Capítulo 3

Ponto de vista de Emily

Ding-dong—

A campainha interrompeu o jantar da família Walker.

Meu espírito flutuava sobre a sala de jantar, observando a família inteira paparicando a Lily. Carl estava servindo comida para ela, enquanto meus pais não paravam de perguntar como ela estava se sentindo, como se ela tivesse acabado de escapar da morte.

Eu, não.

—Eu atendo. —Carl se levantou e foi até a porta da frente.

No instante em que ele abriu, minha alma estremeceu.

Do lado de fora estava Jeffrey — meu namorado havia três anos.

Ele segurava uma garrafa cara de vinho francês, com o sorriso mais caloroso que eu já tinha visto.

—Carl, eu soube do que aconteceu com a Lily. Vim ver como ela está. —A voz de Jeffrey estava cheia de preocupação. —E a Emily? Ela está bem?

Se meu coração ainda estivesse batendo, estaria disparado de esperança. Finalmente — alguém que se importava comigo.

Mas Carl bufou:

—Nem menciona aquela VADIAzinha. Ela é covarde demais pra mostrar a cara — obviamente culpada pra caralho.

Jeffrey assentiu e não me defendeu:

—É... isso tudo é insano.

Eu encarei Jeffrey, chocada. Era o mesmo Jeffrey que costumava me defender quando minha família me despedaçava?

—Jeffrey! —o rosto de Lily se iluminou. —Você veio!

Jeffrey caminhou rápido até a mesa e colocou o vinho:

—Eu fiquei preocupado com você. É um Bordeaux de 1982 — dizem que ajuda com o estresse.

Então ele puxou a cadeira ao lado de Lily e se sentou.

Aquele costumava ser o meu lugar.

—Lily, você ainda está pálida. —Jeffrey pegou faca e garfo. —Deixa eu cortar isso pra você.

—Você é tão gentil. —Lily corou.

Eu sabia que ela sempre tinha uma quedinha pelo Jeffrey — mais um motivo para ela me odiar. Eu só nunca achei que o Jeffrey iria...

Eu assisti, horrorizada, enquanto Jeffrey cortava com cuidado o bife de Lily — com o mesmo carinho delicado que antes ele só demonstrava comigo.

Carl abriu um sorriso:

—Jeffrey, você devia ter largado a Emily anos atrás. Ela é fria como gelo comparada com a Lily aqui. Vocês dois seriam perfeitos juntos.

Eu esperava que Jeffrey me defendesse.

Mas ele apenas sorriu, sem graça:

—Talvez você tenha razão... a Emily pode ser bem...

—Bem o quê? —Meu pai pousou a taça, observando Jeffrey com interesse.

Jeffrey hesitou:

—Bem... distante. Quer dizer, comparada com a Lily...

CRASH—

Alguma coisa se estilhaçou dentro do meu peito.

Três anos. Três anos da porra, e era isso que significavam pra ele.

—A Emily sempre foi calculista. —Linda se aproximou com a taça de vinho. —Jeffrey, você namorou com ela tempo suficiente — você deve ver isso também.

Jeffrey pousou o garfo, de repente sério:

—Na verdade... eu tenho pensado em terminar com a Emily.

Todos se viraram para encará-lo.

—Terminar? —Lily pareceu surpresa.

Jeffrey assentiu:

—Ela é tão paranoica, sempre me acusando de olhar pra outras mulheres. E o ciúme — especialmente com a Lily.

—Que tipo de ciúme? —Carl se inclinou para a frente.

—Ela vive reclamando que vocês favorecem a Lily em vez dela. Diz que ela merece herdar a empresa. —Jeffrey olhou de relance para meu pai. —Ela até me pediu pra ajudar a desenterrar sujeira sobre a Lily.

—Ela O QUÊ?! —a mesa inteira explodiu.

Meu mundo desabou.

Aquilo não era cavar sujeira — eu suspeitava que Lily estava me sabotando e queria uma prova da minha inocência. Mas Jeffrey estava distorcendo tudo e transformando em evidência de que eu estava tramando contra a minha irmã.

Como ele pôde me trair desse jeito?!

—Eu recusei, óbvio —Jeffrey continuou. —Quer dizer, a Lily é uma pessoa tão doce… o que poderia ter? Mas a Emily ficou furiosa e disse que terminaria comigo se eu não ajudasse.

Os olhos de Lily se encheram de lágrimas:

—Ela queria mesmo…

—Eu devia ter me afastado naquela hora. —Jeffrey olhou para Lily com um anseio escancarado. —Ficar perto de alguém realmente bondosa me fez perceber o que eu estava perdendo.

Carl bateu o punho na mesa:

—EU SABIA que a Emily era veneno! Ela tentou te arrastar para esses planos doentios dela!

—Nós subestimamos o quão deturpada ela é. —A voz do meu pai estava gelada. —Jeffrey, graças a Deus você não ajudou.

—Como eu poderia machucar a Lily? —Jeffrey balançou a cabeça. —Sinceramente, olhando para trás, para aqueles três anos com a Emily… isso me dá nojo.

Eu entendi. Finalmente enxerguei o quadro inteiro.

Jeffrey nunca me amou. Ele esteve apaixonado por Lily desde o começo.

Eu era só o caminho de entrada — um degrau para chegar perto de Lily. Mas por que ele não foi atrás dela diretamente?

—Pai. —A voz de Lily tremeu. —Se a Emily me odeia tanto assim… e se ela tentar me machucar?

Meu pai enrijeceu na mesma hora:

—Como assim?

—Eu tenho medo de ela voltar para se vingar. —O medo encheu os olhos de Lily. —Principalmente depois de perder a herança…

—Não se preocupe, meu amor. Eu nunca mais vou deixar ela chegar perto de você. —Meu pai pegou o celular. —Vou ligar para o meu advogado para cortar todos os laços com ela. E preciso encontrar aquela pirralha e fazer ela assinar os papéis da herança.

Ele continuou discando meu número. Sem resposta, todas as vezes.

—MALDIÇÃO! —Ele rugiu e socou a mesa. —Ela nem atende minhas ligações!

Eu flutuava ao lado dele, assistindo à fúria, sentindo um vazio completo por dentro.

Pai, eu não posso atender. Eu já estou morta.

Meu pai respirou fundo e discou outro número.

—Aqui é Arthur Walker. Eu preciso do médico-legista responsável pelo caso de sequestro.

Quando alguém atendeu, a voz do meu pai ficou cortante:

—Escute, quando é que a minha filha, Emily Walker, termina o depoimento dela? Mande ela voltar para casa AGORA, ou ela está banida desta família para sempre!

Silêncio absoluto do outro lado.

Tempo suficiente para meu pai perder a paciência:

—Alô? Você está aí? Me responda!

—Sr. Walker… —A voz tremia. —A Emily… ela…

—Ela O QUÊ? Fala!

Depois do que pareceu uma eternidade, a voz trêmula do médico-legista trouxe a notícia:

—Sr. Walker… a Emily morreu por perda de sangue naquele porão. Ela está morta há uma semana.

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