Capítulo 5 Katrina

CAPÍTULO 5 — KATRINA

Desde pequena aprendi que o mundo não dá nada de graça para quem nasce loba.

Você corre mais rápido, treina mais forte, sangra mais vezes e ainda assim precisa provar, todo dia, que merece o espaço que ocupa. Aprendi isso observando as mulheres da alcateia. As que reclamavam ficavam para trás. As que agiam chegavam onde queriam.

Eu sempre escolhi agir.

Por isso estava onde estava.

Por isso tinha Diego Black.

Ele não era fácil. Nunca foi.

Diego era daquele tipo de homem que consome tudo ao redor sem perceber — não por maldade, mas porque simplesmente existe de forma muito intensa para o espaço que ocupa. Voz grave que cortava qualquer conversa ao meio. Olhos dourados que não pediam licença para analisar cada detalhe de quem ele encarava. Uma presença que chegava antes dele em qualquer ambiente e que ficava no ar depois que ele saía.

Crescemos juntos nos treinos e eu aprendi cedo que discutir com Diego era inútil se você não tivesse argumento sólido nas mãos. Ele não ouvia opinião. Ouvia lógica. Ouvia força. Ouvia quem estava disposto a defender o próprio ponto sem recuar.

Eu era assim.

Acho que foi isso que o prendeu.

Lembro da primeira vez que ele me olhou de um jeito diferente. Tínhamos uns quinze anos e eu havia derrubado um guerreiro três anos mais velho do que eu durante um treino. Quando me levantei e limpei o sangue do lábio, Diego estava parado me observando com aquela expressão fechada que ele usava quando estava processando algo que não esperava.

Não disse nada naquele dia.

Mas a partir dali, os olhos dele sempre me encontravam.

Com o tempo, o que havia entre nós deixou de ser apenas olhar.

Diego não era romântico. Não trazia flor. Não dizia palavras bonitas em voz baixa como nos contos que as mulheres mais velhas gostavam de repetir à beira da fogueira. Ele demonstrava o que sentia de outro jeito — aparecendo. Estando presente de um modo que, vindo de um homem que passava a vida inteira dentro da própria cabeça, dizia muito mais do que qualquer discurso.

Quando chegava perto de mim, o barulho do mundo diminuía.

Não porque ele era suave. Era tudo menos suave.

Mas havia algo entre nós dois que funcionava como uma chave dentro de uma fechadura — encaixava sem precisar forçar. Eu entendia o peso que ele carregava sem que ele precisasse explicar. E ele me via. De verdade. Não o que eu aparentava. Não o que os outros projetavam em mim.

Me via.

E isso valia mais do que qualquer palavra.

Nas noites em que ficávamos sozinhos, longe dos olhos da alcateia, Diego era diferente. Não mais contido. Não mais calculado. Havia uma intensidade nele que ele guardava embaixo de sete camadas durante o dia — e que só aparecia quando a plateia sumia.

Quando ele me tocava, tocava inteiro.

Não havia hesitação. Não havia dúvida. Era aquele tipo de presença que fazia você entender, sem que nenhuma palavra fosse dita, que naquele momento você era a única coisa que existia para ele. Suas mãos conheciam cada parte do meu corpo com uma segurança que só vem de quem não tem medo de querer. Ele me queria sem pedir desculpa por isso. Sem disfarçar. Sem diminuir.

E eu correspondia da mesma forma.

Porque com Diego, eu também não precisava fingir que era menos do que era.

Podia ser exatamente quem eu era — afiada, intensa, exigente — e ele não recuava. Pelo contrário. Era como se cada camada que eu revelava apenas confirmasse o que ele já havia decidido.

Que eu era a única.

E eu sabia disso.

Não por vaidade. Por observação.

Diego Black não olhava para outras mulheres da forma que me olhava. Não havia abertura naquele olhar para mais ninguém. Ele era fechado por natureza — com o mundo, com a alcateia, com o próprio pai às vezes. Mas comigo havia algo diferente que eu reconhecia e guardava com cuidado.

Era meu.

E eu não pretendia abrir mão disso.

Luna.

A palavra vivia na minha cabeça como uma promessa prestes a se cumprir.

Sabia o que significava. Não só o título — eu nunca me importei muito com título pelo título. O que importava era o que vinha junto. A posição. A responsabilidade. A possibilidade de construir ao lado de um homem como Diego algo que durasse décadas e que os outros reinos respeitassem.

Eu era capaz disso. Sabia que era.

E Diego sabia também.

Tínhamos conversado sobre o futuro mais de uma vez — não com aquela romantização ingênua de quem ainda não entende o peso de liderar, mas com a frieza de quem olha para o que está por vir e já está calculando cada passo. Falávamos sobre a alcateia. Sobre os lobos que precisariam de treino mais duro. Sobre as alianças que valiam a pena manter e as que eram desperdício de energia. Sobre como a Lua de Prata poderia se tornar algo muito maior do que era.

Nossas visões se alinhavam quase perfeitamente.

Quase — porque às vezes eu era mais direta do que ele queria ouvir e ele empacava no orgulho por tempo demais antes de admitir que eu tinha razão.

Mas até nisso havia algo que funcionava entre nós.

A celebração da fogueira estava chegando.

E com ela, a confirmação de tudo que eu já sabia.

O vínculo entre Alfas e suas lunas se revelava naquela noite — a Deusa da Lua selando o que o destino havia escolhido. Era tradição. Era lei entre os lobos.

Eu não tinha dúvida de que seria eu.

Como poderia ser outra?

Diego e eu éramos a resposta lógica um para o outro. A loba mais forte ao lado do futuro Alfa mais preparado que a alcateia havia produzido em gerações. Era quase poético demais para não ser verdade.

Não havia espaço na minha cabeça para outra possibilidade.

Não havia espaço no meu coração para medo.

Havia apenas aquela certeza tranquila e inabalável que carrego desde que aprendi a confiar no meu próprio instinto.

Diego seria meu.

E eu seria luna.

Quem tentasse mudar isso — destino, deusa ou qualquer ser vivo que ousasse se colocar no meu caminho — descobriria muito rapidamente que eu não tinha o hábito de perder o que considero meu.

Nunca tive.

E não ia começar agora.

KATRINA 18 ANOS

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