caminho a empurrões até o irmão. Jessica chorava, berrando o nome dele como se isso, sozinho, pudesse acordá-lo.
Alguma coisa dentro de mim se rompeu. Eu não pensei — só me mexi. Abri caminho à força pela parede de corpos e caí de joelhos ao lado dele.
— Saiam! — gritei, mais alto do que eu jamais tinha gritado na vida. Minha voz tremia, mas alcançou todo mundo. — Deem espaço pra ele. Agora.
O choque os paralisou por um instante, mas obedeceram.
Eu me inclinei, com as mãos trêmulas enquanto verificava as vias aéreas, o pulso. Fraco. Tão fraco que eu quase não conseguia sentir. Meu peito se apertou.
— Vamos, Rafael — sussurrei, inclinando a cabeça dele para trás e começando as compressões. Contei baixinho, firme, focada, como nos vídeos de saúde que eu tinha decorado. — Um, dois, três...
Jessica soltou um grito estridente atrás de mim.
— Tira as mãos dele! Você não é médica!
O calor subiu por mim, e eu virei a cabeça num estalo para ela.
— Então talvez você pare de gritar como uma idiota inútil e me deixe salvar a vida dele! — Minha voz saiu rachada e cortante, mais forte do que eu já tinha ouvido em mim mesma. — Cala a boca e se afasta, sua vadia burra!
Suspiros se espalharam ao nosso redor, mas eu não me importei. Minhas mãos pressionaram com mais força, num ritmo constante. Então me inclinei para soprar ar nele.
Foi aí que aconteceu.
No instante em que meus lábios encostaram nos dele, uma faísca me atravessou. Não eletricidade estática. Não era normal. Era algo mais fundo, elétrico, quente, vivo. Desceu pela minha coluna, se enroscando no meu estômago até eu quase engasgar. Cada vez que minhas mãos tocavam o peito dele, a faísca ficava mais forte, me puxando, me puxando para mais perto. Parecia errado e certo ao mesmo tempo.
O corpo dele deu um tranco. Um acesso de tosse escapou, e em seguida veio um som grave, profundo, bruto, nada humano. Um rosnado.
Eu congelei, as mãos ainda no peito dele. Os olhos dele se abriram de repente, ardendo vermelhos, como sangue fresco sob as luzes da arena. Por um segundo, eu não consegui respirar.
O que foi isso?
A mão dele disparou para cima, agarrando meu pulso com uma força surpreendente. Meu coração bateu com tudo contra as costelas.
Os lábios dele se entreabriram, e a voz saiu áspera e estranha, nada parecida com o Rafael que eu conhecia.
— Companheira.
A palavra vibrou dentro de mim, enviando outra onda de faíscas correndo sob a minha pele.
Os olhos dele tremularam e então, devagar, voltaram ao cinza-azulado normal. Ele piscou, atordoado, olhando em volta como se não soubesse onde estava. Depois o olhar dele desceu, direto para as minhas mãos pressionadas no peito dele, a nossa proximidade, meu rosto pairando sobre o dele.
Num instante, a expressão dele endureceu. Ele me empurrou para trás, a voz áspera.
— Sai de cima de mim, nerd.
O empurrão me derrubou no gelo, o frio ardendo através do meu jeans. Eu encarei ele de baixo, com a respiração presa na garganta.
Rafael tossiu, lutando para sentar. Jessica já estava ao lado dele, toda preocupada, passando o braço ao redor dele.
— Ai, meu Deus, amor, você tá bem? Você me assustou tanto!
Emma correu até mim, pegou meu braço e me ajudou a levantar. O rosto dela estava tenso de raiva.
— Sério? Ela acabou de salvar a sua vida, Rafael. E é assim que você fala com ela?
Ele nem olhou para mim. Só dispensou a Emma com um gesto, como se eu não fosse nada.
— Eu tô bem. Só... deixa pra lá.
As palavras cortaram mais fundo do que deveriam. Meu peito doía, mas não por causa do empurrão. Doía do jeito que ele me descartou, como se eu fosse invisível. De novo.
Mas eu não conseguia parar de pensar no que tinha acabado de ver: aqueles olhos, vermelho-sangue, o jeito que as faíscas tinham rastejado pelas minhas veias, a palavra que ele tinha dito. Companheira. Que diabos foi aquilo?
A voz da Emma continuou estalando em cima dele, mas tudo o que eu ouvia era meu próprio coração martelando.
A dor virou calor, borbulhando no meu peito até eu não aguentar mais.
— Você é um babaca, Rafael. — Minhas mãos tremiam, mas eu levantei o queixo. — Eu devia ter deixado você engasgar no seu próprio sangue. Talvez assim você aprendesse um pouco de educação.
A cabeça dele finalmente virou, surpresa tremulando nos olhos. Mas eu não deixei ele responder.
Eu me virei, piscando com força contra as lágrimas ardendo nos meus olhos. A arena zumbia com vozes, passos, pânico, mas tudo o que eu ouvia era o eco da palavra dele dentro da minha cabeça.
Companheira.
