Capítulo 3 Anjo loiro (Calaghan )

Subi as escadas com a respiração pesada, o suor empapando minha camisa e a cabeça martelando em um ritmo constante. Eu havia extrapolado os limites naquele dia. Passara horas sob o sol, tentando resolver problemas que poderiam esperar até a manhã seguinte, mas que, na minha cabeça, pareciam exigir uma solução imediata.

Às vezes, eu me esquecia de que era apenas um homem.

Um homem com um corpo que cansava, uma mente que precisava descansar e lembranças que não desapareciam só porque eu me mantinha ocupado. O trabalho era a forma que encontrara de silenciar tudo aquilo. Quanto mais exausto eu ficava, menos tempo sobrava para pensar.

Ao chegar ao fim do corredor, notei algumas faixas de luz escapando por baixo da porta do quarto de hóspedes. Parei diante dela, franzindo a testa.

Aquele quarto permanecia vazio na maior parte do tempo. Brenda raramente permitia que alguém se hospedasse ali, e eu não esperava visita alguma naquela noite. Talvez Nana tivesse deixado alguma luminária acesa, ou Brenda estivesse organizando as coisas da nova hóspede.

Aproximei-me e empurrei a porta devagar, esperando encontrar Brenda arrumando as malas. No entanto, assim que entrei, fiquei imóvel.

Havia uma mulher dormindo tranquilamente sobre a cama.

Uma jovem mulher, corrigi a mim mesmo, embora a princípio aquela figura delicada tivesse me parecido pequena demais para ocupar aquele quarto enorme. A luz suave do abajur desenhava sombras sobre seu rosto, enquanto os cabelos loiros se espalhavam pelos travesseiros como fios de ouro.

Por alguns segundos, simplesmente esqueci o motivo de ter aberto a porta.

Sua pele clara destacava-se contra os lençóis, e os longos cílios repousavam sobre as maçãs do rosto. Os lábios, rosados e ligeiramente entreabertos, pareciam guardar um segredo que eu não tinha o direito de conhecer.

A beleza dela era serena, quase irreal.

Um tipo de beleza que não pedia atenção, mas a tomava mesmo assim.

Senti uma descarga de eletricidade atravessar meu corpo. A intensidade da reação me surpreendeu tanto que precisei me apoiar na parede. Fazia muito tempo que uma mulher não despertava qualquer coisa em mim. Desde a traição e morte da minha esposa, eu havia enterrado o desejo junto com tudo o que um dia me fizera acreditar que poderia ser feliz.

Nenhuma mulher conseguira atravessar aquela barreira.

O problema era que meu corpo não parecia interessado em saber quem ela era, de onde vinha ou por que estava dormindo na minha casa. Bastou um único olhar para que pensamentos inconvenientes surgissem, pensamentos que não pertenciam àquele quarto, àquela noite ou a mim.

Fechei os punhos.

— Que diabos está acontecendo? murmurei para mim mesmo.

Foi então que os longos cílios se moveram,a jovem despertou lentamente, como se emergisse de um sonho profundo. Quando seus olhos verdes se abriram e encontraram os meus, o susto tomou conta de seu rosto. Ela se sentou de repente e puxou o lençol até o pescoço, encarando-me como se eu fosse uma ameaça.

No instante seguinte, começou a gritar.

— Brenda! Nana! Socorro!

— Espere. Acalme-se tentei dizer, erguendo as mãos.

Mas meus esforços foram inúteis. A jovem se encolheu contra a cabeceira, os olhos arregalados e o rosto corado de medo.

Passos apressados ecoaram pelo corredor. A porta se abriu de repente, e Brenda entrou correndo, seguida por Nana, a cozinheira da fazenda.

— Jenny, o que está acontecendo? perguntou Brenda, ofegante.

Ao me ver dentro do quarto, ela ergueu uma sobrancelha, confusa.

— O que você está fazendo aqui, tio?

— Vi uma luz por baixo da porta. Como este quarto costuma ficar vazio, fiquei curioso e vim verificar. Então me deparei com essa moça dormindo na minha casa. Afinal, quem é ela?

Brenda olhou para a cama, depois para mim.

— Jenny? Você não está reconhecendo a Jenny?

— Jenny? repeti, sentindo o nome atingir alguma parte esquecida da minha memória.

A jovem apertou o lençol contra o corpo e me observou com cautela.

— Sim respondeu Brenda. Ela é filha daquele casal de jornalistas, seus amigos. Nós estávamos esperando a chegada dela.

A informação caiu sobre mim como um balde de água fria.

Jenny.

A filha de Brandon.

Minha mente tentou encontrar, naquela mulher diante de mim, a menina que eu vira anos antes correndo pela propriedade atrás dos pais. Uma garotinha loira, sempre escondida atrás da mãe, que costumava me observar de longe antes de desaparecer quando eu me aproximava.

Mas aquela menina não estava mais ali.

A mulher sentada na cama era adulta. Eu sabia que Jenny tinha vinte anos. Ainda assim, meu instinto insistia em tratá-la como a filhinha protegida do meu melhor amigo, e talvez fosse justamente isso que tornava tudo tão errado.

— Eu estava tão ocupado com os serviços da fazenda que acabei me esquecendo de que você chegaria hoje falei, esforçando-me para manter a voz neutra. Jennifer, seja bem-vinda.

Ela piscou, ainda desconfiada.

— Obrigada, senhor Calhagan.

A formalidade me incomodou mais do que deveria.

— Perdoe-me por não tê-la reconhecido de imediato.

— É normal. Já faz bastante tempo que não nos vemos, senhor. E desculpe por ter gritado. Eu me assustei quando o vi parado no meu quarto.

— Não precisa se desculpar. Eu deveria ter batido antes de entrar.

Nana resmungou alguma coisa sobre homens que não sabiam respeitar portas fechadas, mas Brenda disfarçou uma risada. Eu lancei um olhar para as duas, e Nana saiu do quarto balançando a cabeça.

— Vou deixá-la descansar continuei, voltando-me para Jenny. Estarei na varanda durante o chá da tarde.

Ela fez um pequeno aceno.

— Sim. Estarei lá.

Saí do quarto e fechei a porta atrás de mim.

Só então percebi que estava prendendo a respiração.

Encostei-me à parede do corredor e passei a mão pelo rosto. Não conseguia acreditar no que havia acontecido em questão de poucos minutos. Eu entrara naquele quarto por pura curiosidade e saíra de lá com o corpo em alerta e a cabeça repleta de pensamentos que não queria admitir.

Jenny era filha de Brandon.

Essa deveria ser a única coisa que eu precisava lembrar.

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