Capítulo 1 A Noite Em Que Ele A Escolheu

Palazzo Borromeo, Milão – Itália

Dante Volkov não frequentava festas.

Festas eram para pessoas que precisavam ser vistas. Para homens que mediam o próprio valor pelo número de câmeras flashes, pelo tilintar das taças de champanhe, pelo som dos próprios nomes sendo sussurrados nos corredores de mármore. Dante não precisava de nada disso. Ele era o som. Era o sussurro. Era o motivo pelo qual homens mais velhos e mais ricos baixavam os olhos quando ele passava.

Mas naquela noite, ele estava ali.

Encostado numa coluna de ônix, no canto mais escuro do salão principal do Palazzo Borromeo, com um copo de vodka intocado na mão, Dante observava a mulher que tinha esperado cinco anos para ter.

Celeste Rossi.

Ela estava do outro lado do salão, rodeada por pretendentes como uma relíquia em exposição. Vestia um vestido vermelho — sempre vermelho, ele pensou, com uma pontada de algo que se recusava a nomear — que caía líquido sobre o corpo, deixando os ombros nus e as costas descobertas até a curva perigosa da cintura. Os cabelos castanhos estavam presos numa trança frouxa, mas mechas teimosas escapavam, emoldurando um rosto que ele sonhava em destruir e reconstruir com a própria boca.

Ela ria.

O som chegou até ele mesmo através da música, das conversas, do tilintar dos cristais. Uma risada baixa, rouca, que não combinava com a perfeição estátua que ela projetava. Era uma risada de quem não se importava de ser ouvida.

Dante apertou o copo. O vidro rangeu.

Dima: Spasibo, — murmurou Dima ao seu lado, sem olhar para ele, fingindo examinar o salão. — A segurança dela está reforçada. Seis homens do pai. Mais dois que ela trouxe sozinha. Luca Moretti está a três metros dela, o tempo todo.

Dante: Eu sei.

Dima: Então você sabe que vai ser difícil.

Dante finalmente virou o rosto. Os olhos cinza-gelo encontraram os de Dima, e o outro homem — um assassino que já tinha degolado homens com as próprias mãos — engoliu seco.

Dante: Difícil, — repetiu Dante, com a voz baixa e arrastada de quem não está acostumado a ser questionado, — não é uma palavra que eu conheço, brat.

Ele voltou a olhar para ela.

Celeste Rossi. Vinte e quatro anos. Filha do Capo dei Capi. A mulher que, cinco anos atrás, num baile de máscaras em Veneza, tinha rido dele sem saber quem ele era. Tinha colocado a mão no peito dele — no peito dele, onde ninguém tocava — e dito, com aqueles olhos verdes impossíveis: "Você parece triste, moço de máscara. Quer dançar?"

Ele tinha dançado. Uma única música. E quando a música acabou, ele soube.

Ela é minha.

Não foi uma decisão. Foi uma revelação. Como descobrir que você sempre teve um pulmão a menos e finalmente respira fundo.

Levou cinco anos para construí-lo. Cinco anos para esperar o momento certo. Cinco anos para que Lorenzo Rossi cometesse o erro que daria a Dante a desculpa perfeita.

E Lorenzo tinha cometido.

Alexei. O nome do irmão morto queimava na garganta de Dante como vidro moído. Mas ele não deixaria que a dor o guiasse. A dor era para os fracos. Ele era guiado por algo mais antigo, mais frio, mais absoluto.

Ela é minha. E agora, eles me deram o direito de tomá-la.

Dima: Quando? — perguntou Dima.

Dante terminou a vodka num gole só.

Dante: Agora.

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Celeste estava entediada.

Era uma sensação que ela conhecia bem, tão familiar quanto o cheiro do perfume da mãe ou o peso do sobrenome que carregava. As festas da Fondazione Rossi eram sempre iguais: homens de meia-idade com anéis demais, mulheres com plásticas demais, e ela — sempre ela — no centro de tudo, como uma boneca de porcelana que todos queriam tocar mas ninguém podia levar pra casa.

— Signorina Rossi, — disse o homem à sua frente, um banqueiro suíço cujo nome ela já tinha esquecido, — seu pai está muito generoso em permitir que a senhorita nos honre com sua presença esta noite.

Celeste sorriu. O sorriso que sua mãe tinha ensinado a ela aos quinze anos: os dentes certos, o ângulo certo, os olhos vazios na medida certa.

Celeste: A generosidade é dele, dottore. Minha presença é apenas uma obrigação.

O banqueiro riu, achando que era charme. Não era. Era aviso.

Ela precisava de ar.

Com uma desculpa esfarrapada sobre retocar o batom, Celeste escapou do círculo de admiradores, deslizou pelo salão, e encontrou a porta que dava para o terraço.

