Capítulo 2

Ponto de vista de Emily

— Vamos brindar ao livramento da nossa pequena anjinha!

Meu pai ergueu a taça de champanhe enquanto uma salva de aplausos estrondosa enchia a sala de estar. Os flashes das câmeras disparavam como fogos de artifício, todas as lentes da imprensa focadas em Lily, sentada de forma lastimável no sofá.

Meu espírito flutuava no ar, observando friamente aquela celebração absurda.

— Carl!

A porta da frente se escancarou. Meu irmão mais velho, Carl, tinha voltado às pressas de Nova York, correndo direto para o lado de Lily e se ajoelhando diante dela.

— Lily, Jesus Cristo, você está bem? Quase enlouqueci quando soube. — Ele segurou as mãos dela com força. — Onde diabos está aquela vadia da Emily?

A sala inteira caiu em silêncio.

O rosto do meu pai escureceu:

— Não mencione aquele MONSTROzinho. Ela ainda não voltou para casa... obviamente fugiu de medo.

Carl se levantou num pulo:

— Como assim?

— O que você acha? — minha mãe zombou. — Emily estava trabalhando COM os sequestradores. Foi ela que deu a localização de Lily. Agora que foi desmascarada, é claro que está escondida.

Os olhos de Carl se inflamaram de raiva:

— Aquela PUTA! Eu sabia que Emily era perturbada... sempre emburrada, fria como gelo, morrendo de ciúme!

Os repórteres imediatamente empurraram os microfones para a frente quando Carl se virou para as câmeras, ardendo de indignação:

— Emily Walker é perversa desde criança. Ela não suportava que Lily fosse melhor do que ela. Esse sequestro foi o plano doentio dela! Ela queria que outra pessoa fizesse o trabalho sujo!

Foi então que Lily falou — no momento perfeito.

Ela enxugou os olhos com um lenço de papel:

— Carl, não fala assim da Emily... talvez ela só tenha cometido um erro...

— Lily, você é boa demais para o seu próprio bem! — Carl puxou a irmã para junto de si.

Lily soluçou baixinho:

— No porão, eu vi Emily brigando com os sequestradores. Talvez... talvez ela não quisesse mesmo me machucar. Só saiu do controle...

PÁ!

O punho do meu pai bateu na mesa:

— Aí está! Até Lily viu! Emily ESTAVA trabalhando com aqueles desgraçados!

— Eu, Arthur Walker, juro que, a partir de hoje, vou cortar TODO laço com Emily! Ela não é mais minha filha! Seus direitos à herança, ações da empresa, fundos do truste — TUDO acabou!

Enquanto os aplausos explodiam, meu espírito estremeceu.

Lembranças dolorosas me atingiram como um trem de carga.

Por quê? Nós somos gêmeas — por que eles adoravam Lily e me tratavam como lixo?

Nem sempre tinha sido assim.

Sim, Lily sempre foi a favorita — extrovertida e doce, enquanto eu era quieta e séria. Mas meus pais costumavam se importar comigo, e Carl era um irmão mais velho decente. Afinal, éramos gêmeas — as duas princesinhas Walker em público.

Naquela época, mesmo sendo a mais quieta, eu ainda me sentia amada.

Até aquela competição equestre quando fizemos dez anos.

Era a única coisa em que eu era melhor do que Lily. Eu tinha um talento natural para montar, destemida nos saltos. O treinador dizia que eu podia me tornar profissional.

Na noite anterior à competição, eu não consegui dormir. Eu só queria que o meu pai se orgulhasse de mim pelo menos uma vez — vencer Lily em alguma coisa.

Mas, no dia da corrida, meu cavalo, Thunder, estava agindo como um louco — olhos vermelhos, dando coices em tudo.

Eu não sabia que Lily o tinha drogado.

A corrida começou, e Thunder disparou como um foguete. Mas, bem antes do salto final, ele enlouqueceu.

Fui arremessada com força, e meu braço esquerdo explodiu em dor. Thunder avançava em linha reta para as arquibancadas onde Lily estava sentada.

— Cuidado!

Os seguranças detiveram Thunder bem a tempo. Lily estava bem — só assustada.

Quando meu pai correu até nós, foi direto para Lily:

— Meu Deus, querida, você está machucada?

Eu estava caída no chão com o braço quebrado, e ninguém estava nem aí.

— Pai, tem alguma coisa errada com o meu cavalo...

PÁ!

A mão dele estalou no meu rosto.

Meu pai me encarou de cima a baixo com puro nojo:

— Emily! Sua aberraçãozinha doente! Você tentou MATAR a sua irmã!

— Não! Pai, eu juro...

— Não minta pra mim, porra! — Outro tapa, que deixou meu ouvido zunindo por dias.

— Você NUNCA mais vai montar! É isso que você ganha por tentar assassinar Lily!

Meus sonhos foram destruídos.

Naquela noite, Lily foi me visitar no quarto do hospital. Ela me encarou engessada, sem o menor traço de culpa — na verdade, sorrindo.

— Dói, Emily? — Ela tocou no meu braço quebrado. — Da próxima vez, lembre-se do seu lugar. Nunca tente me vencer.

Tudo mudou depois disso.

Lily começou a virar nossos pais contra mim. Toda vez que eu me saía bem em alguma coisa, ela “acidentalmente” deixava escapar algo.

— Mãe, pai, a Emily estava falando mal de vocês de novo... — “Emily disse que odeia o fato de vocês me amarem mais...” — “Emily disse que queria que eu estivesse morta...”

Ela sempre parecia tão inocente e magoada, como se não quisesse dedurar.

Meus pais começaram a duvidar de mim. Carl se afastou. Eu me tornei a filha invejosa e manipuladora saída do inferno.

Tentei explicar, mas toda defesa minha parecia mentira. E Lily sempre me “defendia” no momento exato — fazendo com que ela parecesse uma santa e eu, um monstro.

Depois disso, parei de tentar competir. Estudei pra caramba, trabalhei feito uma condenada, comecei de baixo na Walker Corp e dei duro pra provar que eu tinha valor.

Há três meses, depois de anos me matando de trabalhar, finalmente consegui a aprovação unânime do conselho como herdeira.

Achei que meu pai finalmente fosse me respeitar.

Mas, quando entrei no escritório dele cheia de esperança, ele me entregou papéis abrindo mão da minha herança.

Meu pai acendeu o cigarro:

— Assina, Emily. Você sempre foi só o degrau da Lily. Agora pode dar o fora.

Minhas mãos tremiam:

— Pai... isso não está certo... eu dei tudo por esta empresa...

— Deu? — Ele riu. — Você acha que eu sou idiota? Tudo o que você fez foi para roubar o direito de nascença da Lily. Mas aqui vai a verdade—

— Nesta família, você é só uma SUBSTITUTA. Lily é a minha filha de verdade.

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