Capítulo 2 Chegada ( jenny)
Assim que desembarquei no aeroporto, a primeira coisa que vi foi Brenda. Ela segurava um cartaz com o meu nome escrito em letras grandes e, no instante em que nossos olhos se encontraram, abriu um sorriso tão radiante que pareceu iluminar todo o saguão.
— Jenny!
Ela deixou o cartaz de lado e correu em minha direção. Sem pensar duas vezes, lancei-me em seus braços, envolvendo-a em um abraço apertado. Depois de tantas horas de viagem e da despedida difícil dos meus pais, aquele reencontro era exatamente o que eu precisava.
— Brenda!
— Jenny, querida, você está linda! exclamou ela, afastando-se apenas o suficiente para me observar melhor.
— Você é que está maravilhosa .respondi.
E era verdade.
Brenda era alta, morena e dona de curvas voluptuosas que pareciam ainda mais marcantes sob o vestido claro que usava. Seus cabelos escuros caíam em ondas sobre os ombros, e os olhos castanhos brilhavam com uma energia contagiante. Ao lado dela, eu me sentia ainda menor do que realmente era. Baixinha e loira, sempre tivera a impressão de que desaparecia facilmente no meio das pessoas, mas Brenda parecia ocupar todo o espaço ao seu redor sem fazer qualquer esforço.
— Você deve estar exausta comentou, pegando uma das minhas mãos. A viagem foi tranquila?
— Foi longa. Achei que nunca chegaria.
— Agora você está aqui, vou fazer com que esses meses sejam inesquecíveis.
A promessa me arrancou um sorriso, embora uma pontada de saudade apertasse meu peito ao me lembrar de meus pais. Eu ainda não conseguia acreditar que ficaria um ano inteiro longe deles. A distância parecia maior agora que eu finalmente havia chegado ao destino.
Antes que eu pudesse responder, um rapaz alto e esguio se aproximou. Ele tinha os cabelos castanhos, um sorriso amistoso nos lábios e vestia uma camisa clara, jeans e botas, como se já estivesse acostumado à rotina da fazenda.
— Vamos, senhoritas? perguntou, olhando para as minhas malas.
— Jenny, este é Paul, o nosso motorista apresentou Brenda. Paul, esta é a minha amiga.
— É um prazer conhecê-la, senhorita Jenny.
— O prazer é meu.
Paul pegou minhas malas com facilidade e nos conduziu até a caminhonete estacionada do lado de fora. O calor me envolveu assim que deixei o ar-condicionado do aeroporto, mas havia algo diferente naquele clima um cheiro intenso de terra molhada, folhas e vegetação, como se a própria paisagem tivesse uma identidade própria.
Acomodei-me no banco traseiro enquanto Brenda se sentava ao meu lado. Assim que Paul ligou o motor, partimos.
Durante os primeiros minutos, observei a cidade desaparecer pela janela. Os prédios, o movimento dos carros e o barulho constante foram ficando para trás, substituídos por estradas estreitas, árvores frondosas e campos que se estendiam até onde meus olhos conseguiam alcançar. O céu parecia maior naquele lugar, e o silêncio entre uma conversa e outra era preenchido pelo canto dos pássaros e pelo ruído dos pneus sobre a estrada.
— Você vai se acostumar rapidamente garantiu Brenda, percebendo meu olhar atento para a paisagem. A fazenda pode parecer isolada, mas há sempre alguma coisa acontecendo. Animais para cuidar, pessoas trabalhando, visitas inesperadas… Você não terá tempo para ficar entediada.
— Espero que sim.
— E, se depender de mim, também vai aprender a montar.
— Não tenho certeza de que isso seja uma boa ideia.
— Você vai adorar. Além disso, há cavalos dóceis na propriedade.
— E cobras? perguntei, lembrando-me das histórias que meus pais haviam contado.
Brenda riu.
— Algumas. Mas não se preocupe. Elas preferem manter distância dos humanos.
— Isso não foi tão tranquilizador quanto você imaginou.
Ela riu ainda mais, e eu não consegui evitar um sorriso. Pela primeira vez desde a partida dos meus pais, senti que talvez aquele lugar não fosse tão assustador quanto eu havia imaginado.
Em questão de minutos ou talvez horas; a exaustão começava a confundir minha noção de tempo , entramos na propriedade de Calhagan. Uma porteira de madeira se abriu diante de nós, revelando uma longa estrada de terra ladeada por árvores e cercas. Ao longe, avistei pastos verdes, alguns cavalos e uma casa ampla, de paredes claras e varanda espaçosa.
A fazenda era ainda mais bonita do que nas fotografias que meus pais haviam me mostrado. Havia algo de selvagem e grandioso naquele lugar, mas também uma quietude que me deixou inquieta. Era como se a propriedade guardasse histórias que ninguém se atrevia a contar.Assim que o carro parou diante da casa, Brenda desceu e me ajudou a sair. Minhas pernas estavam dormentes depois de tantas horas sentada, e precisei respirar fundo antes de conseguir caminhar.
— Venha disse ela, pegando minha mão. Você precisa descansar.
Paul retirou minhas malas do porta-malas, enquanto Brenda me conduzia para dentro da casa. O interior era aconchegante, decorado com móveis de madeira escura, tapetes rústicos e fotografias de paisagens, cavalos e antigos trabalhos realizados na fazenda. Tudo parecia organizado, mas havia uma austeridade naquele ambiente que me fez lembrar que eu não estava em minha casa.
Eu era uma visitante.
Uma visitante que permaneceria ali por um ano inteiro.
Brenda abriu a porta de um quarto no final do corredor. O aposento era espaçoso e iluminado, com uma cama confortável, uma cômoda antiga e uma janela que dava para os campos. Sobre a colcha havia um pequeno vaso com flores do campo, cuidadosamente arranjado.
— Espero que goste . disse ela.
— É lindo. Obrigada.
— Tome um banho e descanse, Jenny. Você está com uma aparência cansada.
— Farei isso. Obrigada por tudo, Brenda.
— Não precisa agradecer. Qualquer coisa, é só nos chamar, está bem? Estaremos esperando você no chá da tarde.
Depois que Brenda saiu, permaneci alguns segundos no centro do quarto, observando o silêncio ao meu redor. A ausência dos meus pais pareceu mais evidente naquele momento. Não havia suas vozes no corredor, nem o som familiar de suas malas sendo abertas, nem a certeza de que bastaria atravessar uma porta para encontrá-los.
Eu estava sozinha.
Pelo menos, era assim que me sentia.
Tomei um banho quente e demorado, deixando que a água aliviasse a tensão acumulada em meus músculos. Em seguida, vesti o roupão macio que encontrara sobre a cama e me acomodei entre os lençóis.
Meu corpo dolorido agradeceu o conforto depois das longas horas de viagem. Fechei os olhos, decidida a descansar apenas por alguns minutos, mas o cansaço foi mais forte do que a minha vontade de conhecer o restante da fazenda.
Antes de adormecer, ouvi ao longe o relincho de um cavalo e o som ritmado de passos sobre a varanda.
Por um instante, pensei ter escutado uma voz masculina, grave e firme, pronunciando o meu nome.
Abri os olhos, mas o quarto estava vazio.
Convenci-me de que fora apenas uma impressão causada pelo cansaço. Ainda assim, quando a névoa do sono me envolveu, a sensação permaneceu comigo: a de que, mesmo sem tê-lo visto, Calhagan já sabia que eu havia chegado.
