Capítulo 2 A Gaiola De Vidro E Neve
Mansão Volkov, Zermatt — Suíça
Doze horas após o sequestro
O frio foi a primeira coisa que ela sentiu.
Não o frio cortante do inverno lá fora, mas um frio seco, controlado, que vinha das paredes de pedra e vidro da enorme suíte onde acordara.
Celeste abriu os olhos devagar. O teto era alto, com vigas de madeira escura e um lustre de cristal que parecia pesar toneladas. Ela se sentou na cama, o lençol de seda branca escorregando por seu corpo, e olhou ao redor.
O quarto era maior do que o apartamento inteiro que ela mantinha em segredo em Milão. Havia uma lareira de pedra acesa no canto, crepitando suavemente. Mas o que fez o ar faltar em seus pulmões não foi o luxo.
Foram as janelas.
Janelas do chão ao teto, sem cortinas, revelando uma paisagem que tirava o fôlego e a esperança na mesma medida. Montanhas imensas, cobertas por uma neve branca e imaculada, se erguiam contra um céu cinza-azulado. O pico do Matterhorn cortava o horizonte como uma lâmina.
Não havia estradas. Não havia vizinhos. Não havia saída.
— Bozhe moy... — Celeste sussurrou, a voz rouca.
Ela jogou as pernas para fora da cama. Estava vestindo uma camisola de seda preta, longa, que não era dela. O vestido vermelho da gala havia sumido.
— Ah, você acordou.
Celeste virou-se num sobressalto.
Uma mulher mais velha, de cabelos grisalhos presos num coque impecável e vestindo um uniforme discreto, estava parada perto da porta com uma bandeja de prata nas mãos. Ela não parecia assustada. Parecia... aliviada.
Celeste: Quem é você? — Celeste exigiu, erguendo o queixo, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — Onde eu estou?
— Meu nome é Nina,Eu cuido desta casa. E você está na Suíça. Nos Alpes.
Nina caminhou até uma mesa lateral e colocou a bandeja sobre ela. Havia uma xícara de chá fumegante, torradas e frutas.
Nina: O Sr. Volkov pediu que você comesse algo leve. Você estava muito pálida quando chegou.
Celeste olhou para a comida como se fosse veneno.
Celeste: Eu não vou comer nada que venha dele. E eu quero falar com meu pai. Agora.
Nina suspirou, um som suave e maternal que irritou Celeste mais do que um grito irritaria.
Nina: O Sr. Volkov está na biblioteca. Ele disse que você pode descer quando estiver pronta. Mas ele também disse... — Nina hesitou, olhando para a janela nevada. — Ele disse para eu lembrar a senhorita de que a temperatura lá fora está a quinze graus negativos. E que os lobos nesta região não têm medo de homens. Muito menos de mulheres de seda.
Celeste cerrou os punhos.
Celeste: Diga a ele que eu desço. E diga a ele que ele vai se arrepender de ter tirado o sobrenome errado.
Nina apenas fez uma reverência leve e saiu do quarto, fechando a porta pesada de carvalho atrás de si.
A mansão era um labirinto de pedra, vidro e sombras.
Celeste desceu a escadaria principal, descalça, ignorando os chinelos de veludo que Nina havia deixado. Ela precisava sentir o chão frio. Precisava lembrar que estava acordada, que aquilo era real.
O som de seus passos ecoou pelo hall de entrada até que ela chegou às portas duplas da biblioteca.
Estavam entreabertas.
Ela empurrou a porta e entrou.
Dante Volkov estava sentado atrás de uma mesa de mogno maciço, lendo um documento. Ele vestia uma camisa social branca com os dois primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços cobertos por tatuagens escuras e intrincadas.
Ele não levantou os olhos quando ela entrou.
Dante: Você demorou quarenta e dois minutos, — disse ele, a voz baixa e arrastada, virando uma página do documento. — Eu apostei com o Dima que você levaria pelo menos uma hora para descer. Perdi dez mil francos suíços.
Celeste parou no meio do tapete persa, a fúria queimando seu peito.
Celeste: Você é louco.
Dante finalmente levantou os olhos. O cinza-gelo deles parecia brilhar na penumbra da biblioteca.
