Capítulo 4 Filha do meu amigo( calaghan)
Desci até meu quarto, tomei um banho demorado e troquei de roupa, tentando me livrar da sensação de que ainda sentia o perfume dela no ar. Era uma fragrância leve, com algo floral e adocicado. Talvez viesse dos cabelos ou dos produtos que usara durante a viagem. Não importava. O aroma continuava preso à minha memória, insistente como uma lembrança que se recusava a desaparecer.
Quando terminei, fui para a varanda.
O chá da tarde já estava servido sobre uma mesa de madeira. Havia uma toalha clara, uma chaleira fumegante, xícaras de porcelana e um bolo recém-saído do forno. O cheiro doce de baunilha espalhava-se pelo ar, misturando-se ao aroma úmido da terra e da vegetação ao redor da casa.
Sentei-me em uma das cadeiras de balanço e tentei me concentrar no movimento lento das árvores. O vento passava pelas folhas, os cavalos relinchavam ao longe e, por alguns minutos, quase consegui esquecer a presença da hóspede.
Quase.
Quando ouvi passos atrás de mim, soube quem era antes mesmo de me virar.
Jenny parou junto à porta da varanda.
Ela havia trocado as roupas da viagem por um vestido simples e claro, que realçava a delicadeza de sua aparência sem diminuir a força do olhar verde. Os cabelos ainda estavam úmidos e caíam soltos sobre os ombros. Parecia mais descansada, mas também mais consciente do ambiente ao redor.
E mais consciente de mim.
— Sente-se, Jennifer — indiquei a cadeira à minha frente.
Ela obedeceu, mas lançou-me um olhar breve ao se acomodar.
— Pode me chamar apenas de Jenny, senhor.
— Jennifer é seu nome.
— É. Mas ninguém me chama assim.
— Então farei um esforço para me lembrar.
— Será que conseguirá?
A pergunta veio acompanhada de um pequeno sorriso. Não era uma provocação aberta, mas havia confiança suficiente nela para me surpreender.
— Tenho boa memória.
— Não pareceu ter quando me encontrou dormindo.
O comentário me arrancou um suspiro impaciente. Brenda, que acabava de se sentar ao nosso lado, soltou uma risada.
— Jenny, não o provoque. Calhagan não está acostumado a receber visitas.
— Percebi — respondeu ela.
Brenda serviu uma xícara de chá para Jenny e colocou uma fatia generosa de bolo em seu prato. A jovem agradeceu e soprou o líquido quente antes de beber.
Eu tentei não observá-la.
Falhei.
Havia algo perturbador em cada pequeno gesto seu. A maneira como segurava a xícara com as duas mãos, como franzia o nariz ao provar o chá e como seus olhos percorriam a propriedade, tentando transformar aquele lugar desconhecido em algo familiar.
— Seus pais foram para onde mesmo, Jenny? — perguntou Brenda, provavelmente para romper o silêncio que começava a se instalar.
— Para a África. Eles vão produzir um documentário sobre a vida animal de lá.
— Seus pais são corajosos. Já li várias matérias feitas por eles. Há uma em que ficam bem próximos de crocodilos.
Jenny sorriu.
— Meus pais são aventureiros. Desafiar o perigo é praticamente um hobby para eles.
— E você é como eles? — perguntei antes que pudesse me conter.
Uma risada cristalina escapou dos lábios dela. O som era leve e inesperado, semelhante ao desabrochar de uma flor depois da chuva.
— Na verdade, não. Sou uma medrosa. Além disso, meus pais dizem que sou frágil demais. Foi esse o motivo de não me levarem para a África.
Ela falou com bom humor, mas percebi uma sombra atravessar seu rosto. Talvez não gostasse de ser tratada como frágil. Talvez também estivesse cansada de ser protegida por pessoas que confundiam cuidado com incapacidade.
Lembrei-me da ligação de Brandon, alguns dias antes. Ele pedira que eu recebesse a filha durante a viagem e usara exatamente aquelas palavras para descrevê-la: frágil, delicada e incapaz de lidar com as dificuldades de uma expedição africana.
Na ocasião, eu prometera que cuidaria dela.
Agora, sentado diante daquela jovem, comecei a me perguntar se o verdadeiro perigo não era o lugar para onde seus pais haviam viajado, mas a minha própria casa.
Jenny pousou a xícara sobre o pires e ergueu os olhos para mim.
— O que foi?
— Nada.
— Está me olhando há algum tempo.
Brenda desviou o rosto para esconder um sorriso. Eu, por outro lado, senti meu maxilar endurecer.
— Estou apenas tentando me lembrar de quando nos conhecemos.
— E conseguiu?
— Lembro-me de uma menina loira que costumava se esconder atrás da mãe.
— Eu cresci.
— Percebi.
As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las.
O sorriso dela desapareceu por um breve instante. O meu corpo reagiu à mudança em sua expressão de uma forma que me irritou profundamente. Eu não deveria estar reparando em cada detalhe daquela mulher. Não deveria notar o modo como sua respiração se alterava, nem a curva delicada de seus lábios, nem a cor que surgia em seu rosto sempre que nossos olhares se encontravam.
Eu era o homem responsável por protegê-la enquanto seus pais estivessem fora.
Era amigo de seu pai.
E tinha honra suficiente para saber que certos desejos não deveriam sequer ser admitidos.
— Espero que se adapte à fazenda falei, levantando-me.
Jenny ergueu o rosto para me acompanhar com os olhos.
— Vou tentar.
— Tente mais do que isso. A propriedade é grande, e há lugares onde não deve ir sozinha.
— Por causa das cobras?
— Por causa dos perigos que você ainda não conhece.
— E você vai me explicar quais são?
A pergunta parecia inocente,
Sustentei o olhar dela por alguns segundos. Depois, desviei-me antes que Brenda percebesse o que estava acontecendo dentro de mim.
— Brenda explicará tudo.
Sem esperar resposta, afastei-me da mesa e caminhei em direção aos estábulos. O ar da tarde pareceu mais quente do que antes, embora o sol já estivesse começando a desaparecer atrás das árvores.
Eu precisava de distância , precisava lembrar a mim mesmo que Jenny era a filha do meu melhor amigo, uma responsabilidade, uma hóspede e nada além disso.
Mas, enquanto caminhava, a lembrança de seus olhos verdes continuou me seguindo.
O problema não era ter desejado Jenny antes de saber quem ela era.
O verdadeiro problema era que, agora que sabia, o desejo não havia desaparecido.
