Capítulo 2 LUARA
Capítulo 2 —
Aos dezessete anos, eu já tinha aprendido que algumas pessoas nascem para ser admiradas, enquanto outras parecem destinadas a viver tentando provar que merecem existir.
Infelizmente, eu fazia parte do segundo grupo.
A primeira coisa que senti quando abri os olhos naquela manhã foi o frio. Não importava a estação do ano, meu corpo parecia sempre incapaz de se aquecer sozinho. Puxei a manta até o queixo e fiquei alguns segundos encarando o teto de madeira do meu quarto, ouvindo o barulho dos galos ao longe e o cheiro do pão que minha mãe assava todas as manhãs.
Sorri sem perceber.
Se existia um lugar onde eu me sentia segura, era naquela casa.
— Luara! — a voz da minha mãe atravessou a porta. — Não vai me dizer que ainda está na cama.
Revirei os olhos.
— Já estou levantando.
— Você disse isso faz cinco minutos.
— Agora é verdade.
Ouvi a risada dela do outro lado da porta e não consegui evitar rir também.
Levantei devagar. Meu corpo era pesado e meus músculos sempre pareciam reclamar logo cedo. Passei as mãos pelos cabelos negros e lisos compridos, ainda bagunçados, e me olhei no pequeno espelho preso à parede.
O reflexo nunca mentia.
Meu rosto era delicado, meus olhos tinham um tom azul incomum, herdado de alguém que eu nunca conheci, mas meu corpo estava longe do padrão das garotas da alcateia.
Eu tinha curvas generosas.
Quadris largos.
Coxas grossas.
Peitos fartos.
Barriga arredondada.
Desde pequena escutava comentários sobre meu peso.
Alguns eram ditos pelas costas.
Outros, diretamente no meu rosto.
No começo doía.
Depois passei a fingir que não me importava.
Lavei o rosto, vesti um vestido simples de algodão e desci as escadas.
O cheiro de pão recém-assado invadiu meu nariz antes mesmo de chegar à cozinha.
Minha mãe colocava algumas frutas sobre a mesa enquanto meu pai terminava de afiar uma ferramenta de madeira que usaria na plantação.
— Bom dia, dorminhoca. — Jorge sorriu assim que me viu.
Aproximei-me e beijei sua bochecha.
— Bom dia, pai.
Depois abracei minha mãe por trás.
— E bom dia para a melhor cozinheira da alcateia.
Ela fingiu estar convencida.
— Só da alcateia?
— Do reino inteiro.
Ela riu e bagunçou meus cabelos.
Sentamos para tomar café.
Aquela era minha parte favorita do dia.
Conversávamos sobre qualquer assunto.
Meu pai contava histórias engraçadas.
Minha mãe reclamava que ele exagerava nos detalhes.
Eu ria dos dois.
Por alguns minutos, esquecia completamente que existia um mundo lá fora.
Depois do café, ajudei minha mãe a guardar a cozinha antes de pegar uma cesta de vime.
— Vai colher ervas outra vez? — perguntou meu pai.
Confirmei com a cabeça.
— Dona Célia está com febre desde ontem. Quero preparar um chá para ela.
Ele sorriu daquele jeito que sempre fazia quando tinha orgulho de mim.
— Você tem um coração bonito, filha.
— Foi você quem me ensinou.
Saí de casa sentindo o vento frio tocar meu rosto.
A Alcateia Lua de Prata já estava desperta.
Mulheres varriam as calçadas.
Crianças corriam pela rua principal.
Os guerreiros treinavam perto da arena.
Alguns moradores me cumprimentavam com carinho.
— Bom dia, Luara!
— Como está sua mãe?
— Obrigada pelo remédio da semana passada.
Retribuía cada sorriso.
Gostava de ajudar.
Nunca fui forte o suficiente para lutar como os outros lobos.
Mas podia aliviar uma dor.
Preparar um remédio.
Escutar alguém que precisasse conversar.
Talvez esse fosse meu lugar no mundo.
