Capítulo 3
Ponto de vista de Emma
Final do Concurso Nacional de Inovação Médica Juvenil.
Todos os grandes nomes da medicina estavam ali. Professores de ponta de Hopkins e Harvard ocupavam as primeiras fileiras — ganhe hoje e você garante seu passaporte para o topo do mundo médico.
Eu estava nos bastidores, preparando minha apresentação, quando a porta se abriu de repente.
Mia entrou.
— Emma. — Ela segurava um latte fumegante, a voz suave. — Você me odeia, não odeia? Me desculpa, eu sei que estraguei tudo... A mamãe passou a noite toda agonizando. O papai está surtando. Eu trouxe um latte pra você — o seu favorito. Se você beber, você me perdoa? Por favor, dá o remédio pra mamãe.
Ergui o olhar para o rosto “inocente” dela.
O mesmo teatrinho de sempre da minha vida passada. Ela sempre aparecia com bebidas nos momentos decisivos, e eu sempre cedia e bebia. O resultado? Dores de cabeça dilacerantes durante as provas, alucinações, dados desmoronando, desastre total.
— Só deixa aí.
O pânico piscou nos olhos de Mia.
— É melhor beber antes que esfrie. Quando você beber, eu vou me sentir melhor.
Olhei para ela e, de repente, sorri.
— Tá bom.
Caminhei até lá, peguei o latte e virei tudo na frente dela.
Um triunfo puro explodiu nos olhos de Mia. Ela ficou encarando minha garganta, vendo eu engolir, e então soltou um suspiro enorme.
— Eu já vou. Boa sorte na competição. — Ela se virou e saiu correndo.
No instante em que a porta se fechou, eu corri para o banheiro.
Enfiei os dedos na garganta e forcei o vômito.
— Blegh—
O café misturado com ácido estomacal voltou na hora. Enxaguei a boca como uma louca até ficar completamente limpa.
Eu não só vomitei o café envenenado — selei a meia xícara que restou num tubo e enfiei no bolso.
Primeiro, vencer a final. Depois, acertar as contas.
Às dez em ponto, subi ao palco como a última apresentadora.
Os holofotes me inundavam. Mil elites do setor lotavam o auditório.
Respirei fundo, ativei o display holográfico e comecei a apresentar a “Tecnologia de Reparo Direcionado do Núcleo Neural”.
Minha mente estava cristalina. Cada dado, cada cálculo, impecável. Os jurados passaram do tédio para a concentração e então para anotar freneticamente.
— ...Em conclusão, esta tecnologia encerrará para sempre a era das neurodegenerações familiares incuráveis.
A plateia foi à loucura.
O jurado-chefe, professor Williamson, pegou o microfone.
— Srta. Smith, sua pesquisa é revolucionária! Em nome do comitê...
— BANG!
As portas pesadas do auditório se escancararam.
Todos viraram para o som.
David entrou cambaleando, com uma cara péssima, os olhos injetados, a roupa toda amassada. Atrás dele, Ryan empurrava a cadeira de rodas de Mia enquanto eles abriam caminho pela multidão.
Nos braços de David havia uma mulher convulsionando violentamente, espuma na boca.
Sarah.
Ela parecia morta. Os olhos revirados, os dez dedos cravando nos braços de David até sangrar. Sons desumanos rasgavam a garganta dela, como se cada nervo estivesse em chamas.
— EMMA!!
O grito desesperado de David ecoou pelo auditório silencioso.
A segurança tentou impedir, mas ele os empurrou como um louco e avançou até o palco, caindo de joelhos.
— O remédio! Me dá o remédio! Sua mãe está MORRENDO! — David ergueu o rosto para mim, lágrimas escorrendo, a expressão retorcida de desespero.
Ryan correu, apontando para mim.
— Emma, sua aberração sem coração! Você tem o remédio! Por que está deixando ela sofrer desse jeito? Que tipo de monstro você É?!
Mia cobriu o rosto, soluçando.
— Irmã, por favor, só dá o remédio pra gente. Eu me ajoelho...
Todos os jurados e a plateia encaravam, chocados. Olhares acusatórios me atingiam como lâminas.
Peguei o microfone e ri, gelada.
— Ué, eu estou confusa. Sr. Smith, o senhor está me pedindo aquele frasco... que a Mia quebrou com as próprias mãos três dias atrás?
O rosto de David empalideceu e, em seguida, ficou vermelho de fúria.
— Não tente fugir disso! Eu sei que você tem mais! Você só está se vingando!
Ryan enfiou o dedo na minha cara.
— Emma! Sua VADIA psicopata! Olha pra sua mãe e ainda fica pagando de inocente?!
Mia chorou mais alto.
— Irmã, eu sei que você está com raiva porque eu quebrei o frasco... mas você deve ter reservas, né? Você é inteligente demais pra não ter um plano B...
— ISSO! — David se agarrou à ideia. — Emma, para de mentir! Você com certeza tem mais guardado em algum lugar!
Os olhares iam e vinham entre mim e a família chorando lá embaixo. Os cochichos aumentavam.
Foi quando o professor Williamson se levantou, franzindo a testa.
Ele pegou o microfone, a voz confusa.
— Remédio? Que remédio?
Silêncio absoluto.
O professor Williamson caminhou até a frente, olhando para mim.
— Emma, eu não te disse que o soro de reparo neural da sua mãe tinha apenas um frasco da fórmula original?
