Capítulo 3 As Regras De Dante
Mansão Volkov, Zermatt — Suíça
Celeste passou as próximas duas horas fazendo o que qualquer pessoa sensata faria ao ser sequestrada: ela procurou uma saída.
O quarto de hóspedes — sua suíte,como Nina insistira em chamá-la — era um sonho de arquitetura. Tinha uma lareira de mármore, uma banheira de hidromassagem com vista para as montanhas e um closet repleto de roupas no tamanho exato dela. Mas não havia telefone. Não havia laptop. O relógio de pulso que ela usava na gala havia sumido.
E as janelas... Celeste correu a mão pelo vidro grosso da janela da sala. Era blindado. Ela pegou um pesado candelabro de bronze da mesa e bateu com toda a força contra o vidro.
O candelabro ricocheteou com um estrondo metálico, deixando apenas um arranhão minúsculo na superfície. Nem a moldura cedeu.
— Droga! — ela praguejou, jogando o objeto no chão. O som ecoou pelo quarto vazio.
Ela precisava de um telefone. Precisava avisar o pai, ou a mãe, ou Matteo. Precisava que alguém viesse arrancar Dante Volkov daquela montanha.
Celeste ajustou o roupão de seda que Nina havia deixado sobre a cama e saiu do quarto, decidida a encontrar um telefone fixo, um computador, ou qualquer coisa que a conectasse ao mundo exterior.
A mansão era silenciosa, exceto pelo estalar da madeira na lareira e pelo uivo distante do vento lá fora. Ela desceu as escadas, atravessou o hall principal e virou o corredor em direção à cozinha.
Foi quando ela esbarrou em uma parede de músculos.
— Com licença, signorina. Você está indo muito longe para alguém que acabou de acordar.
Celeste recuou um passo e ergueu os olhos.
O homem à sua frente não era Dante. Ele era um pouco mais baixo, mas igualmente largo nos ombros. Tinha cabelos loiros cortados rente, um sorriso torto no rosto e usava um terno cinza sob medida que mal escondia o volume de uma arma no coldre sob o braço.
Celeste: Quem é você? — Celeste exigiu, erguendo o queixo.
Dima: O nome é Dima, — ele disse, fazendo uma leve reverência irônica. — Sou o braço direito do Sr. Volkov. E, a partir de hoje, sou o seu carcereiro mais simpático.
Celeste cruzou os braços.
Celeste: Eu quero um telefone. Agora.
Dima riu, um som seco. Ele encostou no batente da porta da cozinha, cruzando os próprios braços.
Dima: Telefone? Para ligar para quem? Para o seu pai? Ele está ocupado demais gritando com os generais dele em Milão. Para a polícia suíça? Eles sabem quem é o dono desta montanha, signorina. A polícia não sobe aqui.
Celeste: Eu não estou pedindo permissão, — Celeste deu um passo à frente, os olhos verdes faiscando. — Eu estou exigindo. Diga a Dante que eu quero falar com meu pai, ou eu vou começar a quebrar cada vaso, cada quadro e cada porcelana desta casa até que ele me dê um telefone.
Dima a observou por um longo momento. O sorriso dele não desapareceu, mas seus olhos ficaram frios.
Dima: Você tem o temperamento dele, — murmurou Dima, mais para si mesmo. Depois, ergueu a voz. — Sinto muito, signorina. O Sr. Volkov foi muito claro. Sem comunicação externa. Sem internet. Sem telefone.
Ele se afastou da porta, dando passagem para a cozinha.
Dima: Mas se você está com tanta energia, o jantar será servido em vinte minutos. O Sr. Volkov espera você na sala de jantar. E, signorina... — Dima inclinou a cabeça, o tom ficando subitamente sério. — Não tente fugir pelos fundos. A neve está alta, e os meus homens não têm ordens de atirar para avisar.
Celeste engoliu seco, mas não deixou o medo transparecer.
Celeste: Diga a Dante que eu não tenho fome.
Dima: Vou dizer, — Dima sorriu novamente, o sorriso voltando a ser irônico. — Mas duvido que ele acredite.
A sala de jantar era longa, com uma mesa de madeira escura que caberia vinte pessoas. Dante estava sentado na cabeceira. Ele havia trocado a camisa social por uma de gola alta preta, que destacava ainda mais a palidez de sua pele e o cinza de seus olhos.
Diante dele, havia um prato de comida. Diante da cadeira vazia ao seu lado direito, havia outro.
Celeste entrou na sala e parou. Ela olhou para a cadeira ao lado dele.
Celeste: Eu vou sentar na outra ponta, — ela disse, apontando para a cadeira na extremidade oposta da mesa.
Dante não levantou os olhos do copo de vinho tinto que girava entre os dedos longos.
Dante: Sente-se onde eu mandei você sentar, Celeste.
Celeste: Eu não sou sua cachorra, Dante. Eu não vou sentar ao seu lado como se fôssemos um casal feliz.
Dante finalmente ergueu os olhos. O silêncio na sala ficou tão denso que Celeste pôde ouvir o próprio coração batendo.
