Capítulo 6 Promessas ao vento.

Alejandro sentiu o ar sair-lhe dos pulmões. Os seus olhos estreitaram-se, estudando a mulher à sua frente com um misto de descrença e raiva crescente.

—A sua filha? —repetiu, a voz carregada de desprezo. — Atreve-se a chamá-la de sua filha depois de a ter abandonado?

Amélia deu um passo em frente, a sua postura desafiadora apesar do tremor nas mãos.

—Eu não a abandonei! —declarou, a voz a estalar.

Alejandro soltou uma gargalhada amarga, o seu rosto uma máscara de desdém.

—A sério? Então me conta como é que ela esteve naquele orfanato desde que era recém-nascida até eu a adotar? Não venha para cá tentar se fazer de mãe abnegada. Eu conheço a sua espécie, não é digna de ser mãe dela!

Amélia enrubesceu perante as palavras dele, mas manteve-se firme.

—Cale-se! E não diga disparates. Você não sabe nada sobre mim, nem sobre as circunstâncias que me levaram a afastá-la de mim. Não cabe a você me julgar! Agora estou em posição de tê-la comigo e vou recuperá-la! —sibilou, irritada.

Alejandro deu um passo ameaçador na sua direção.

—E o que te faz pensar que vou deixar que a leve? A Anaís está segura e feliz comigo, e não vou permitir que a tire de mim por nada deste mundo! —argumentou com firmeza.

—Não podem me tirar a minha filha! Eu sou a mãe biológica dela! Tenho todo o direito e vou a tribunal para tirá-la de você! —disse, levantando o queixo com determinação.

—Pode ir! Não tenho medo de enfrentá-la! Acha que pode me vencer? Sou um Valente, e a minha palavra é lei! E você não é ninguém! —fez sinal para os seus homens.

—Senhora, tem de vir comigo —disse um dos guardas, mas ela resistiu, gritando histericamente.

— Não vou embora sem a minha filha! — gritou, furiosa.

Perante a sua recusa, os homens agarraram-na, cada um por um braço, e começaram a arrastá-la para longe.

—Larguem-me! —gritou Amélia, debatendo-se contra os guardas que tentavam expulsá-la da mansão.

Os seus olhos, cheios de fúria e desespero, estavam fixos em Alejandro.

—Você não pode me afastar da vida da minha filha! Isso não acabou, Valente! Vou lutar por ela até o meu último suspiro!

Alejandro observava a cena com um misto de desprezo e curiosidade. Algo na ferocidade de Amélia intrigava-o, apesar do seu aparente desdém.

—Levem-na daqui —ordenou com um aceno desdenhoso—. E certifiquem-se de que ela nunca mais põe os pés na minha propriedade.


Enquanto Amélia era arrastada para a saída, a pequena Anaís, ansiosa por não ver o pai, dirigiu-se até a varanda e avistou a cena.

Os seus olhinhos, cheios de confusão e medo, fixaram-se na bela mulher que prometera voltar para buscá-la. O seu coração acelerou ao ver aquela mulher ser levada para fora da mansão.

Anaís abriu a boca e emitiu um som alto, gutural, um pouco áspero. As suas mãos ergueram-se instintivamente, movendo-se rapidamente para expressar o grande medo e angústia que a dominavam, enquanto as lágrimas começavam a rolar pelo seu rosto.

—AAAHHHRRGHHH!

Amélia, ao ouvir o grito da filha, sentiu o coração dilacerar-se. Com forças renovadas, conseguiu libertar-se momentaneamente do aperto dos guardas e virou-se em direção à varanda.

—Anaís, meu amor! A mamãe vai voltar para te buscar, eu prometo! — chorou, antes de ser novamente agarrada pelos homens.

Alejandro, surpreso com o aparecimento da filha, franziu o cenho e ordenou com voz severa:

—Lucretia, leva a menina imediatamente!

A mulher que ele chamou apressou-se a ir até a varanda, mas Anaís, num acesso de medo e desespero, escapou-lhe e fugiu.

Correu pelas escadas abaixo com uma agilidade impressionante. Os guardas tentaram apanhá-la, mas ela era como um ratinho escapando dos gatos.

Anaís desviava-se dos móveis e saltava por cima de obstáculos com uma destreza surpreendente para a sua idade, deixando todos na sala atônitos.

A menina esgueirava-se como uma sombra, aproveitando o seu tamanho para passar por entre as pernas dos guardas e deslizar por baixo das mesas. Os seus olhos, cheios de lágrimas e determinação, estavam fixos na porta da frente, na direção da bela mulher.

Todos corriam atrás dela, mas não conseguiam alcançá-la. Anaís sentia o coração disparado, movida pelo medo e pela necessidade de encontrar a mãe.

Os gritos dos guardas e o som dos passos ecoavam por toda a mansão, criando um ambiente de caos e desespero.

Nesse momento, Alejandro apareceu e conseguiu detê-la, segurando-a suavemente pelo braço.

—Anaís, acalma-te! —disse ele.

Por um momento, ela esqueceu-se de que era surda.

Ele afastou-a um pouco, colocando-a à sua frente, repetindo as suas palavras em língua gestual e verbalmente.

—Calma! Vai correr tudo bem.

A menina respondeu de imediato, agitando as mãos de forma agitada, expressando a intensidade das suas emoções.

—Você é mau! Mentiu para mim!

Alejandro, visivelmente perturbado com a cena, passou a mão pelo cabelo perfeitamente penteado. Por um instante, um lampejo de dúvida atravessou o seu olhar, mas foi rapidamente substituído pela sua habitual frieza.

—Eu não menti —respondeu ele, gesticulando calmamente.

—Mentiu, sim! Você prometeu trazer minha mãe! E eu vi você mandá-la embora... É por isso que não quero ser sua filha! — acusou ela, furiosa. — É melhor me mandar de volta para o orfanato ou trazer minha mãe, senão não como mais!

A menina cruzou os braços, encarando Alejandro com determinação.

Os dois olhares, igualmente intensos, enfrentaram-se num duelo de vontades.

Alejandro sentiu um arrepio na espinha ao reconhecer, nos olhos de Anaís, não só a determinação que via em Amélia, a mulher que acabara de ser expulsa, mas também a sua própria.

Por um momento, a sua máscara de frieza cedeu, revelando uma ponta de vulnerabilidade que ele rapidamente escondeu.

Com um suspiro quase impercetível, Alejandro ajoelhou-se diante de Anaís, igualando a sua altura. As suas mãos moviam-se com uma delicadeza que não lhe era característica enquanto respondia:

—Anaís, as coisas são mais complicadas do que parecem. Aquela mulher... não sabemos se é realmente a tua mãe... Além disso, há razões para ela não poder estar aqui agora.

A menina franziu o cenho, e as suas pequenas mãos moveram-se rapidamente:

—Que razões? Por que não me diz? Eu sou pequena, mas entendo mais do que você pensa. Se não me disser a verdade, então não vou comer! —concluiu, cruzando os braços.

Alejandro cerrou os punhos, tentando manter o controlo.

—Muito bem, Anaís. Se queres jogar esse jogo, vá em frente. Mas aviso-te que não sou um homem que cede facilmente a caprichos infantis.

A menina manteve a postura, os olhos brilhando com um misto de desafio e dor.

Alejandro tentou ignorar... Mas algo naquele olhar lembrava-o de si mesmo, da sua versão mais jovem.

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