Capítulo 9: É realmente ela
O luar claro e fresco banhava Amelia num brilho suave, prateado. O cabelo farto e dourado de Amelia estava preso de forma displicente, com apenas alguns cachos delicados emoldurando o rosto; o penteado simples — combinado com brincos de strass com franjas levemente chamativos — fazia seu rosto, já pequeno, parecer ainda menor.
Ela ergueu o olhar, revelando um vestido sereia de seda azul-profundo. Duas alças à francesa repousavam sobre seus ombros arredondados, realçando o pescoço gracioso e as clavículas perfeitas. O tecido fino e fluido do vestido destacava sua silhueta deslumbrante. O modelo sem costas deixava à mostra as costas impecáveis de Amelia, com duas tiras finas de strass cruzadas sobre a pele. Elas desciam até a cintura e terminavam num laço grande e intricado, que cintilava como fragmentos da Via Láctea a cada movimento.
— Meu Deus, Rachel, de onde o Kevin tirou essa garota? — Kelly estava boquiaberta. — Ela é linda demais! E não é só a aparência. Ela não está usando o Deep Sea?
— O vestido sereia desenhado pela Sra. Simmons antes de se aposentar? — outra completou. — O Sr. Bennett não comprou esse vestido por oito milhões de dólares? Como é que ela está usando?
— O Sr. Bennett deve ter emprestado pra ela. Não dá pra perceber? A maquiagem e o styling dela hoje são claramente obra do Sr. Bennett.
— Quem é essa mulher da alta sociedade? — A boca de Grace se abriu. — Ela é tão bonita e elegante, e parece próxima do Sr. Bennett. Como nunca ouvimos falar dela? Ela acabou de voltar do exterior?
Os convidados da festa estavam visivelmente impressionados, e Kelly e as amigas continuaram especulando. Rachel, porém, lutava para manter a compostura.
Rachel mordeu o lábio, tendo dificuldade para falar.
— Eu estou bem.
— Que bom — disse Quentin, mas não conseguiu evitar de lançar um olhar para Amelia ao lado de Kevin. — Quem é essa garota com o Kevin? Nunca vi antes.
Enquanto ele falava, Amelia e Kevin trocaram algumas palavras e, então, Amelia caminhou até eles.
— Mana — cumprimentou Amelia com um sorriso suave. — Eu encontrei o Kevin perto da casa do Sr. Bennett, então viemos juntos.
O tom dela era caloroso e educado.
— Você e a mamãe chegaram cedo. Espero não estar atrasada.
— Mamãe? — Todos ao redor ficaram atônitos.
— Você... você é a Amelia do interior? — Kelly gaguejou, completamente chocada.
— Vocês são as amigas da Rachel? — perguntou Amelia, estendendo a mão com delicadeza. — Oi, eu sou a Amelia. Prazer em conhecer vocês.
Foi como se o tempo tivesse congelado. As mulheres da alta sociedade, antes tagarelas, agora estavam sem palavras, encarando a Amelia elegante. Mas a pessoa mais chocada era Quentin.
— Você... você é a Amelia? — Quentin estava pasmo; os olhos e a voz cheios de incredulidade.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Amelia, fingindo não reconhecê-lo. — Posso saber quem você é?
Quentin não conseguia acreditar. Amelia não tinha nada a ver com o que ele imaginara — esguia e graciosa, traços delicados, muito distante da imagem escura e sem atrativos que ele tinha na cabeça.
“Era essa a noiva que Vaughn tinha arranjado para ele?”
Diante do olhar límpido e levemente confuso de Amelia, Quentin se viu sem palavras, prendendo a respiração.
Ao ver o olhar fixo de Quentin sobre Amelia, os ombros de Rachel tremeram de raiva, mas ela forçou um sorriso.
— Amelia, de onde você tirou esse vestido? Eu me lembro de a mamãe ter escolhido outro pra você.
— O que foi? — Amelia perguntou, baixando os olhos para o vestido. — Depois que você saiu, o Sr. Bennett me ajudou a escolher este e fez minha maquiagem e meu styling.
— Sr. Bennett? — Grace não resistiu e perguntou. — Você não conhece o Sr. Bennett?
