Capítulo 4 Diego Black
CAPÍTULO 4 — DIEGO BLACK
Eu não me lembro de um dia em que não soube exatamente quem eu era.
Filho de Alfa. Futuro líder. Diego Black.
Não era título. Era identidade. A diferença é que título você carrega no nome e identidade você carrega nos ossos. Desde que aprendi a segurar uma espada, meu pai me ensinou que ser Alfa não era privilégio — era responsabilidade que pesava mais do que qualquer lâmina. Que um dia aquela alcateia inteira estaria sob minha responsabilidade. Cada vida. Cada decisão. Cada consequência.
Eu carregava isso com orgulho.
Não por arrogância.
Por preparo.
Enquanto os outros garotos da minha geração passavam as tardes livres às margens do rio ou perdendo tempo em jogos sem sentido, eu treinava. Acordava antes do sol nascer e só encostava a cabeça no travesseiro quando o céu já estava fechado de estrelas. Meu pai exigia isso. Eu exigia mais ainda de mim mesmo.
Porque sabia o que estava por vir.
E não tinha a menor intenção de chegar despreparado.
A Alcateia Lua de Prata era forte. Meu pai construiu isso ao longo de décadas com pulso firme e decisões que nem sempre agradavam a todos — mas que mantinham a ordem e o respeito dos reinos vizinhos.
Eu respeitava o trabalho dele.
Mas enxergava o que ele não queria ver.
A alcateia tinha afrouxado.
Não de um dia para o outro. Foi devagar, silencioso, como ferrugem em metal que ninguém limpa. Os jovens treinavam quando tinham vontade. Os guerreiros mais velhos já não exigiam o máximo dos mais novos. E havia uma tolerância crescente com lobos fracos — como se fraqueza fosse uma condição e não uma escolha.
Aquilo me incomodava mais do que qualquer coisa.
Fraqueza não era condição. Era falta de pulso firme. Falta de cobrança. Falta de alguém que olhasse nos olhos de cada lobo dessa alcateia e dissesse: você pode mais, então vai fazer mais.
Quando eu assumisse, isso mudaria.
Treino todos os dias. Sem exceção. Sem desculpa de chuva, de cansaço, de qualquer outra coisa que os fracos inventam para justificar a própria acomodação. Cada lobo desta alcateia teria o potencial que sempre teve — só precisava de alguém disposto a arrancar isso deles na força, se necessário.
Não seria amado por isso.
Não precisava ser.
Alfa não é eleito por popularidade. É respeitado por resultado. E resultados exigem disciplina, sacrifício e a disposição de ser o vilão da história enquanto os outros ainda não enxergam o que você está construindo.
Eu estava disposto.
E então havia Katrina.
Se existia uma coisa da qual eu tinha absoluta certeza — mais do que meu próprio nome, mais do que minha posição, mais do que qualquer profecia ou tradição desta alcateia — era que Katrina seria minha luna.
Não era desejo juvenil. Não era encantamento passageiro.
Era convicção.
Nos conhecíamos há anos. Crescemos lado a lado nos treinos, nos confrontos, nas discussões que nunca terminavam em empate porque nenhum dos dois tinha o hábito de ceder. Havia uma tensão entre nós que todo mundo na alcateia já tinha percebido — aquele tipo de atração que não precisa ser anunciada porque se manifesta na forma como dois corpos ocupam o mesmo espaço.
Ela não me obedecia.
E eu gostava disso.
Katrina me enfrentava de igual para igual. Discordava na minha cara quando achava que eu estava errado. Não abaixava o olhar quando eu aumentava a voz. Tinha aquele fogo nos olhos dourados que não se apagava nem quando estava exausta depois de horas de treino.
Era o tipo de mulher que ficava ao lado de um Alfa não porque precisava de proteção — mas porque escolhia ficar.
Essa diferença importava para mim.
Luna fraca ao lado de Alfa forte é fraqueza exposta. Os outros reinos lêem isso. Os lobos dentro da própria alcateia lêem isso. A luna não é enfeite — é a metade que sustenta tudo que o Alfa constrói quando ele vira as costas para ir à guerra.
Katrina era capaz disso e de muito mais.
Eu a conhecia bem o suficiente para saber.
E nos momentos em que estávamos só nós dois — longe dos olhos da alcateia, longe do peso dos títulos e das expectativas — ela era diferente. Não mais suave. Katrina nunca seria suave. Mas havia uma intimidade entre nós que não precisava de palavras para existir. A forma como ela chegava perto sem precisar de convite. Como discutia comigo por horas e depois ficava em silêncio encostada no mesmo lugar que eu, olhando para o mesmo horizonte.
Ela entendia o que eu carregava sem que eu precisasse explicar.
Poucos entendiam.
Ela entendia.
E quando a Deusa da Lua confirmasse o que eu já sabia — quando o vínculo se formasse entre nós dois diante da fogueira — tudo estaria no lugar certo.
Eu assumiria a alcateia.
Ela estaria ao meu lado.
E juntos, construiríamos algo que duraria muito mais do que a memória de qualquer Alfa que veio antes de mim.
Era só uma questão de tempo.
Diego Black 18 anos

