Capítulo 3
Quando o salão inteiro ficou em silêncio, eu conseguia ouvir meu coração batendo nos ouvidos. Todo mundo prestava muita atenção no que estava acontecendo entre o Alfa Ethan e o Alfa James, enquanto eu só ficava ali, sentada, pasma. Eu normalmente tinha mil coisas passando pela cabeça, mas agora… estava completamente vazio.
Minha loba, por outro lado, estava fora de controle. Ela pulava e se agitava, deixando minha cabeça latejando, mas era fácil ignorar com aquela beleza parada bem na minha frente. Mantendo o Alfa James suspenso do chão e apavorando quase todo mundo.
Eu nem percebi o Ryker se levantando e ficando bem ao meu lado até o Alfa Ethan se virar na nossa direção e rosnar para ele.
— Tá tudo bem. Eu sou o irmão dela — disse Ryker.
E o Alfa Ethan passou os olhos por ele de cima a baixo e então olhou de volta para o Alfa James.
Ele largou o Alfa James no chão — nada gentil —, e então o Alfa Ethan olhou para mim, e o rosto inteiro dele suavizou, deixando de lado aquela expressão assustadora da criatura que, um segundo atrás, estava ameaçando um homem.
— Posso te acompanhar lá fora, pra gente conversar num lugar mais… reservado? — perguntou o Alfa Ethan, olhando ao redor para todo mundo que nos encarava.
Eu ainda estava sem palavras, e tudo o que consegui fazer foi assentir. Peguei minha clutch, e ele me ofereceu o braço para me conduzir para fora; e, no segundo em que nos tocamos, eu senti faíscas subirem pelo meu braço e se espalharem pelo corpo inteiro, como eletricidade. Ele me ajudou a descer as escadas da frente da casa da matilha até chegarmos aos jardins mal iluminados lá fora.
Conseguimos chegar até a fonte, eu me sentei na borda de pedra, e o Alfa Ethan sentou ao meu lado.
— Alfa Ethan Embry — eu finalmente consegui dizer, com a voz presa na garganta.
— É. Não me surpreende você já ter ouvido falar de mim — ele disse.
— Bom, todo mundo sabe quem você é. A segunda matilha de lobisomens mais poderosa do país — eu falei.
E esse homem é o MEU companheiro? Eu ainda não conseguia acreditar. Não importava quantas vezes eu ouvisse.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
— Ah, desculpa. Eu sou a Summer. Summer Everstone — eu disse.
— Você é filha do Everett? — ele perguntou.
Eu vi uma mudança no jeito dele assim que teve a confirmação de quem eu era. No fundo, eu não achava que meu pai realmente estivesse certo sobre meu companheiro me rejeitar… mas talvez ele estivesse. Mas por que eu ser filha do Everett teria qualquer coisa a ver com isso? Eu comecei a ficar um pouco confusa.
— Sou — eu disse, sentindo o estômago se revirar.
De repente, eu não gostei nada do rumo que aquilo estava tomando.
— Eu te vi chegar com o Ryker. Mas eu achei que você fosse só mais uma integrante da matilha. Não a irmã dele. Pra ser sincero, eu sempre achei que o Ryker fosse filho único — disse Ethan.
E eu assenti.
— É… isso não me surpreende — eu disse, finalmente desviando os olhos dele e baixando o olhar.
Eu fiquei um pouco envergonhada por as pessoas acharem que o Ryker é filho único. Meu pai nunca nem me mencionou fora da matilha. Eu devia ter imaginado. Não sei por que ainda me surpreendo.
E então o pensamento me acertou em cheio. Aquele que eu já estava esperando. A rejeição. Ele não parecia nem um pouco impressionado por eu ser filha do Everett, então provavelmente não queria ter nada a ver com a nossa família. E eu não tiro a razão dele. Meu pai é um baita de um babaca. Por que ele iria querer se envolver com a minha família? E por que iria querer ser companheiro de uma Everstone?
— Está tão bonito aqui fora. Tão tranquilo — disse Ethan.
E eu assenti, olhando em volta. Não tinha ninguém do lado de fora da casa da matilha. Estavam todos no salão, se divertindo de verdade. E eu invejei aquilo naquele momento. Estarem se divertindo tanto. Enquanto Ethan olhava ao redor, eu consegui olhar de volta para ele.
— Tá. Se você vai me rejeitar, dá pra só acabar logo com isso? Isso está me torturando agora — eu admiti, sem rodeios.
Isso deve ter pego ele de surpresa, porque ele me encarou com os olhos arregalados e uma expressão indecifrável no rosto.
