Capítulo 3 MARINA

CAPÍTULO 3 — MARINA/Mãe de Luara.

Há pessoas que chegam à nossa vida como respostas para perguntas que nem sabíamos fazer.

Luara foi assim.

Eu nunca carreguei uma filha no ventre. Meu corpo não foi capaz disso, e durante anos carreguei esse peso em silêncio, sorrindo para as outras lobas que anunciavam gravidezes e apresentavam filhotes como se o mundo inteiro precisasse saber. Eu aplaudia. Abraçava. Dizia que era lindo.

E chorava sozinha quando chegava em casa.

Jorge nunca me cobrou nada. Nunca disse uma palavra que me magoasse. Mas eu via nos olhos dele a mesma dor que tentava esconder nos meus. Éramos dois lobos completos em tudo — menos naquilo que mais desejávamos.

Então, naquela noite, a Deusa da Lua respondeu.

Não com palavras. Não com sinais no céu.

Com três batidas suaves na nossa porta.

Quando Jorge abriu e encontrou aquele cesto de palha na soleira, eu estava atrás dele, com o coração na garganta. Ele se abaixou devagar. Levantou o cobertor com as pontas dos dedos.

E ali estava ela.

Tão pequena que cabia inteira nos braços dele.

Os olhinhos fechados. A boquinha entreaberta. As mãozinhas cerradas como se dormisse guardando algo precioso.

— Jorge... — foi tudo que consegui dizer.

Ele me olhou. Os olhos dele brilhavam de um jeito que eu nunca tinha visto antes.

Sem dizer uma palavra, colocou a bebê nos meus braços.

E foi naquele instante que entendi o que é amor incondicional.

Não era sangue. Não era cheiro de filhote. Não era nada que pudesse ser explicado pela natureza dos lobos.

Era só aquela criança me olhando como se eu fosse o mundo inteiro.

Dei a ela o nome que já carregava dentro de mim sem saber: Luara.

Criá-la não foi fácil.

Desde pequena, Luara adoecia com facilidade. Um vento mais frio já bastava para deixá-la de cama por dias. Enquanto as outras crianças corriam pela aldeia sem nem transpirar, minha filha voltava para casa vermelha de febre, mal conseguindo se arrastar até o quarto.

Passei mais noites em claro do que consigo contar.

Aprendi sobre ervas medicinais não por curiosidade — aprendi porque minha filha precisava. Decorei cada chá, cada compressa, cada combinação de folhas que aliviasse aquele corpinho que parecia sempre em guerra consigo mesmo.

Jorge ficava do lado dela na cama quando a febre subia, contando histórias engraçadas com aquela voz grave até ela adormecer rindo mesmo sem forças para rir.

Era a nossa rotina.

E eu não trocaria por nada.

O que machucava era outra coisa.

Não era a imunidade baixa. Não era a lentidão nas corridas. Não era o fato de ser a mais fraca da alcateia.

Era ver Luara olhar para os outros jovens e tentar, com toda a sua boa vontade, se encaixar em um mundo que não estava disposto a abrir espaço para ela.

Eu via como eles riam.

Via os olhares de lado. Os cochichos. As piadinhas sobre o peso dela ditas em voz alta o suficiente para ela ouvir.

Minha filha nunca reclamava para mim. Sempre chegava em casa com aquele sorriso teimoso, perguntando o que tinha para jantar, abraçando o pai, me ajudando a dobrar roupa.

Mas eu conhecia cada expressão do rosto dela desde que ela cabia inteira no meu colo.

Sabia quando ela tinha chorado.

Sabia quando estava guardando algo.

Sabia quando a dor estava maior do que ela conseguia esconder.

E em dias assim, eu queria ir até cada um daqueles jovens e lembrar que a força de um lobo se mede pelo que ele protege — não pelo que consegue destruir.

Jorge me segurava.

— Deixa ela aprender a se levantar sozinha, Marina. Você não vai poder estar sempre lá.

Ele tinha razão.

Mas isso não tornava mais fácil ficar parada.

O que me partia o coração de um jeito diferente era perceber que Luara queria pertencer.

Não queria ser tratada como especial. Não queria privilégios.

Queria apenas sentir o que todos ao redor sentiam. Queria ter sua loba. Queria ouvir aquela voz interior que guiava cada lobo desde o primeiro despertar.

Às vezes eu a encontrava à janela, tarde da noite, olhando para a lua com uma expressão que eu não sabia nomear direito.

Não era tristeza.

Era saudade de algo que ela ainda não tinha vivido.

E eu ficava ali, na soleira do quarto, sem fazer barulho, só olhando para ela pensar.

Rezava em silêncio para a Deusa da Lua todas as noites.

Cuide dela. Ela é sua também.

Jorge dizia que eu exagerava. Que Luara era mais forte do que parecia. Que uma menina capaz de caminhar léguas pela floresta doente para levar remédio a uma vizinha não era fraca — era feita de um material diferente.

Eu concordava.

Só queria que o mundo também enxergasse isso.

Certa manhã, quando ela tinha uns quinze anos, fui até o quarto dela bem cedo e a encontrei dormindo com um livro aberto no peito.

Tinha ficado acordada lendo histórias dos antigos reinos dos lobos.

Sorri sem querer.

Aquela menina havia chegado até mim num cesto de palha, numa noite fria, deixada por alguém que precisou partir antes de poder criar a filha que tanto amava.

E se tornara a coisa mais bonita que eu já tinha protegido.

Cobri ela com a manta. Fechei o livro devagar.

Antes de sair do quarto, parei na porta.

— Um dia eles vão ver quem você é, minha filha.

Ela não ouviu.

Mas eu precisava dizer mesmo assim.

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