Capítulo 10: O que você está fazendo?
Michael ficou surpreso.
Amelia parecia completamente imperturbável diante da presença intimidadora dele. Se tanto, parecia ainda mais radiante.
Por instinto, ele apertou a moeda no bolso do paletó — ela o havia beijado à força na primeira vez que se encontraram, entregado uma moeda e dito que pagaria o restante na próxima vez.
Ele não esperava vê-la de novo tão cedo.
Estava curioso para ver como ela pretendia pagá-lo desta vez.
Assim que Michael entrou no local, Amelia sentiu a presença dele.
Ela ergueu os olhos e, por entre a multidão agitada, seu olhar pousou em Michael no canto.
Michael, sentado numa cadeira de rodas, mantinha a mão direita apoiada no apoio de braço, com Pax de pé atrás dele, respeitoso.
Mesmo sentado, a figura alta e imponente de Michael era evidente; sua altura parecia ser de pelo menos 1,96 m.
O terno preto de risca de giz, feito sob medida, realçava os ombros largos e a cintura estreita. O rosto era marcantemente bonito, embora os olhos fossem escuros e carregados.
Ele exalava uma aura ameaçadora; sua presença era fria e formidável, fazendo as pessoas ficarem instintivamente em guarda.
Nascido com uma presença tão feroz, ele estava destinado ou a uma morte precoce, ou à grandeza. Embora sua identidade exata ainda fosse desconhecida, era claro que ele detinha um poder considerável.
Amelia inclinou a cabeça, deixando o olhar cair sobre as pernas longas de Michael, cobertas pela calça preta do terno.
Então, ele era deficiente.
Quando se encontraram pela primeira vez, Michael estava dentro de um carro, e ela estava fraca demais para perceber.
Sentindo o olhar de Amelia, os lábios de Michael se comprimiram numa linha fina, e seus olhos ficaram ainda mais frios.
Ela estava olhando para as pernas dele.
Como todo mundo, ela também tinha preconceito por causa da deficiência dele?
Enquanto a testa de Michael se franzia, Amelia de repente abriu caminho pela multidão na direção dele.
A atenção da festa estivera em Amelia, mas, quando ela se moveu, todos notaram Michael sentado no canto mal iluminado.
Muitos rostos assumiram expressões de medo.
Michael também estava na festa!
A família Johnson detinha um poder imenso em River City, incomparável ao de qualquer outra família. Michael, o único herdeiro, era um nome que todos conheciam.
Mas o que realmente aterrorizava as pessoas não era a riqueza de Michael, e sim a aura demoníaca dele.
O rosto inexpressivo e a presença esmagadora eram um aviso claro para que ficassem longe.
Corria o boato em River City de que qualquer pessoa — exceto Eric — que chegasse a menos de um metro de Michael seria expulsa por seu guarda-costas, Pax.
Certa vez, uma mulher tentou se aproximar de Michael, esperando se casar com ele, mas, antes que pudesse chegar perto, apontaram uma arma para ela, deixando-a em prantos de terror.
Desde então, nenhuma mulher em River City ousava se aproximar de Michael; algumas até o evitavam completamente.
Quem ousaria? Claro, estar com Michael significava riqueza sem fim, mas dinheiro valia o risco de perder a vida?
Os círculos mais influentes de River City sussurravam todo tipo de boato sobre o acidente de Michael. Alguns diziam que ele tinha ficado impotente, e que era por isso que evitava mulheres, para manter a verdade escondida. Outros afirmavam que ele era um psicopata que mantinha as pessoas afastadas durante o dia e as torturava no porão à noite.
Independentemente das histórias, o consenso era claro: fique bem longe de Michael, ou arrisque uma morte desconhecida.
Mas essa nova garota da família Martinez, Amelia, parecia não ter medo de nada.
Ao vê-la ir direto até Michael, os olhos da multidão se arregalaram.
Isso ia ser interessante.
Enquanto Amelia se aproximava, Pax se moveu instintivamente para impedi-la, mas Michael, com os olhos fixos nela, ergueu levemente a mão, sinalizando para Pax recuar.
— Não esperava ver você de novo tão cedo.
Amelia parou diante da cadeira de rodas de Michael, os olhos se franzindo com um sorriso.
Michael, ao ver o rosto de Amelia com clareza, ficou visivelmente surpreso.
Quando se encontraram pela primeira vez, ontem à noite, Amelia estava um desastre, suja e desgrenhada. Ele chegou a confundi-la com uma mendiga.
Mas agora, ela parecia tão composta e deslumbrante, um contraste gritante com o estado anterior, o que tornava sua aparência atual ainda mais marcante.
Michael não disse mais nada; sua aura era fria e severa, o olhar afiado.
Uma garota tímida já estaria tremendo a essa altura, mas Amelia parecia imperturbável pela presença intimidadora de Michael, sem demonstrar medo.
Kelly, no meio da multidão, não conseguiu se conter e comentou:
— A Amelia enlouqueceu? Primeira festa e ela vai direto no Sr. Johnson. Tá com vontade de morrer!
— Ela tá mesmo falando com o Sr. Johnson? O Pax vai botar ela pra fora a qualquer segundo!
Mas não era só conversa.
Quando Michael não respondeu, Amelia se curvou, os dedos finos cutucando a perna dele. — O que aconteceu com a sua perna?
Amelia piscou, como se estivesse fazendo uma pergunta simples.
Todo mundo na festa, incluindo Pax, ficou em choque.
Porra, a Amelia queria morrer?
Ninguém jamais ousara tratar Michael assim, muito menos fazer uma pergunta tão direta.
A deficiência de Michael era um assunto proibido, e qualquer um que tocasse no tema enfrentava consequências severas.
Michael inspirou fundo e respondeu friamente:
— Acidente de carro.
Então era uma lesão.
Amelia franziu levemente a testa e fez algo ainda mais chocante: colocou a mão na coxa de Michael, esfregando-a de leve.
A coxa de Michael ainda era musculosa e firme, não fraca nem atrofiada, o que indicava que ele mantinha uma rotina de exercícios e reabilitação apesar de estar numa cadeira de rodas.
A paralisia dele provavelmente era consequência de dano nos nervos causado pelo acidente. Se ela tivesse acesso total ao poder da própria alma, provavelmente conseguiria curá-lo por completo.
Mas, no estado atual, ela só conseguiria devolver um pouco da sensibilidade. Amelia semicerrrou os olhos.
A mão dela subiu mais pela coxa, se aproximando de uma área mais íntima, quando Michael, de repente, segurou o pulso dela.
Michael ergueu o olhar, a voz rouca:
— O que você está fazendo?