— Por que você acha que eu trouxe você aqui pra te rejeitar? — ele perguntou.
— Porque aqui é reservado e porque eu vi a sua cara quando você descobriu quem eu era. Você não pareceu nada impressionado por eu ser filha do Everett — eu expliquei.
E ele ficou me olhando por um bom tempo. Eu vi um monte de emoções passando por aqueles olhos verde-esmeralda lindos. Eles até ficaram pretos em um momento, o que significava que o lobo dele estava tentando vir à tona. Eu não sabia o que pensar da reação dele, e ele não dizia nada. Parecia que ele estava lutando por dentro com o próprio lobo, e a única coisa que eu podia fazer era esperar. Eu sei como nossos lobos podem ser teimosos quando querem.
— Eu não tenho absolutamente nenhuma intenção de te rejeitar. Eu juro. As nossas duas matilhas não se dão muito bem — ele admitiu.
— Por quê? Eu nunca ouvi falar de nenhuma rixa entre a minha matilha e a sua — eu disse.
— Seu pai provavelmente nem fala mais sobre isso. Ele faz de tudo pra fingir que a gente nem existe. Ele odeia a gente nesse nível — disse ele.
E eu admiti que nunca tinha ouvido falar. Meu pai nunca tinha mencionado aquele nome nem Ethan Embry perto de mim, nem em casa, nem em lugar nenhum. Então eu não entendia essa rixa.
— Por que vocês não se dão bem? — eu perguntei.
— Sinceramente, eu não tenho muita certeza. A rixa começou com o seu pai e o meu pai. Mas desde que o meu pai morreu, o seu pai continuou com isso comigo. Agora ele só odeia a nossa matilha, não importa quem esteja no comando — Ethan explicou.
— É. Eu acredito. Ele é exatamente assim — eu disse.
— O que você acha que seu pai vai fazer com você quando descobrir que a gente é companheiro? Ele não te machuca também, machuca? Eu já ouvi histórias sobre o jeito como ele trata as pessoas da própria matilha — disse Ethan.
E eu fiquei ali pensando nisso. Pensei mais cedo, quando eu só respondi ele e ele me bateu.
“Não. Mas eu não sei o que ele vai fazer. Sinceramente, não consigo responder.” Eu menti.
“Bom, esse é mais um motivo pra gente ter cuidado aqui. Seu pai não vai ficar feliz com isso. Eu não quero que você se machuque por causa disso.” Ele disse.
“Eu dou conta do meu pai. Tenho feito isso há dezoito anos.” Eu disse. E ele me olhou com dúvida e com outra coisa nos olhos. Parecia amor, eu acho. Não que eu realmente saiba como é isso ainda. Ficou óbvio pra mim que ele sabia mais sobre o meu pai do que eu imaginava. Ele provavelmente sabia tudo sobre o meu pai, e era por isso que estava preocupado comigo. Eu realmente não sabia. E não ia perguntar. Eu não queria saber se ele sabia das atividades “por fora” do meu pai pra ganhar mais dinheiro.
“Eu não quero te deixar naquela matilha se você estiver em perigo. Você é a minha companheira, e eu quero te levar pra casa comigo pra te proteger. Então você precisa ir, pegar suas coisas e sair da matilha. Eu não tenho permissão pra entrar no território da matilha. Mas ele não pode me impedir de entrar se eu estiver vindo te buscar.” O Alfa Ethan disse.
“Eu não sei como ele vai simplesmente deixar eu sair pela porta da frente. E eu tenho a minha mãe e o meu irmão pra pensar. Eu não sei se eu quero deixar eles pra trás. Principalmente a minha mãe. Ela não é tão forte quanto o meu irmão.” Eu suspirei, sabendo o quanto aquilo ia machucar ele.
A gente já estava sentado ali havia um tempinho conversando quando o Ryker veio até nós. Ethan e Ryker apertaram as mãos um do outro. Eles já tinham se encontrado antes, e, obviamente, não tinha nenhuma rixa entre os dois. Eles pareciam bem educados um com o outro.
“Summer. A gente já devia ir. Acabei de mandar o carro encostar lá na frente da sede da matilha. Desculpa, Ethan, eu dei pra vocês dois o máximo de tempo que deu. Eu tive que segurar o Alfa James o quanto eu pude, mas ele provavelmente já está no telefone com o nosso pai. Então é melhor eu te levar pra casa antes que ele venha atrás de você.” Ryker disse. E eu assenti com a cabeça.
