Capítulo 5 Na fazenda( jenny)
Quando acordei, o sol já estava alto no céu e por alguns segundos, permaneci deitada, tentando entender onde estava. O teto desconhecido, as paredes claras e o silêncio que envolvia o quarto me lembraram que eu não estava em casa. Meus pais estavam a milhares de quilômetros dali, e eu havia passado a primeira noite na fazenda de Calaghan.
A saudade apertou meu peito assim que pensei neles.
Peguei o celular sobre a mesa de cabeceira e verifiquei a tela, nenhuma mensagem, nenhuma ligação. Eu sabia que, por causa da diferença de fuso horário e da rotina da viagem, eles talvez ainda estivessem ocupados, mas isso não impediu que me sentisse esquecida por alguns instantes.
Respirei fundo, levantei-me e tomei um banho rápido. Depois de me vestir, desci as escadas seguindo o aroma delicioso que vinha da cozinha. O cheiro de frango assado, temperos e ervas preenchia a casa, misturando-se ao perfume de café recém-passado.
Ao chegar à cozinha, encontrei Nana de costas para mim, ocupada diante do fogão. Ela usava um avental florido, e um pano de prato repousava sobre seu ombro. Mesmo depois de tantos anos, aquela cena me trouxe uma sensação inesperada de conforto.
— Bom… bom dia! cumprimentei, ainda um pouco sem jeito.
Nana virou-se e abriu um sorriso carinhoso assim que me viu.
— Senhora Jenny…
— Somente Jenny, Naninha. Acordei atrasada. Será que a senhora poderia me arrumar uma xícara de café?
— Agora mesmo, filha. Mas vá para a sala, que eu servirei tudo lá.
— Não precisa, Naninha. Posso tomar café aqui mesmo.
— De jeito nenhum. Você é hóspede nesta casa e merece ser tratada como uma princesa. Vá se sentar.
Não adiantava discutir com Nana quando ela assumia aquele tom. Sorri e obedeci, acomodando-me à pequena mesa próxima à janela. Pouco depois, ela apareceu carregando uma bandeja farta.
Diante de mim, havia uma xícara de café fumegante, bolos caseiros, fatias de queijo Minas, requeijão cremoso e uma porção generosa de farofa. Meu estômago se manifestou no mesmo instante, embora eu não estivesse acostumada a começar o dia com um desjejum tão reforçado.
Em casa, meu café da manhã costumava ser bem mais simples: uma tigela de cereais, uma fruta ou, no máximo, um copo de suco de laranja. Meus pais eram cuidadosos com a alimentação, principalmente durante as viagens, e eu acabara me acostumando àquela rotina leve.
Ali, porém, tudo parecia seguir outras regras.
— Coma, menina ordenou Nana, servindo mais café. Você está magra demais.
— Não estou tão magra assim.
— Está, sim. Essas moças da cidade vivem de folhas e água. Aqui você vai aprender a se alimentar de verdade.
Comecei a rir.
— Então a senhora pretende me engordar durante o ano inteiro?
— Pretendo devolver você aos seus pais com saúde e cor nas bochechas.
Observei Nana se movimentar pela cozinha com a graça de quem conhecia cada canto daquela casa. Os anos haviam sido gentis com ela. Apesar de ter envelhecido, sua aparência não estava tão diferente da mulher que eu conhecera seis anos antes. Talvez fossem os mesmos olhos bondosos, o mesmo sorriso acolhedor e o jeito de cuidar de todos como se fossem parte da família.
— Você cresceu, Jenny comentou ela, apoiando as mãos na cintura. E ficou uma linda mocinha.
— Bonita, talvez. Mas crescer eu não cresci tanto assim. Continuo pequenina respondi, sorrindo.
— Ainda não acredito que, há alguns anos, o patrão andava com você na garupa do cavalo para todos os cantos da fazenda.
— Não foi há alguns anos, Naninha. Já faz muito tempo.
— Para mim, é como se tivesse acontecido ontem. Ainda consigo ver você, Brenda e Calaghan brincando na piscina.
A lembrança fez um sorriso surgir em meus lábios. Eu me recordava de correr pela propriedade com Brenda, enquanto Calaghan fingia estar irritado sempre que éramos barulhentas demais. Naquela época, ele parecia um homem completamente diferente. Era mais jovem, menos fechado e tinha uma paciência que eu adorava testar.
— Eu adorava Calaghan confessei. Ele era como um tio divertido. Sempre me mimava e fazia todas as minhas vontades.
— Fazia mesmo. Você mal precisava pedir alguma coisa. Bastava olhar para ele com aqueles olhos grandes, e o patrão já estava derrotado.
— Eu era uma criança encantadora.
— Você era uma pestinha encantadora.
Rimos juntas, mas a lembrança logo perdeu a leveza. O Calaghan que eu conhecera na infância havia desaparecido em algum momento. Com o passar dos anos, ele se tornara retraído, distante e silencioso. Eu nunca entendera a razão daquela mudança e, quando era mais nova, sofrera com a indiferença dele.
— Em que momento ele mudou tanto? perguntei.
O sorriso de Nana desapareceu lentamente.
— Foi depois que ele se casou com Veronica. A vida dele tomou outro rumo e aquela alegria que costumava existir nele foi desaparecendo aos poucos. Depois da morte repentina dela, tudo piorou. Hoje, ele é esse homem amargurado que você está conhecendo.
Baixei os olhos para a xícara entre minhas mãos.
— Como ela morreu?
Nana ficou em silêncio por alguns segundos. Seu olhar se perdeu em algum ponto da cozinha, como se tivesse sido transportada para uma lembrança dolorosa.
— É um assunto íntimo, e Calhagan não gosta que falem sobre isso.
— Entendo. Ele deve ter sofrido bastante. Primeiro perdeu a irmã, quando ainda era adolescente, e acabou assumindo a responsabilidade pela criação e pela educação de Brenda. Depois teve de enfrentar a morte da própria esposa.
— Ele perdeu muita coisa concordou Nana. Mais do que costuma admitir.
O que Calaghan precisa é de um novo amor comentou ela em seguida, quase como se estivesse falando consigo mesma.
A frase me pegou de surpresa. Senti uma estranha pontada no peito e tratei de escondê-la levando a xícara aos lábios.
— Mudando de assunto… onde está Brenda?
Nana percebeu minha tentativa de escapar da conversa, mas decidiu não insistir.
— Foi à cidade resolver algumas pendências. Não se preocupe, ela voltará a tempo do almoço.
— E Calaghan?
— Está cuidando dos porcos.
