Capítulo 1 Despedida ( jenny)

Abracei minha mãe e meu pai com toda a força que tinha, como se aquele gesto pudesse impedir que eles partissem. Ainda não conseguia aceitar que passaríamos um ano inteiro separados.

Em vinte anos de vida, jamais havia ficado longe dos dois. Meus pais sempre fizeram o possível para me levar com eles, não importava o destino, a distância ou o perigo. Eu crescera entre malas, aeroportos, estradas intermináveis e histórias sobre lugares que pareciam existir apenas nos livros. Dessa vez, porém, tudo seria diferente.

Dessa vez, eles iriam para a África sem mim.

— Por que vocês não podem me levar? perguntei, apertando os braços ao redor da cintura da minha mãe.

Ela acariciou meus cabelos, tentando esconder a preocupação por trás de um sorriso carinhoso.

— Filhinha, meu amor, já explicamos que não podemos levá-la desta vez. A África não é lugar para uma mocinha delicada como você argumentou minha mãe, com a voz suave, mas firme.

— Um ano passa depressa, filha . acrescentou meu pai, sempre tentando transformar qualquer problema em algo simples.

Afastei-me apenas o suficiente para encará-lo.

— É tão importante assim vocês irem para a África?

Meu pai trocou um olhar rápido com minha mãe antes de responder. Aquele olhar silencioso dizia mais do que qualquer explicação. Para eles, aquela viagem não era apenas mais uma aventura. Era algo que esperavam havia anos.

— É a realização de todo o nosso trabalho, Jenny. Produzir um documentário sobre a vida selvagem nas savanas africanas pode nos levar a um novo patamar. Teremos a oportunidade de registrar espécies em seu habitat natural, acompanhar expedições e mostrar ao mundo uma realidade que poucas pessoas conhecem.

Eu sabia o quanto aquele projeto significava para os dois. Desde pequena, acompanhara cada etapa da carreira deles, conhecia suas pesquisas, ouvira suas histórias e vira o brilho nos olhos de ambos sempre que falavam de uma nova expedição. Mesmo assim, compreender a importância daquela viagem não tornava a separação mais fácil.

— Entendo… murmurei, embora ainda não estivesse pronta para aceitar.

Minha mãe segurou minhas mãos entre as suas.

— Além disso, você vai se divertir bastante na fazenda do nosso amigo Calhagan. A sobrinha dele também está lá e poderá lhe fazer companhia. Você se lembra da Brenda, não se lembra?

Fiz um esforço para buscar a lembrança em minha memória. Eu havia conhecido Brenda alguns anos antes, em uma das poucas vezes em que visitamos a propriedade de Calhagan. Recordava-me de sua pele bronzeada e do sorriso fácil e da maneira como ela parecia conhecer cada canto daquela fazenda.

— Sim, papai. Lembro-me dela.

— Calhagan disse que Brenda está muito ansiosa pela sua chegada continuou meu pai. Ela se sente bastante sozinha na fazenda e está precisando da companhia de outra mulher.

A ideia de passar um ano inteiro em um lugar desconhecido, cercada por campos, animais e pessoas que eu mal conhecia, não me animava tanto quanto meus pais pareciam imaginar. Ainda assim, tentei demonstrar entusiasmo.

— O senhor Calhagan não se casou novamente? perguntei, tomada pela curiosidade.

O sorriso de minha mãe desapareceu por um instante. Meu pai também ficou em silêncio, como se aquela simples pergunta tivesse aberto uma porta que os dois preferiam manter fechada.

— Não filha respondeu ele, por fim. Desde o que aconteceu com a primeira esposa, Calhagan não se envolveu seriamente com nenhuma outra mulher.

Franzi a testa.

— O que aconteceu com ela?

Minha mãe desviou o olhar e começou a ajeitar uma dobra inexistente na toalha da mesa.

— Não seja tão curiosa, querida.

A resposta apenas aumentou minha curiosidade. Havia algo naquela história que meus pais não queriam contar. Pela primeira vez, percebi que o homem que me receberia na fazenda carregava muito mais do que a fama de ser reservado e grosseiro. Havia uma ferida escondida sob aquele silêncio uma ferida que, aparentemente, ninguém ousava tocar.

Naquela noite, tentamos agir como se tudo estivesse normal. Pedimos uma pizza grande de pepperoni e nos sentamos à mesa da cozinha, fingindo que a conversa descontraída era capaz de afastar a tristeza que se instalara na casa. Minha mãe contou uma história engraçada sobre uma viagem antiga, e meu pai riu tanto que quase derrubou o copo de suco.

Eu também sorri, mas meu coração permanecia apertado.

Cada detalhe daquela noite parecia uma despedida. O som das risadas, o cheiro da pizza recém-saída da caixa, o modo como minha mãe apoiava o queixo na mão enquanto ouvia meu pai falar. Eu queria guardar tudo, como se em breve aquelas lembranças fossem se tornar as únicas coisas que me restariam deles.

Depois do jantar, fomos para a cama. Meus pais tentaram me convencer de que eu precisava descansar, mas, por mais que fechasse os olhos, o sono não vinha. Minha mente insistia em imaginar a casa vazia, os quartos silenciosos e a longa distância que nos separaria.

Pouco depois da meia-noite, desisti de dormir.

Levantei-me com cuidado e corri pelo corredor até o quarto dos meus pais. Abri a porta devagar e, sem pedir permissão, deitei-me entre os dois, como fazia quando era criança.

Minha mãe despertou primeiro.

— O que foi, filha? perguntou, sonolenta.

Meu pai se virou na cama e abriu os olhos.

— Você teve um pesadelo?

Balancei a cabeça, sentindo a garganta apertar.

— Não estou conseguindo dormir. Sempre que fecho os olhos, vejo vocês dois indo embora… como se estivessem me abandonando.

Minha mãe imediatamente me puxou para seus braços. O calor do corpo dela e o perfume familiar de seus cabelos quase me fizeram chorar.

— Nós nunca vamos abandoná-la, querida. Só ficaremos longe por algum tempo.

— Um ano é muito tempo sussurrei.

Meu pai se aproximou e beijou minha testa.

— Vamos ligar para você todos os dias, filha. Todos os dias, sem falta.

— Prometem?

Minha mãe e meu pai se entreolharam. Então, como se ainda fôssemos crianças fazendo um pacto secreto, ambos cruzaram os dedos antes de confirmar a promessa.

— Prometemos . disseram juntos.

Só então senti o peso no peito diminuir um pouco. Aquelas palavras não apagavam a saudade que já começava a nascer, mas me davam algo em que me agarrar.

Aconcheguei-me entre os dois, ouvindo o som tranquilo de suas respirações. Aos poucos, o quarto se tornou um refúgio contra o medo da partida, e permiti que a névoa do sono me envolvesse completamente.

Naquela noite, adormeci acreditando que um ano passaria depressa.

Ainda não sabia que aquela viagem mudaria minha vida para sempre .

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