Enquanto caminhava em direção à floresta, ouvi gargalhadas atrás de mim.
Nem precisei me virar para saber quem era.
— Olhem só... a humana resolveu passear.
Suspirei discretamente.
Continuei andando.
— Ei, Luara! — outra voz gritou. — Cuidado para a ponte não quebrar quando você passar.
As risadas aumentaram.
Fechei os olhos por um instante.
Respira.
Só continua andando.
Foi o que fiz.
Mas eles não desistiram.
— Dizem que quando completar dezoito anos nem loba vai despertar.
— Claro que não. Até a Deusa da Lua deve ter vergonha dela.
Aquelas palavras acertaram meu peito como uma pedra.
Não porque eu acreditasse nelas.
Mas porque eram repetidas há anos.
Todos sabiam que, aos dezoito anos, cada jovem despertava sua loba durante a celebração da lua cheia.
Todos.
Menos eu... pelo menos era isso que eles acreditavam.
E, para ser sincera, eu também começava a acreditar.
Continuei caminhando até desaparecer entre as árvores.
Somente quando tive certeza de que estava sozinha permiti que uma lágrima escorresse.
Limpei o rosto rapidamente.
— Não vou chorar por causa deles... não hoje.
Ajoelhei-me perto de um arbusto repleto de folhas medicinais e comecei a colhê-las com cuidado.
A floresta sempre me trazia paz.
Ali ninguém me julgava.
Os pássaros não se importavam com meu corpo.
As árvores não perguntavam por que eu ainda não tinha uma loba.
O vento apenas me abraçava em silêncio.
Foi então que senti uma brisa diferente.
Suave.
Quase como uma carícia.
Levantei a cabeça lentamente.
Por um breve instante, tive a estranha sensação de que alguém me observava.
Olhei ao redor.
Não havia ninguém.
Ainda assim... meu coração acelerou sem motivo aparente.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquela sensação estranha.
— Deve ser coisa da minha cabeça...
Voltei a colher as folhas de erva-prata, separando apenas as mais saudáveis. Dona Célia dizia que eu tinha mãos delicadas para cuidar das plantas e que, por isso, os chás preparados por mim sempre faziam efeito mais rápido.
Gostava de acreditar nela.
Depois de encher metade da cesta, caminhei até um pequeno riacho que cortava a floresta. A água cristalina refletia a luz do sol entre as copas das árvores. Ajoelhei-me na margem, lavei as mãos e aproveitei para molhar o rosto.
Sorri ao ver pequenos peixes nadando próximos às pedras.
— Vocês têm sorte... não precisam lidar com lobos mal-humorados.
Minha própria piada me fez rir baixinho.
Na maior parte do tempo, eu era assim.
Mesmo quando a tristeza insistia em aparecer, tentava encontrar algum motivo para continuar sorrindo.
Minha mãe dizia que meu coração era teimoso demais para desistir das pessoas.
Talvez ela tivesse razão.
Enquanto voltava para a aldeia, encontrei uma senhora tentando carregar um saco de farinha muito maior do que ela.
— Dona Marta!
Corri até ela.
— A senhora vai machucar as costas.
Ela sorriu aliviada ao me ver.
— Minha filha ficou doente e eu precisava buscar isso sozinha.
Sem pensar duas vezes, coloquei o saco sobre os ombros.
Era pesado.
Muito pesado.
Mas consegui levá-lo até a casa dela.
— Você é um anjo, Luara.
Balancei a cabeça, sem jeito.
— Não sou um anjo. Só não gosto de ver ninguém passando dificuldade.
Antes que eu pudesse ir embora, ela segurou minha mão.
— Nunca escute aqueles jovens. Eles não conhecem seu verdadeiro valor.
Meu sorriso vacilou por um instante.
Será que existia algum valor em mim?
Agradeci o carinho e segui meu caminho.
Quando cheguei em casa, minha mãe já organizava algumas roupas lavadas no varal.
Assim que me viu, franziu a testa.
