Capítulo 1 PASSADO/PRÓLOGO

PASSADO....

PRÓLOGO

Muito antes de os grandes reinos dos lobos erguerem muralhas, antes de Alfas disputarem poder e antes de a ambição transformar alcateias em campos de guerra, existia apenas o equilíbrio.

Do alto do Reino Celestial, a Deusa da Lua observava o mundo que havia ajudado a criar. Todas as noites, seu brilho iluminava florestas, montanhas e rios. Era ela quem guiava os lobos durante as caçadas, confortava os solitários e abençoava os companheiros destinados.

Mesmo sendo adorada como uma divindade, havia um vazio que nenhum templo conseguia preencher.

Ela conhecia cada oração feita em seu nome, mas nunca havia sentido a chuva tocar sua pele. Nunca caminhara descalça pela terra, nunca ouvira o som de uma cachoeira de perto, nunca abraçara alguém sem que existisse uma distância entre deusa e mortal.

Seu maior desejo era simples.

Queria viver.

Queria sentir.

Queria amar.

Em uma manhã dourada, ela encontrou o Deus Sol no jardim celestial. O brilho dele fazia as flores desabrocharem por onde passava.

— Você parece inquieta.

Ela sorriu.

— Porque estou.

— O que deseja?

Ela respirou profundamente antes de responder.

— Quero descer à Terra.

O Deus Sol arqueou uma sobrancelha.

— Como uma deusa?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Como uma loba comum. Quero viver como eles vivem. Quero descobrir se o mundo é tão bonito quanto parece daqui.

O silêncio tomou conta do jardim.

Depois de alguns instantes, o Deus Sol sorriu.

— Se esse é o seu desejo, eu o concedo.

Ela o encarou surpresa.

— Mas há uma condição.

— Qual?

— Enquanto estiver entre os mortais, você não terá seus poderes. Não será imortal. Não poderá interferir como deusa. Será apenas mais uma loba vivendo entre humanos e lobisomens.

Ela não hesitou.

— Eu aceito.

Naquela mesma noite, seu corpo foi envolvido por uma luz prateada.

Quando abriu os olhos novamente, estava deitada no meio de uma floresta.

Pela primeira vez, sentiu o vento.

O perfume das árvores.

O frio da terra.

O canto dos pássaros.

Ela sorriu como uma criança descobrindo o mundo.

Dias depois, foi encontrada por patrulheiros da Alcateia Lua de Sangue.

O Alfa daquela época era respeitado por todos os reinos. Aos olhos de qualquer visitante, aquela alcateia parecia um lugar acolhedor. Ela recebeu abrigo, comida e um lar.

Durante os primeiros anos, acreditou ter tomado a decisão certa.

Fez amizades.

Aprendeu os costumes.

Trabalhou ao lado dos outros.

Riu.

Chorou.

Viveu.

Mas bastaram alguns anos para que a verdade começasse a aparecer.

Por trás dos sorrisos existiam mentiras.

Por trás das promessas existia ganância.

Lobos mais fracos eram explorados.

Ômegas eram tratados como inferiores.

Humanos eram caçados apenas por diversão.

Quem discordava das ordens do Alfa desaparecia misteriosamente.

Cada injustiça machucava seu coração.

Ela tentava ajudar discretamente, mas sem seus poderes era apenas mais uma loba.

Foi durante um inverno rigoroso que tudo mudou.

Enquanto caminhava pela floresta recolhendo ervas medicinais, encontrou um homem desacordado próximo ao rio.

Era humano.

Estava ferido.

Qualquer outro lobo teria encerrado a vida dele naquele instante.

Ela não.

Levou-o para uma cabana abandonada e cuidou de seus ferimentos durante dias.

Quando ele finalmente despertou, a primeira coisa que fez foi agradecer.

Sem medo.

Sem preconceito.

Sem saber quem ela realmente era.

A bondade daquele homem a surpreendeu.

Os dias passaram.

As visitas tornaram-se frequentes.

Conversavam durante horas.

Ele lhe mostrava como plantar.

Ela lhe ensinava quais ervas curavam doenças.

Ele ria das próprias piadas.

Ela descobriu que gostava daquele som.

Pela primeira vez, sentiu o coração acelerar por alguém.

Não era devoção.

Não era admiração.

Era amor.

Os anos passaram depressa.

Construíram uma pequena casa afastada da alcateia.

Viviam com simplicidade.

Ela jamais revelou sua verdadeira origem.

Não era necessário.

Para ele, bastava saber que ela era a mulher da sua vida.

Quando descobriu que estava grávida, correu para contar a notícia.

Ele a girou no ar, tomado pela felicidade.

Durante meses, fizeram planos.

Escolheram um nome.

Sonharam com o futuro da filha.

Mas a felicidade desperta inveja até nos corações mais cruéis.

A notícia de que uma loba carregava o filho de um humano espalhou-se pela Alcateia Lua de Sangue como fogo em mata seca.

Os anciãos chamaram aquela criança de abominação.

O Alfa decretou que nenhum sangue humano deveria sobreviver.

Naquela noite, dezenas de guerreiros cercaram a pequena casa.

O homem lutou até o último instante.

Mesmo sendo apenas um humano, enfrentou lobos muito mais fortes para proteger a mulher que amava.

Ela gritou.

Implorou.

Tentou impedir.

Mas era tarde.

Diante dos seus olhos, o homem caiu coberto de sangue.