Dante: Você não é minha cachorra, — ele concordou, a voz suave, quase um sussurro. — Cães eu posso trocar. Cães eu posso punir. Você é minha esposa. E esposas sentam ao lado de seus maridos.
Celeste cerrou os punhos. Cada fibra do seu ser gritava para ela virar as costas e sair. Mas ela sabia que, se fizesse isso, ele mandaria Dima ou os guardas a arrastarem de volta. Ela não daria a ele essa satisfação.
Com a cabeça erguida, ela caminhou até a mesa e sentou-se na cadeira ao lado dele. O cheiro dele — amadeirado, frio e inebriante — invadiu seu espaço pessoal.
Um garçom silencioso serviu o prato dela. Risoto de trufas negras e um filé mignon perfeitamente selado. O cheiro era delicioso, mas o estômago de Celeste estava revirado.
Ela pegou o garfo, olhou para a comida, e então, deliberadamente, deixou o garfo cair sobre o prato com um tilintar alto.
Celeste: Eu não vou comer, — ela disse, virando o rosto para ele. — Não até que você me dê um telefone.
Dante parou com o copo de vinho a meio caminho da boca. Ele o pousou devagar sobre a mesa. O som do vidro contra a madeira ecoou como um tiro.
Ele virou a cadeira para ela. Devagar. Metódico.
Celeste forçou-se a não recuar, mas seus dedos apertaram o tecido do vestido sob a mesa.
Dante estendeu a mão e tocou o queixo dela. O polegar dele pressionou suavemente contra o lábio inferior dela, puxando-o para baixo num gesto que era ao mesmo tempo íntimo e aterrorizante.
Dante: Você acha que isso é um jogo, Celeste? — ele perguntou, a voz baixa, roçando a orelha dela. — Você acha que se você fizer birra, se você se recusar a comer, se você quebrar meus vasos, eu vou ceder?
Celeste: Eu acho que você é um sequestrador, não um marido, — ela retrucou, a voz tremendo levemente, mas o olhar firme. — E eu não vou comer a comida do meu sequestrador.
Dante sorriu. Não foi o sorriso torto e letal da biblioteca. Foi algo pior. Foi um sorriso de pura, inegável possessão.
Ele retirou a mão do queixo dela e pegou o próprio garfo. Serviu-se de um pedaço de carne, mastigou devagar, engoliu, e então limpou a boca com o guardanapo de linho.
Dante: Nina, — ele chamou, sem desviar os olhos de Celeste.
A empregada apareceu instantaneamente na porta.
Nina: Sim, Sr. Volkov?
Celeste: Retire o prato da Sra. Volkov.
Celeste: Dante, não! — Celeste tentou se levantar, mas a mão dele foi mais rápida, segurando seu pulso com uma força que não doía, mas que era inegociável.
Dante: Ela não quer comer, Nina, — Dante disse, os olhos fixos nos de Celeste, prendendo-a na cadeira. — E nós não forçamos nossa esposa a fazer nada que ela não queira. Não é assim que eu trato o que é meu.
Nina pegou o prato e saiu.
Dante soltou o pulso de Celeste e se recostou na cadeira, cruzando as mãos sobre a mesa.
Dante: Você está com fome, Celeste. Eu posso ver. Seu estômago roncou quando você entrou na sala. Você vai sentir dor de cabeça em duas horas. Em quatro horas, você vai estar fraca. Em oito horas, você vai estar desesperada.
Ele inclinou a cabeça, os olhos cinza brilhando na luz baixa do lustre.
Dante: E quando você estiver desesperada, eu vou mandar Nina trazer o prato de volta. E eu vou sentar aqui, do seu lado, e vou alimentar você colher por colher, com a minha própria mão. E eu prometo a você, minha pequena Rossi... não será uma experiência agradável para o seu orgulho.
Celeste estava tremendo. Não de frio, mas de uma raiva impotente e de uma tensão elétrica que ela não sabia como dissipar. Ele não estava blefando. Ela via isso nos olhos dele. Ele faria exatamente isso. Ele a humilharia na frente dos empregados só para provar um ponto.
Ela olhou para a porta onde Nina havia saído. Depois olhou para Dante.
Celeste: Traga a comida de volta, — ela sussurrou, a voz saindo mais fraca do que gostaria.
Dante fez um sinal discreto com a mão. Nina reapareceu com o prato fumegante e o colocou diante dela.
Dante: Bom, — Dante murmurou, voltando a comer o próprio prato, como se nada tivesse acontecido. — Coma. Amanhã eu vou te mostrar a estufa. Você gosta de plantas, não gosta?
Celeste pegou o garfo, as mãos tremendo levemente, e levou a primeira garfada à boca. A comida estava perfeita. E era a coisa mais amarga que ela já tinha engolido na vida.
Enquanto comia em silêncio, ela percebeu uma verdade aterrorizante.
Dante Volkov não precisava de correntes, nem de celas, nem de gritos para mantê-la presa.
Ele apenas precisava de si mesmo.