Amelia balançou a cabeça, sincera.
— Não, não conheço.
— Então por que ele te ajudou com a maquiagem? — Grace respirou fundo. — E o sr. Bennett valoriza os… da srta. Simmons…
— Os designs. Por que ele emprestaria o vestido dela para uma estranha?
— O sr. Bennett disse que sentiu uma conexão comigo quando me viu — respondeu Amelia — e se ofereceu para ajudar quando soube que eu viria a uma festa hoje à noite.
— E, Rachel, não se preocupe. O sr. Bennett não me cobrou. Só pediu que eu devolvesse depois. — …o vestido depois da festa.
Que sorte — ganhar uma produção e uma consultoria de estilo de Ellison de graça e ainda usar um vestido único desenhado pela srta. Simmons… pela “misteriosa Rosie” sem pagar nada. Por que elas nunca tinham vivido uma fortuna dessas? Mas, com aquela explicação, o grupo se sentiu um pouco mais aliviado.
— Não é à toa que você está tão deslumbrante — Kelly debochou. — O sr. Bennett tem talento para transformar o comum em extraordinário. Até uma garota feia pode virar uma beleza nas mãos dele.
— Mas você cresceu no interior, então sua pele deve ser péssima — disse Kelly, condescendente, lançando um olhar para Amelia. — E, mesmo assim, sua maquiagem está impecável. O sr. Bennett é mesmo impressionante.
No mundo de Kelly, aristocratas como eles valorizavam acima de tudo a linhagem. Uma garota do interior como Amelia, uma filha ilegítima, não merecia estar no meio deles.
Amelia tinha roubado a cena assim que chegou, atraindo a admiração de muitos. Kelly, sem saber do passado de Amelia, tinha se juntado aos elogios — o que agora a irritava. Ela pretendia zombar de Amelia, mas Amelia respondeu, inocente:
— Não.
Kelly franziu a testa.
— Não o quê?
— Quero dizer… — disse Amelia, simplesmente, esfregando o rosto. — O sr. Bennett só fez minhas sobrancelhas e o batom. Ele não usou base, então não teria problema nenhum como os que você mencionou.
— O quê? — Os olhos de Kelly se arregalaram de novo.
Sério? Aquele rosto perfeito, liso, era de uma garota do interior que nem estava usando maquiagem? Elas gastavam milhares com skincare e tratamentos regulares em salões caríssimos e, ainda assim, não conseguiam um resultado daqueles.
Kelly ficou sem palavras, o rosto ardendo de frustração. Rachel vinha sendo ignorada desde que Amelia chegara. Muitos convidados ainda lançavam olhares furtivos para Amelia e cochichavam entre si. Por anos, Rachel sempre fora o centro das atenções nesses eventos. Aquilo costumava ser o palco dela para brilhar. Agora, ela não passava de um cenário de fundo para Amelia. As unhas recém-feitas de Rachel cravaram nas próprias palmas.
— Quentin, a apresentação de abertura vai começar. Você pode me ajudar a me preparar? — pediu Rachel, baixinho, segurando a mão dele.
— Claro.
Quentin namorava Rachel havia quase seis meses e sempre a mimava. Embora Amelia o tivesse impressionado, ele ainda achava Rachel superior. Afinal, Rachel era a filha legítima da família Martinez, bonita, talentosa e realizada — como uma filha ilegítima criada no interior como Amelia poderia se comparar?
Ao ver Quentin concordar, Rachel sorriu; mas, ao se virar, sua expressão se fechou.
Por mais bonita que Ellison a tivesse deixado, Rachel fora treinada com rigor pela família Martinez e se destacava em várias artes… e alcançara o mais alto nível no piano aos doze anos. O que Amelia sabia fazer — assobiar? Provavelmente nunca tinha nem visto um piano de verdade.
Quando Rachel se apresentasse, todos os olhares voltariam para ela. Ela mostraria a Amelia que as diferenças entre elas iam muito além de um vestido. Enquanto isso…
Michael, sentado numa cadeira de rodas num canto do salão, mantinha o foco em Amelia, os olhos se estreitando de leve.
Era ela.
A garota que o beijara na rua ontem — Amelia, a filha ilegítima recém-chegada da família Martinez.
