Capítulo 5: Sua verdadeira identidade
— Do que diabos você está falando?
Rachel ficou atônita, sem jamais imaginar que Amelia faria uma coisa dessas. Ela se virou depressa para Kevin e os outros para esclarecer a situação.
— Não, Kevin, eu não peguei a mão da Amelia e coloquei no meu pescoço. Ela foi direto na minha garganta no segundo em que entrou!
— Se eu não tivesse lutado para tirá-la de cima de mim, como eu teria acabado arranhando o braço dela desse jeito?
— Mãe, olha o meu pescoço — está vermelho e inchado por causa da Amelia tentando me estrangular!
Havia marcas vermelhas inconfundíveis no pescoço de Rachel, e todos voltaram os olhos para Amelia.
— Deixa ficar do jeito que Rachel disser.
Amelia enxugou as lágrimas e escondeu o braço arranhado atrás das costas, como se tivesse desistido de se defender.
— Você...
Kevin olhou para Amelia, que lutava para conter as lágrimas, fingindo firmeza.
De repente, ele se lembrou de como ela parecera feliz quando ele se ofereceu para secar o cabelo dela, os olhos brilhando com inocência.
Como alguém com um rosto tão inocente poderia agir com tanta crueldade, tentando estrangular Rachel, uma pessoa que ela acabara de conhecer?
Além disso, Amelia era ainda mais magra que Rachel. Como poderia ter força para dominá-la?
Ainda assim, Kevin não conseguia se convencer de que Rachel acusaria Amelia falsamente, considerando o quanto ele havia se importado com Rachel ao longo dos anos.
— Kevin, eu quero voltar para o interior — disse Amelia, os olhos vermelhos enquanto olhava para ele. — Você pode comprar uma passagem para mim e me levar até a rodoviária?
— Você quer voltar para o interior? — Kevin perguntou, surpreso com o pedido inesperado de Amelia.
Ele sabia que Amelia passara todos esses anos apenas com Rupert, sem nunca ter experimentado o calor de uma família.
Além disso, agora que Rupert tinha partido, voltar para o interior significaria que Amelia viveria sozinha, sem ninguém para cuidar dela.
Sendo alguém que compartilhava metade do sangue dela, como Kevin poderia permitir que isso acontecesse?
— De jeito nenhum!
Rachel ficou espantada ao ver que Jenny, que sempre ficava do lado dela e não gostava de Amelia, foi a primeira a se opor à partida de Amelia.
— Mãe?
Rachel encarou Jenny, incapaz de acreditar no que estava vendo.
— Amanhã à noite é o banquete beneficente da família Williams. Recebi um convite hoje à tarde — Vaughn convidou Amelia pessoalmente, dizendo que queria conhecê-la.
A expressão de Jenny permaneceu fria enquanto ela encarava Amelia.
— Mesmo que você queira voltar para o interior, pelo menos espere até depois do banquete de amanhã.
Jenny era muito mais perspicaz que Rachel. Ela entendia que o noivado com a família Williams não tinha sido oficialmente desfeito, então sair agora não era uma opção. A família Williams poderia vir procurá-las.
Por que Jenny insistia que Amelia ao menos comparecesse ao banquete? Porque tinha certeza de que Amelia passaria vergonha e seria rejeitada pela família Williams.
Vaughn adorava Quentin. Se ele não aprovasse Amelia, não havia chance de permitir que ela se tornasse noiva de Quentin — o noivado inevitavelmente seria desfeito.
Então Jenny poderia se livrar de Amelia sem sentir culpa alguma.
— Está bem — disse Amelia, mordendo o lábio. — A mamãe também mencionou que eu deveria conhecer o Sr. Williams. Vou fazer o meu melhor amanhã.
Jenny esperava que Amelia não conseguisse se sair bem. Queria que ela passasse a maior vergonha possível no banquete — quanto maior a humilhação, melhor.
Afinal, Amelia não era filha dela e não tinha sido educada pela família Martinez. Mesmo que se humilhasse, isso não mancharia a reputação da família.
Rachel era esperta. Depois de um breve momento de confusão, ela rapidamente entendeu o plano de Jenny e segurou a mão de Amelia.
— O incidente de hoje deve ter sido um mal-entendido. Eu arranhei Amelia sem querer. Espero que ela não guarde rancor de mim.
— No banquete de amanhã, a família Williams me convidou para tocar a peça de abertura no piano. Espero que Amelia me prestigie da plateia.