— Você chorou.
Meu coração disparou.
— Não...
Ela caminhou até mim e segurou meu rosto entre as mãos.
— Eu conheço cada expressão sua desde que você era um bebê.
Suspirei.
Mentir para Marina era impossível.
— Foram os mesmos de sempre.
Ela fechou os olhos por um instante.
Eu sabia que estava tentando controlar a própria raiva.
— Um dia eles vão se envergonhar de tudo o que fazem com você.
— Mãe...
— Não, filha. Escute o que estou dizendo.
Ela acariciou meu cabelo.
— A bondade sempre encontra um caminho. Pode demorar, mas encontra.
Sorri apenas para tranquilizá-la.
Não queria que sofresse por minha causa.
Naquela tarde, preparei o chá de Dona Célia, entreguei alguns remédios para outras famílias e ajudei meu pai a separar sementes para o próximo plantio.
Era uma vida simples.
E, apesar de tudo, eu gostava dela.
No fim do dia, toda a alcateia começou a se reunir na praça principal.
As crianças corriam entre as barracas.
Os comerciantes organizavam seus produtos.
Os guerreiros conversavam próximos ao centro de treinamento.
Foi então que ouvi o som de cascos.
Todos se afastaram da rua principal.
Levantei os olhos.
Um grupo de cavaleiros atravessava a aldeia.
No centro deles vinha Diego.
Alto.
O cabelo negro caía levemente sobre a testa.
Os olhos dourados percorriam cada detalhe ao redor como se tudo lhe pertencesse.
E, de certa forma, um dia pertenceria.
Ele seria o próximo Alfa.
Atrás dele caminhavam seus amigos, sempre rindo alto.
Tentei passar despercebida.
Baixei a cabeça e continuei andando.
Mas o destino parecia gostar de brincar comigo.
Meu ombro esbarrou no dele.
A cesta escapou das minhas mãos.
As ervas espalharam-se pela rua.
— Me desculpe... — ajoelhei-me rapidamente para recolher tudo.
Antes que conseguisse pegar a primeira folha, uma bota esmagou parte das ervas.
Levantei os olhos devagar.
Diego.
Ele não demonstrava raiva.
Nem simpatia.
Apenas indiferença.
— Preste mais atenção por onde anda.
Sua voz era fria.
Engoli em seco.
— Foi sem querer.
Ele sequer respondeu.
Continuou andando como se eu nem existisse.
Os amigos riram enquanto passavam.
— Até para andar ela atrapalha.
Esperei todos irem embora antes de terminar de recolher o que ainda podia ser aproveitado.
Quando me levantei, percebi que meu pai havia visto toda a cena de longe.
Seu maxilar estava travado.
Ele caminhou até mim.
— Está tudo bem?
Forcei um sorriso.
— Está.
Ele olhou na direção em que Diego havia desaparecido.
Pela primeira vez, vi tristeza em seus olhos.
Não por mim.
Mas pelo futuro.
Naquela noite, durante o jantar, quase ninguém falou.
Minha mãe tentava mudar de assunto.
Meu pai permanecia calado.
Depois de guardar a louça, subi para o quarto.
Abri a janela.
A lua cheia iluminava toda a floresta.
Era impossível não admirá-la.
Desde pequena, eu sentia uma ligação inexplicável com aquele brilho prateado.
Como se, de alguma forma, ele me chamasse.
Apoiei os braços no parapeito.
— Será que um dia eu vou descobrir por que sou tão diferente?
O vento soprou suavemente.
Fechei os olhos.
Por um breve instante, tive a impressão de ouvir uma voz distante.
Quase um sussurro.
Tão baixo que parecia vir da própria lua.
— Falta pouco...
Abri os olhos assustada.
Olhei para todos os lados.
Não havia ninguém.
Talvez fosse apenas minha imaginação.
Ou talvez...
A lua tivesse acabado de responder à minha pergunta.
No dia seguinte, faltariam exatamente trinta dias para o meu aniversário de dezoito anos.