Dante: Loucura é um conceito relativo. Para o mundo, eu sou um homem de negócios. Para seu pai, eu sou um monstro. Para você... — Ele fechou o documento e se recostou na cadeira de couro. — Para você, eu sou o homem que vai salvar sua vida.
Celeste: Salvar minha vida? — Celeste riu, um som seco e sem humor. — Você me sequestrou na frente de trezentas pessoas! Meu pai vai destruir você. Ele vai trazer a Cosa Nostra inteira para esses Alpes e vai queimar esta casa até o chão!
Dante se levantou.
O movimento foi fluido, predatório. Ele contornou a mesa e parou a dois passos dela. De perto, ele era ainda mais intimidador. O cheiro dele — madeira, especiarias e algo metálico, como sangue seco — invadiu os sentidos de Celeste.
Dante: Seu pai, — Dante disse, a voz caindo para um tom perigosamente suave, — está em Milão, trancado na villa da família, com seus capos discutindo se me declaram guerra ou se tentam me comprar. Ele não pode te salvar, Celeste. Porque se ele vier até aqui, eu não vou te devolver. Eu vou matar cada um dos homens dele na neve e deixar os corpos para os lobos.
Celeste não recuou. Ela ergueu o rosto e encarou os olhos dele.
Celeste: Então me mate também.
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que Celeste pôde ouvir o vento uivando lá fora.
Dante inclinou a cabeça. Por um segundo, apenas um segundo, a máscara de gelo dele rachou. Algo escuro, faminto e absolutamente devastador cruzou seu olhar.
Ele deu mais um passo, invadindo o espaço pessoal dela. Celeste sentiu o calor do corpo dele, a tensão nos músculos dele. Ele levantou a mão e, com o polegar, traçou a linha do maxilar dela. A pele dele era áspera, quente.
Dante: Matar você? — ele sussurrou, e a respiração dele roçou os lábios dela. — Minha vida. Eu esperei cinco anos para tocar em você. Você acha que eu vou te matar?
Celeste prendeu a respiração. O polegar dele desceu, roçando o pulso dela, sentindo a batida frenética de seu coração.
Dante: Eu não vou te matar, Celeste Rossi, — ele continuou, a voz rouca. — Eu vou te dar o mundo. Você terá joias, roupas, arte. Você terá qualquer coisa que desejar. Mas você nunca mais vai sair desta montanha. Nunca mais vai ver seu pai. Nunca mais vai ser de mais ninguém.
Ele retirou a mão devagar, como se estivesse se contendo para não puxá-la contra o peito.
Dante: Nina vai te mostrar seus aposentos. Você tem liberdade para andar pela casa, pela estufa, pelos jardins internos. Mas as portas externas estão trancadas. E se você tentar escalar a neve... — Ele deu de ombros, um gesto casual e aterrorizante. — Bem. Eu avisei sobre os lobos.
Celeste engoliu seco, forçando sua voz a sair firme.
Celeste: E se eu me recusar a comer? Se eu me recusar a falar com você?
Dante sorriu. Aquele sorriso torto, letal, que fazia a cicatriz em seu lábio se acentuar.
Dante: Então eu vou sentar na sua cama e esperar. Eu tenho muita paciência,E eu sempre consigo o que eu quero.
Ele se virou e voltou para a mesa, sentando-se e abrindo o documento novamente, como se ela não fosse a mulher mais importante do mundo para ele. Como se ela fosse apenas mais uma transação concluída.
Dante: Agora coma sua torrada, — disse ele, sem olhar para ela. — Antes que esfrie.
Celeste ficou parada ali por mais dez segundos, o coração disparado, a mente girando. Ela olhou para as costas largas dele, para a nuca exposta, para a vulnerabilidade que ele jamais admitiria ter.
Ela se virou e saiu da biblioteca, batendo a porta com força.
No corredor, ela encostou a testa na parede fria de pedra e fechou os olhos.
Ele está louco, pensou ela. Ele é um monstro.
Mas enquanto ela caminhava de volta para seu quarto, uma parte traiçoeira de sua mente — a parte que sentiu o calor da mão dele em seu rosto, a parte que lembrou do cheiro dele — sussurrou algo muito mais perigoso:
Ele é meu.