Amelia lançou um olhar para Rachel.
— Já que Rachel não fez de propósito, não vou guardar rancor dela.
A mudança repentina de atitude de Rachel era evidente. Se Rachel quisesse encenar, Amelia entraria no jogo.
A polidez fingida de Rachel e Amelia passou batida por Tobias; ele era direto e esquentado demais para perceber.
— Espera, que mal-entendido? Você tentou ou não tentou estrangular a Rachel? — Tobias fuzilou Amelia com o olhar. — Já vou avisando: se você ousar intimidar a Rachel, eu...
— Tobias!
Kevin continuava sendo Kevin. Bastou um olhar severo, e Tobias se calou na hora.
Os olhos rebeldes de Tobias mostraram um traço de contrariedade enquanto ele olhava para Rachel com profunda preocupação, como se Rachel, que nem era parente de sangue, fosse mais próxima dele do que Amelia, que compartilhava metade da linhagem.
— Certo, já está tarde. Todo mundo volte para os seus quartos e descanse.
Ao comando de Kevin, todos os outros saíram do cômodo, deixando Amelia sozinha.
Amelia olhou para o arranhão no braço e, de repente, sentiu falta de Michael, que conhecera naquela noite.
Se Michael estivesse aqui, alguns segundos beijando-o curariam essas lesõezinhas na hora.
O luar entrou pela janela quando Amelia se aproximou e a abriu, apoiando a mão direita no parapeito do lado de fora.
Quando levantou a mão, uma rachadura surgiu no parapeito de cimento.
De dentro da fenda, uma rosa vermelho-viva despontou, florescendo orgulhosa sob a luz da lua e exalando uma fragrância incomum, sedutora.
Ela esperava que Shadow seguisse o cheiro e viesse até ela.
Originalmente um demônio de rosas nascido no inferno, ela vivera por dez anos num corpo emprestado depois de vir para o mundo humano, até ser caçada pelo clã de Caçadores de Demônios, o que a obrigou a fingir a própria morte.
Ela vagara pelo mundo por muito tempo, até hoje, quando encontrou o corpo recém-falecido de Amelia, que tinha 95% de compatibilidade com sua alma.
Embora a dona original daquele corpo tivesse tido uma vida dura, agora que renascera com essa identidade, não permitiria mais que a maltratassem.
Para evitar os Caçadores de Demônios, ela se mudara para uma montanha remota havia um ano, raramente contatando alguém. Agora, ninguém saberia de sua morte.
Sem um anúncio de falecimento, a conta bancária da vida anterior ainda poderia ser usada. Ela poderia acessar o dinheiro sempre que precisasse.
No entanto, os Caçadores de Demônios ainda poderiam estar monitorando sua conta. Usar aquele dinheiro poderia expor seu paradeiro atual.
Tanto faz; o dinheiro não ia sumir.
Além disso, as conexões e relações que ela havia construído usando o corpo anterior eram mais valiosas para o atual.
No dia seguinte.
De manhã, enquanto a família Martinez estava fora, Amelia soube pelos empregados como funcionava o ranking de poder das famílias em River City.
As quatro grandes famílias aristocráticas da alta sociedade de River City eram os Johnson, os Williams, os Blackwood e os Gonzalez. Essas famílias eram a elite, sendo os Johnson os mais poderosos.
A família Jenkins era considerada de segunda linha nesse círculo, e a família Martinez mal conseguia se manter, principalmente graças à ligação com os Jenkins e aos filhos talentosos.
A família Martinez tinha cinco filhos homens e uma filha, todos excepcionalmente talentosos e bonitos, o que os tornava populares na alta sociedade.
Em especial Rachel, que era linda, gentil, talentosa e tinha bons relacionamentos com muitos aristocratas.
O mais importante: a alta sociedade de River City não sabia que Rachel havia sido adotada pela família Martinez.
Quando Jenny adotou Rachel, alegou que ela fora enviada para o exterior por problemas de saúde e trazida de volta aos cinco anos.
O banquete beneficente desta noite, organizado pela família Williams, também seria uma reunião familiar da aristocracia, tornando a ocasião grandiosa.
Às três da tarde, um empregado bateu à porta de Amelia.
— Senhorita Amelia Martinez, a senhora Jenny Martinez quer levar a senhorita e a senhorita Rachel Martinez para maquiagem e produção. O carro já está pronto lá fora. Por favor, saia assim que possível.