O ar da noite de novembro em Milão era frio, mas não tanto quanto o que ela sentia por dentro. Apoiou as mãos no parapeito de pedra e respirou fundo, olhando as luzes da cidade se estendendo abaixo.

— Você não gosta deles, — disse uma voz atrás dela.

Celeste não se assustou. Rossi não se assustavam. Ela apenas virou a cabeça, devagar, e encontrou o homem mais perigoso que já tinha visto na vida.

Ele era alto — muito alto — e vestia um terno preto sem gravata que parecia ter sido costurado diretamente no corpo. Cabelos negros, desalinhados de um jeito que devia ter levado horas para parecer tão natural. E os olhos...

Os olhos eram cinza. Como tempestade. Como aço. Como algo que ela deveria reconhecer, mas não reconhecia.

Celeste: E você gosta? — ela rebateu, virando-se completamente para ele.

O homem deu um passo à frente. A luz fraca do terraço pegou numa cicatriz fina no canto do lábio inferior dele.

— Eu não vim para gostar deles, — disse ele. — Eu vim por você.

Celeste ergueu uma sobrancelha. Mais um pretendente. Mais um homem que achava que o sobrenome dela era um convite.

Celeste: Desculpe, Signore. Não me lembro do seu nome.

— Você não deveria me lembrar. Nós nunca nos apresentamos.

Celeste: Então como sabe que eu...

— Eu sei muitas coisas sobre você, malyshka.

O apelido russo soou estranho na boca dele, íntimo demais para um desconhecido. Celeste sentiu um arrepio subir pela espinha, mas não deu ao homem o prazer de ver.

Celeste: Se sabe tanto, — ela disse, erguendo o queixo, — então sabe que eu não danço com desconhecidos.

— Bom. Porque eu não vim para dançar.

Ele deu mais um passo. E outro. Até que ela estava prensada contra o parapeito de pedra, e ele era uma parede de calor e perfume amadeirado e algo mais — algo escuro, algo que fazia o corpo dela vibrar num frequência que ela não reconhecia.

Celeste deveria ter sentido medo. Era o que qualquer mulher sensata sentiria. Mas Celeste Rossi não era sensata. Era filha de Lorenzo Rossi. Tinha visto homens morrerem no chão da sala de jantar da própria casa aos doze anos. Tinha aprendido a desmontar uma Glock aos quinze.

Ela ergueu o queixo e encarou aqueles olhos de tempestade.

Celeste: Quem é você?

O homem inclinou a cabeça, devagar, como um predador estudando a presa. E então, pela primeira vez na noite, ele sorriu.

Não foi um sorriso caloroso. Foi um sorriso de quem acabou de ganhar uma aposta que ninguém sabia que existia.

— Meu nome, — ele disse, e a voz dele era veludo e lâmina, — é Dante Volkov.

O mundo de Celeste parou.

Volkov.

O nome caiu sobre ela como uma guilhotina. A Bratva. O Pakhan. O homem que o pai dela chamava, em sussurros, de "o diabo que a gente não vê". O homem cujo irmão...

Celeste: Você... — ela começou, e a voz saiu mais fraca do que gostaria. — Seu irmão. Alexei. Meu pai...

Dante: Seu pai matou meu irmão, — completou Dante, sem emoção. Como se falasse do clima. — E agora, malyshka, você vai me pagar a dívida.

Antes que Celeste pudesse processar, antes que pudesse gritar, antes que pudesse fazer qualquer coisa, a porta do terraço se abriu atrás deles. Luca apareceu, a mão já no coldre —

E então três homens surgiram das sombras, e Luca estava no chão, e Celeste sentiu um pano doce e químico pressionar contra o nariz e a boca, e a última coisa que viu antes de o mundo apagar foi o rosto de Dante Volkov, inclinando-se sobre ela, sussurrando contra seus lábios:

– Bem-vinda à sua casa, minha esposa.

Trinta e sete minutos depois.

Lorenzo Rossi estava no meio de um discurso quando o telefone tocou.

Atendeu. Ouviu. E pela primeira vez em quarenta anos de poder, as mãos do Capo dei Capi tremeram.

No outro lado da linha, uma voz fria, arrastada, com o sotaque pesado do norte de Moscou, disse apenas:

— Vocês tiraram meu irmão. Eu tirei o que vocês têm de mais precioso. Não vou matá-la, Lorenzo. Vou fazê-la minha. E quando você vier resgatá-la, vai encontrar apenas a esposa do seu maior inimigo.

A linha caiu.

Lorenzo olhou para o salão. Para o lugar vazio onde, há menos de uma hora, sua filha estava rindo.

E soube que a guerra que ele tinha tentado evitar a vida inteira...

...tinha acabado de começar.

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