Antes do último suspiro, segurou sua mão com dificuldade.

— Salve... nossa filha...

Essas foram suas últimas palavras.

Naquele instante, algo morreu dentro dela também.

Sem olhar para trás, levou as mãos à barriga já pesada pela gravidez e correu pela floresta enquanto os lobos a perseguiam.

Ela precisava sobreviver.

Precisava proteger a criança.

Mesmo que isso significasse abrir mão da própria felicidade.

As contrações começaram antes do amanhecer.

A dor atravessava seu corpo enquanto ela corria pela floresta, tropeçando entre raízes e pedras. O sangue escorria por suas pernas, mas ela continuava seguindo em frente. Atrás dela, os uivos dos guerreiros da Alcateia Lua de Sangue ficavam cada vez mais próximos.

Ela não podia parar.

Não enquanto sua filha ainda respirasse dentro de seu ventre.

Depois de caminhar sem forças por horas, avistou uma pequena casa de madeira escondida entre as árvores. Ali vivia Jorge, o Beta da alcateia, ao lado de sua companheira, Marina. Diferente dos demais, os dois eram conhecidos pela bondade e jamais concordaram com a crueldade que dominava a Lua de Sangue.

Foi ali que seu corpo não resistiu mais.

Caindo de joelhos, ela deu à luz uma linda menina sob o brilho da lua.

Assim que ouviu o primeiro choro da criança, as lágrimas escorreram por seu rosto.

— Minha pequena... meu milagre...

Mesmo exausta, envolveu a recém-nascida em um cobertor, beijou sua testa e sussurrou:

— Seu nome será Luara.

Com as últimas forças que ainda possuía, colocou a menina dentro de um pequeno cesto de palha.

Aproximou-se da porta da casa de Jorge e Marina.

Seu coração parecia partir em milhares de pedaços.

Ela queria criar aquela menina.

Queria vê-la dar os primeiros passos.

Ouvir sua primeira palavra.

Abraçá-la sempre que tivesse medo.

Mas sabia que, se permanecesse ali, sua filha morreria junto com ela.

Ajoelhou-se diante do cesto e acariciou delicadamente o rostinho da bebê.

— Me perdoe... um dia você entenderá por que precisei partir.

Bateu três vezes na porta.

Sem esperar que alguém abrisse, correu de volta para o interior da floresta, atraindo a perseguição para longe da criança.

Poucos instantes depois, Jorge abriu a porta.

Seu olhar encontrou o pequeno cesto.

Ao levantar o cobertor, viu uma recém-nascida dormindo serenamente.

Marina levou as mãos à boca, emocionada.

— Jorge... ela é apenas um bebê...

Ele olhou para a floresta escura e compreendeu que alguém havia feito o maior sacrifício que uma mãe poderia fazer.

Sem dizer uma palavra, tomou a criança nos braços.

— A partir de hoje... ela será nossa filha.

Naquele mesmo instante, os guerreiros da Lua de Sangue alcançaram a mulher.

Ela já não tinha forças para fugir.

Cercada por dezenas de lobos, permaneceu de pé.

O Alfa aproximou-se lentamente.

— Onde está a criança?

Ela sorriu pela primeira vez desde a morte do homem que amava.

— Vocês nunca a encontrarão.

O rosto do Alfa se contorceu de ódio.

— Digam onde ela está.

Ela ergueu o olhar para a lua.

— Minha filha viverá.

— Matem-na.

As espadas atravessaram seu corpo.

O sangue tingiu a relva.

Caída no chão, respirava com dificuldade.

Sua visão começava a desaparecer.

Mesmo assim, encontrou forças para pronunciar sua última promessa.

— Eu... juro... diante da Lua eterna... que todo o mal desta alcateia será destruído. Cada coração perverso será julgado. Nenhum inocente pagará pelos pecados dos cruéis... e minha filha viverá para ver um novo amanhecer.

Seu último suspiro deixou seus lábios.

O corpo da mulher permaneceu imóvel sobre a terra.

Mas sua alma voltou aos céus.

No instante em que recuperou sua verdadeira forma, a lua brilhou como jamais havia brilhado.

As nuvens escureceram.

O vento rugiu sobre toda a floresta.

Então, a Divindade da Lua abriu lentamente os olhos.

Não havia mais tristeza.

Apenas justiça.

Ela ergueu uma das mãos.

Um imenso clarão prateado cobriu toda a Alcateia Lua de Sangue.

Rajadas de luz desceram do céu como o próprio julgamento divino.

As casas dos perversos foram consumidas.

Os guerreiros que matavam por prazer viraram cinzas.

Os traidores desapareceram.

Os gananciosos queimaram sob a luz da própria lua que um dia disseram honrar.

Quando o silêncio tomou conta da floresta, apenas aqueles de coração puro permaneceram vivos.

Entre eles estavam Jorge e Marina, abraçados à pequena Luara.

Do alto dos céus, a Deusa da Lua contemplou a criança pela última vez.

Um leve sorriso surgiu em seus lábios.

— Viva, minha filha... um dia, o mundo conhecerá a verdadeira herdeira da Lua.

E, naquela noite, sobre as cinzas da antiga Alcateia Lua de Sangue, nasceu uma nova esperança.

A partir daquele dia, aquele lugar passaria a ser conhecido como Alcateia Lua de Prata. Ali, Luara cresceria sem imaginar que carregava em seu sangue um poder capaz de mudar o destino de todo o Reino dos Lobos. 🌙

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