“Alfa James. Ele é amigo do seu pai?” Ethan perguntou.
“É. O próprio cretino.” Eu admiti, desviando o olhar do Ethan.
“Aqui está o número do celular dela. O pai nunca se dá ao trabalho de mexer no telefone dela. Ele acha que ela nunca recebe ligação importante, então é seguro ligar pra ela por ali.” Ryker disse, entregando ao Ethan um pedaço de papel.
“Eu agradeço. Obrigado.” Ethan disse, pegando o papel.
“A gente tem mesmo que ir? Eu não tô muito a fim agora.” Eu disse, olhando pro Ethan. E ele segurou meu rosto com as mãos, e eu senti de novo faíscas atravessarem o meu corpo inteiro, como eletricidade. Foi incrível.
“Tá tudo bem. A gente vai se ver de novo bem logo. Eu prometo.” Ele disse. E se inclinou pra frente e beijou a minha testa.
Ryker me levou de volta até a limusine, e nós entramos. Aí eu vi o Alfa James aparecer na varanda, como se estivesse tentando alcançar a gente ou alguma coisa, mas Ryker mandou o motorista sair. Então nós fomos embora, fingindo que nem vimos ele.
A viagem inteira de volta pra casa foi num silêncio pesado, e o Ryker estava tentando inventar alguma coisa pra contar pro nosso pai que não fosse me fazer morrer. E, principalmente, sem mencionar o nome do Ethan em hipótese nenhuma. O Ryker sabia tudo sobre a rixa. Como ele ia ser o próximo na linha pra assumir a alcateia, ele precisava saber. Meu pai sempre pintou o Ethan como o vilão da história, mas nós dois sabíamos que aquilo era uma puta mentira.
A gente pediu pro motorista dar uma volta maior pra não chegar cedo demais e nossos pais não desconfiarem de nada, mas, quando finalmente chegamos, não me surpreendeu ver que eles ainda estavam acordados, esperando.
— E aí, como foi? — minha mãe perguntou, sorrindo no sofá. Eu não conseguia acreditar que ela estava tão feliz assim. O Alfa James não tinha ligado pro meu pai e contado tudo?
— Deu em nada de novo — disse Ryker. E, como eu não falei nada, ele me cutucou nas costelas com o cotovelo.
— É. Eu também. Ele estava lá, mas você tinha razão. Ele me rejeitou — eu menti.
— Ai, querida... eu sinto muito. Mas sempre existe uma segunda chance, companheiro — disse minha mãe.
— Ah, por favor. Ela nunca vai encontrar uma segunda chance, companheiro. Isso é ainda mais difícil de achar. E ela nem teve chance pra começo de conversa — disse meu pai, se levantando e vindo até nós.
— Pai. Já chega — Ryker retrucou, ríspido.
— Desculpa, filho. Eu sei que a sua Luna está por aí em algum lugar. A gente só tem que procurar um pouco mais. Ou então você vai ter que fazer como eu fiz e escolher alguém pra ser sua Luna — disse meu pai. Mas então eu vi ele me olhando com desconfiança, e ele não falou nada. Isso estava me deixando muito nervosa.
— Eu vou esperar pela minha Luna dada pela deusa, valeu, pai — disse Ryker, puxando o olhar do meu pai pra longe de mim.
— Foi uma noite longa. Eu vou dormir — eu disse, me virando na direção da escada.
Eu fui pro meu quarto, tomei banho, tirei toda a maquiagem, vesti uma regata e um short e me joguei na cama, mas eu não conseguia dormir. Eu só conseguia pensar naqueles olhos verdes como esmeralda, na cicatriz pequena acima do olho dele e nos traços lindos que fariam qualquer garota corar. O espécime mais lindo que eu já tinha visto. E, de repente, meu celular apitou.
DESCONHECIDO — Oi, Summer. Agora você tem meu número também. Vou te ver de novo bem em breve. Ethan.
Demorou algumas horas, mas eu acabei pegando no sono, e eu queria poder dizer que foi tranquilo. Mas não foi. Foi cheio do Ethan. Era tudo em que eu conseguia pensar agora. Esse vínculo de companheiros era muito melhor do que eu imaginava.
Na manhã seguinte, eu acordei com minha mãe me sacudindo.
— Levanta. Levanta agora — ela exigiu, puxando minhas cobertas.
— O que foi? — perguntei, ainda meio grogue.
— Seu pai está lá embaixo com o Alfa James. Eles estão planejando o seu casamento neste exato momento — ela disse, urgente.
