Capítulo 1

Eles me deixaram para morrer num laboratório em chamas enquanto salvavam minha irmã farsante. Grande erro.

Eu não dormia havia seis meses, aperfeiçoando o soro neural que salvaria a vida da mamãe. Um frasco. Uma chance. Aí minha irmã adotiva, Mia, pegou e o espatifou no chão, soluçando sobre como eu era cruel com uma pessoa “deficiente”.

Mamãe e papai engoliram a história. Meu noivo, Ryan, concordou com a cabeça — provavelmente porque estava comendo a Mia sempre que tinha oportunidade. Quando o fogo me encurralou no laboratório, eles carregaram a Mia “paralisada” para fora e me deixaram esmurrando o vidro reforçado, sufocando com a fumaça.

Quer saber a melhor parte? Aquela cobra manipuladora saltou da cadeira de rodas e disparou para a segurança no segundo em que achou que ninguém estava olhando.

Segunda chance de vida? Puta que pariu, sim.

Estou vendo Mia erguer aquele tubo de ensaio de novo, pronta para destruir tudo. Mas, em vez de avançar como da última vez, eu me recosto na cadeira.

— Pode quebrar — digo, dando de ombros. — Não sou eu que vou sofrer.

Vamos ver como isso termina quando eu não sou mais a idiota ingênua.


Ponto de vista de Emma

— Emma! Que porra é essa?! O que é que há de ERRADO com você?!

O grito me acertou como um tapa.

Eu ergui a cabeça num sobressalto. Meus pulmões ainda queimavam com a fumaça da minha vida passada, minha pele ainda sentia as chamas. Meu corpo inteiro tremia.

Sob as luzes agressivas do laboratório, encarei aqueles rostos familiares e doentes.

Mamãe, Sarah, estava ali, furiosa, o dedo quase enfiando no meu nariz. Papai, David, protegia Mia na cadeira de rodas.

Aos pés de Mia — um líquido azul se espalhando por toda parte. Estilhaços de vidro espalhados pelo chão.

O soro de reparo neural. Seis meses de inferno. Três horas de sono por noite. Milhares de experimentos fracassados. O único medicamento capaz de aliviar a dor nervosa hereditária de Sarah.

Essa mesma cena tinha acontecido na minha vida passada.

Mia se oferecera para trazer café e então “acidentalmente” bateu a cadeira de rodas na plataforma de temperatura, destruindo o frasco.

Naquela época, eu entrei em pânico. Empurrei ela para o lado e caí de joelhos, tentando desesperadamente salvar o líquido com um conta-gotas. Sarah me culpou por ter deixado o remédio onde Mia podia alcançar. David me ordenou que eu o recriasse em três dias.

Para salvar Sarah, eu me tranquei neste laboratório por setenta e duas horas seguidas.

Na terceira noite, um incêndio começou. As portas foram lacradas pelo lado de fora.

Eu socava o vidro reforçado enquanto as chamas devoravam tudo ao meu redor. Eu vi David, Sarah e meu noivo, Ryan, surgirem em meio à fumaça. Eles ignoraram meus gritos, correndo direto para Mia no corredor.

Nos meus últimos instantes antes de o fogo me consumir, eu vi a verdade.

Mia — que alegava paralisia havia três anos — de repente SALTOU da cadeira de rodas e disparou para um lugar seguro! Ela ainda olhou para trás e sorriu enquanto eu queimava!

— Você é SURDA? Eu estou falando com você! — Sarah retrucou. — Você SABIA que a Mia não consegue andar direito! Por que colocar uma coisa tão perigosa ao alcance dela? Você armou isso!

Mia apertou o arranhãozinho no braço, lágrimas escorrendo. — Desculpa, mãe. Por favor, não culpe a Emma. A culpa é minha — eu queria ajudar a organizar o espaço de trabalho dela. Minhas pernas ficaram dormentes e a cadeira de rodas escorregou. Eu só… eu sou um peso…

—Para com isso, Mia! Nada disso é culpa sua! —David a abraçou com força e então me fuzilou com o olhar. —Emma, olha o que você fez com a sua irmã! PEÇA DESCULPAS!

Pedir desculpas?

Eu ri, fria e amarga. —Você ao menos sabe o que tinha naquele frasco? Seis meses de pesquisa. Um soro de reparo neural desenvolvido especificamente para a condição da Sarah. O único tratamento que podia realmente funcionar.

—E daí? —David me dispensou com um gesto. —É remédio, não é? Você supostamente é essa gênia que entrou na Johns Hopkins. Quão difícil pode ser preparar outro lote? Para de ser tão dramática, porra!

Encarei a poça azul no chão. O fogo já tinha queimado até a última gota de amor que eu sentia por essa família.

—Eu não vou fazer outro.

As palavras saíram lisas, sem emoção.

Silêncio absoluto.

Os olhos de Sarah se arregalaram. —O que foi que você disse?

—Eu disse que não vou fazer outro lote. —eu a encarei sem piscar. —Aquele era o último frasco. Todos os materiais principais acabaram. Mesmo com compostos substitutos, a extração levaria no mínimo seis meses. Está destruído. Para sempre.

—Você tá MENTINDO! —o punho de David bateu com força na bancada. —Emma, você tá fazendo birra! A dor da sua mãe pode piorar a qualquer momento. Se você apostar a vida dela por despeito, eu juro por Deus—

Mia chorou mais alto. —Emma, eu sei que você me odeia por eu ter estragado uma coisa tão importante... mas com certeza você guardou amostras de backup, né? Você é sempre tão cuidadosa com tudo...

—Isso! —Sarah se meteu. —Emma, para de tentar assustar a gente! Você com certeza tem mais escondido em algum lugar!

—Pensem o que quiserem.

Eu passei por cima dos cacos de vidro e puxei a minha mala.

—O que você está FAZENDO? —a voz de Sarah falhou quando eu comecei a arrumar as coisas.

—Indo embora. —enfiei meu laptop e meus HDs na mala. —Já que vocês estão todos convencidos de que eu sou alguma psicopata que tortura pessoas com deficiência por diversão, eu poupo vocês do trabalho de ter que lidar comigo.

—Emma! Você enlouqueceu? —David avançou na minha direção, tentando pegar minha mala. —Sai por aquela porta e eu corto cada centavo! Você não vai receber mais nada de mim nunca mais!

Eu me desviei dele e fechei o zíper. —David, minhas bolsas e os royalties das minhas patentes cobrem minhas despesas desde que eu tinha dezesseis anos. Enquanto isso, você vem desviando dezenas de milhares das minhas contas todo mês pra bancar as compras da Mia. Achou mesmo que eu não ia perceber?

David ficou vermelho vivo. A mão dele se ergueu.

Eu nem pisquei. —Vai em frente. Me bate. Esse tapa vai virar manchete amanhã em todas as revistas médicas: “Executivo de tecnologia agride prodígio adolescente da medicina”. Tenta.

A mão dele congelou no ar.

Peguei a mala e fui em direção à porta.

Ao passar por Mia, eu vi a encenação —ainda soluçando como se tivesse o coração despedaçado. Mas os olhos dela cintilavam de vitória.

Ela achava que tinha ganhado. Acreditava que me afastar lhe daria controle total sobre o afeto e os recursos dos nossos pais.

Se ao menos ela soubesse o que tinha destruído de verdade.

—Emma! Se você sair desta casa, nem OUSE voltar rastejando depois! —Sarah berrou atrás de mim.

Eu não olhei para trás. Só pisei na chuva gelada.

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