Capítulo 2
Ponto de vista de Emma
Eu me mudei para o dormitório individual premium que a universidade tinha me designado.
Como a primeira colocada da Competição Nacional Jovem de Inovação Médica, a faculdade me ofereceu recursos de primeira linha.
Eu mal tinha terminado de desempacotar quando batidas urgentes ecoaram do lado de fora.
Abri a porta. Ryan estava ali.
Ele vestia um terno de grife perfeitamente ajustado e segurava um buquê de rosas vermelhas — minhas flores menos favoritas. O rosto estava tenso, com aquela expressão condescendente que eu conhecia bem demais.
— Qual é o seu problema, Emma? — Ryan nem sequer entrou antes de começar. — O David me ligou. Disse que você não só desrespeitou todo mundo como fugiu de casa? Você tem noção de que o estado da Sarah piorou por causa do quanto você a deixou abalada?
Olhando para aquele rosto — o mesmo que tinha tirado a Mia do incêndio sem nem olhar para trás — meu estômago revirou.
— Terminou? Ótimo. Agora sai. — Eu me mexi para bater a porta.
A mão de Ryan disparou, impedindo-a de fechar. Um choque passou pelo rosto dele. Era óbvio que ele não esperava essa atitude de mim — de alguém que antes idolatrava o chão que ele pisava.
— Emma, que porra é essa? — Ryan engoliu a raiva, assumindo um tom paternalista. — A Mia é deficiente. Ela tem TEPT severo. Ela é sua irmã — pega leve com ela. Ela não quebrou aquele frasco de propósito. Volta comigo agora, admite que estava errada, pede desculpas pra Mia e a gente dá isso por encerrado.
Eu senti aquele cheiro enjoativo e adocicado vindo da gola dele.
Perfume de bluebell. O cheiro característico da Mia.
Na minha vida passada, eu fui cega o bastante pra acreditar naquela merda de “preocupação de irmão”.
— Ryan, esse perfume na sua gola… a Mia acabou de deixar isso aí, não foi? — eu sorri, fria. — O quê, saiu direto da cama dela pra vir me dar sermão?
O pânico cruzou o rosto dele antes de a raiva tomar conta.
— Do que você tá falando?! Eu só tava consolando a Mia e o cheiro pegou! Emma, desde quando você virou uma vadia?
— Uma vadia? — eu ri. — Já que eu sou uma vadia, acabou. Chega. Terminamos. Pega suas flores e rasteja de volta pra sua namoradinha aleijada.
— O quê que você disse? Terminar?! — Os olhos de Ryan se arregalaram como se eu tivesse enlouquecido. — Emma, não ache que ter um pouco de talento pra medicina te faz a última bolacha do pacote! Sem o apoio da minha família, você acha que teria conseguido aquela oferta de Hopkins? Você tá fazendo birra agora, mas amanhã vai estar chorando e implorando pra eu te aceitar de volta!
— Mal posso esperar pra ver. — Eu encarei ele sem expressão. — Agora some antes que eu chame a segurança.
Bati a porta na cara dele, cortando os xingamentos furiosos.
Finalmente. Paz.
Fui até a pia e joguei água fria no rosto. No espelho — pálida, mas feroz.
A partir de hoje, ninguém mais vai me sugar até a última gota.
Nos dias seguintes, cortei todas as distrações e me enfiei no melhor laboratório da universidade, fazendo os preparativos finais para a Competição Nacional de Inovação Médica Juvenil.
Mas eu sabia que a Mia não ficaria quieta.
E, como era de se esperar, no terceiro dia uma postagem viralizou no fórum da escola.
O autor era anônimo, mas qualquer um com olhos conseguia dizer quem tinha escrito. O ápice do vitimismo: entre lágrimas, acusando uma “irmã gênio da medicina”.
Dizia que eu tinha inveja do amor dos pais pela irmã deficiente, que eu quebrava coisas em casa de propósito, que fugi cruelmente e que até ameacei cortar o remédio que salvava a vida da minha mãe.
Havia fotos borradas anexadas — imagens da destruição do laboratório e da Mia chorando na cadeira de rodas.
Os comentários explodiram. Os alunos que não sabiam a verdade enlouqueceram, me chamando de fria e dizendo que eu não tinha condições de estudar medicina.
Meu orientador, o professor Williamson, chegou a me chamar, dando a entender que eu devia vigiar meu comportamento e não prejudicar a reputação da escola nem minha elegibilidade para a competição.
Eu apenas assenti. “Professor, medicina é sobre fatos, não fofoca. Vou provar tudo com os meus resultados na competição.”
Não me defendi no fórum. No momento em que você começa a explicar, dá munição para continuarem atacando.
Naquela tarde, meu celular não parou de vibrar.
Na tela, apareceu “Pai”.
Atendi. A voz do David veio aos berros: “Emma! Sua MONSTRAzinha! Esse remédio já está pronto ou não?! Sua mãe começou a ter espasmos nervosos hoje à tarde! Venha pra cá com essa droga AGORA!”
Pelo telefone, ouvi os gemidos de dor da Sarah ao fundo. Minha mão no aparelho não tremeu.
Na minha vida passada, toda vez que a Sarah tinha uma crise, eu chorava e corria para casa com a medicação dela.
Agora, eu não sentia nada.
“Sr. Smith, eu te disse há três dias”, falei, sem emoção. “Os materiais se esgotaram. A fórmula original foi destruída. Uma nova extração leva seis meses.”
“CONVERSA FIADA! Você com certeza tem mais guardado! Você só quer ver sua mãe MORRER, não é?!” David gritou. “Estou te ORDENANDO a voltar pra cá agora! Ou vou te levar ao tribunal por ASSASSINATO!”
“Vai em frente.” Revirei os olhos. “Só pra você saber, o soro de reparo neural é patente MINHA. Eu não devo nada a vocês. Boa sorte esperando.”
Desliguei e bloqueei aquele número para sempre.
Ao pousar o celular, olhei para uma microcâmera escondida no canto do laboratório.
Por via das dúvidas, eu tinha instalado câmeras em todos os laboratórios — inclusive no de casa.
Eu conhecia a Mia bem demais. Ela nunca ia ficar parada me vendo competir e ter sucesso.
Assim como na minha vida passada, ela daria um jeito de destruir aquilo que eu mais valorizava.
